Metodologias ativas de ensino-aprendizagem

1 Comentário // em A Espiral Destaque // 16 de dezembro de 2009

Medicina UFSCar

Nas últimas décadas, descobertas e transformações de diversas áreas do conhecimento humano abriram caminho para uma reflexão profunda sobre os processos de criação e de transmissão dos saberes e, também, das estratégias de ensino-aprendizagem. Aprendemos que os conhecimentos são melhores adquiridos, recordados e usados quando ensinados, praticados e avaliados no ambiente em que serão utilizados. Atravessamos um processo de acumulação exponencial e de constante renovação dos conhecimentos exigidos no ambiente profissional. O acesso aos serviços de saúde foi ampliado e, agora, é considerado um direito social. Isso, aliado a outros mecanismos de propagação de conhecimentos, ocasionou um maior acesso às informações sobre saúde. As pessoas estão mais conscientes acerca dos seus direitos e dos cuidados para com si mesmas. Dessa forma, a expectativa dos usuários destes serviços foi alterada e, principalmente, as relações deles com os profissionais que os atendem se constitui através de novos significados. No âmbito da saúde coletiva, ocorreu uma mudança no perfil epidemiológico da população de nosso país, com predomínio crescente das doenças crônico-degenerativas, que envolve transformações das estratégias e ações em saúde. As experiências têm nos mostrado que as necessidades de saúde são complexas e que o cuidar integralmente da saúde das pessoas requer conhecimentos interdisciplinares e uma abordagem multiprofissional.

Inseridas nestes processos de descobertas e transformações, principalmente desde as décadas de 1960 e 70, no mundo, e 90, no Brasil, iniciaram-se discussões sobre a necessidade de transformação do ensino médico. O modelo tradicional pelo qual se ensina medicina é baseado no Relatório Flexner de 1910 que avaliou as condições de escolas médicas dos Estados Unidos e do Canadá e propôs algumas recomendações para, na época, reorganizar e reorientar o funcionamento das escolas médicas. Sugeria, entre outros pontos, a divisão do currículo em ciclo básico e clínico realizado em hospital e programas curriculares pautados em base científica estrita, de cunho positivista. No relatório enfatiza o modelo biomédico, centrado na doença, hospitalocêntrico e não considera as dimensões sociais, psicológicas e coletivas implicadas no processo saúde-doença. Tomado como modelo correto, guiou a educação médica durante todo o século XX até o atual momento que sinaliza com a possibilidade e a necessidade de construção de um novo modelo de educação médica, compromissado com os novos saberes adquiridos ao longo do século, pautado na realidade social e nas necessidades da população.

Nesse sentido, na década de 1990, no Brasil, foram realizadas algumas aproximações de reestruturação curricular em certas instituições de ensino médico e, concomitantemente, ocorreu um debate mais intenso sobre o assunto. Esse processo foi sintetizado, em 2001, nas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Medicina (DCN), definidas pelo Conselho Nacional de Educação. As DCN definem que os cursos de medicina devem formar médicos “com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, capacitado a atuar, pautado em princípios éticos, no processo de saúde-doença em seus diferentes níveis de atenção, com ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação à saúde, na perspectiva da integralidade da assistência, com senso de responsabilidade social e compromisso com a cidadania, como promotor da saúde integral do ser humano”. Além disso, as DCN estabelecem que o desenvolvimento curricular deve basear-se nas necessidades de saúde da população, promovendo a interação entre o serviço, o ensino e a comunidade, preferencialmente nos serviços do SUS. Elas indicam, também, o estabelecimento de novas estratégias de ensino-aprendizagem e de avaliação do aprendizado.

É neste contexto que surge o Curso de Medicina da UFSCar ao propor uma mudança na forma de ensino, baseado neste longo processo de repensar o ensino médico. Sugere, como estratégia, à aproximação da Universidade com o SUS e objetiva uma formação humanizada, de excelência e orientada às necessidades de saúde da sociedade. Concentra em seu projeto político pedagógico, os conceitos do currículo orientado por competências, da integração da teoria com a prática e da abordagem educacional construtivista. Esta abordagem busca alterar os processos tradicionais de aquisição de saberes a partir “da memorização e da transferência unidirecional e fragmentada de informações e de habilidades por um processo de construção e significação de saberes a partir do confronto com situações reais ou simuladas da prática profissional” e possibilitar, assim, que os estudantes adquiram competências consideradas necessárias à sua futura prática profissional. O desenvolvimento destas competências baseia-se na integração da teoria com a prática, na aprendizagem significativa e de adultos e na utilização de metodologia ativa de aprendizagem. O processo de ensino-aprendizagem nessa metodologia direciona-se para o desenvolvimento da capacidade do estudante de construir ativamente seus saberes, articulando seus conhecimentos prévios com o estímulo proporcionado pelos problemas selecionados para o estudo. O estudante tanto desenvolve e utiliza o raciocínio crítico e suas habilidades de comunicação para a resolução de problemas, como também passa a entender a necessidade de aprender ao longo da vida. Além disso, a metodologia ativa de aprendizagem desenvolve no estudante a habilidade de trabalhar em grupo e estimula o estudo individual, de acordo com os interesses e o ritmo de cada um. O aprendizado passa a ser centrado no estudante, que deixa de ser um mero receptor passivo de informações, para ser agente e principal responsável pela construção de seu conhecimento. Sendo assim, a responsabilidade sobre a aquisição desse conhecimento que era exclusivamente do professor passa a ser compartilhada com o estudante. O professor, aqui, revê o seu papel e não mais ensina da maneira tradicional, mas sim facilita o trabalho com o grupo de estudantes, conduzindo-o.

Toda essa mudança de paradigma na educação médica acaba por originar questões sobre a eficiência das alterações propostas para formar profissionais médicos. Estudos realizados nos últimos dez anos apontam maior quantidade de resultados positivos para as competências e habilidades adquiridas por estudantes desta metodologia do que negativos, quando comparados estudantes que cursaram currículos baseado em metodologias ativas com aqueles que utilizaram o método tradicional. Os resultados negativos concentram-se em uma menor aquisição de conhecimentos fisiopatológicos e entendimento do processo das doenças. Já entre os resultados positivos destacam-se a melhora nas relações interpessoais, na aquisição de competências relacionadas à dimensão social, no lidar com questões éticas, na relação com a atenção primária e o ambiente hospitalar, na promoção e prevenção de doenças, além dos estudantes desenvolverem maiores capacidades pessoais de busca por conhecimento e iniciativa. Outros aspectos de desenvolvimento, em sua maioria, mostram-se iguais nos dois métodos. As comparações realizadas permitem afirmar que a educação médica através de metodologias ativas talvez não seja superior à tradicional e que, em nenhum momento, é menos eficiente. Porém, essas novas estratégias configuram-se um formato animador para que se efetivem as mudanças debatidas e as propostas sugeridas nas DCN.

O formato da educação médica precisa pautar-se nas descobertas e transformações ocorridas ao longo das décadas e na realidade dos tempos atuais.

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1 Comentário em "Metodologias ativas de ensino-aprendizagem"

  1. Cícero disse:

    Parabéns, gato! Seu artigo me ajudou bastante. Abraços.

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