Qual o perfil de médico que a UFSCar quer formar?

0 Comentários // em A Espiral // 16 de dezembro de 2009

Qual o perfil de médico que a UFSCar quer formar?Todos os estudantes de medicina, em algum grau e em algum momento, imaginaram-se no futuro, atuando como médicos. É justamente nessa fantasia em que costumam se perguntar: “afinal, que tipo de médico eu vou ser?”
Alguns não têm idéia do que aguardar para o futuro, enquanto outros estão determinados, como se fossem predestinados, a seguir uma dada especialidade.

No entanto, conforme avançamos pelo curso e vivemos as experiências da prática Médica, notamos que, a todo o momento, nossas crenças são colocadas à prova. Assim, a área de especialização lato sensu é, para a grande maioria dos estudantes de Medicina, uma incógnita que permeia todo o curso de graduação, podendo ainda existir por vários anos após a formatura.

Podemos pensar em várias teorias que podem explicar essa hesitação por parte dos estudantes, como, por exemplo, o pouco contato com as especialidades médicas nos primeiros anos da graduação e a imensa responsabilidade de escolher, com todas as consequências, como seu futuro profissional será traçado. Somado a isso, temos ainda a maior valorização do médico que atua como especialista em relação ao que atua como generalista dentro da cultura e da estrutura de ensino e da prática no Brasil. Dessa forma, uma das poucas certezas que a maioria dos estudantes de Medicina tem, apesar de toda a incerteza que envolve este assunto, é que terá que se especializar ao final do curso de graduação. Levando tudo isso em conta, uma dúvida ainda teima em me perturbar: “a Medicina é feita, portanto, por especialistas?”

Através da observação do dia-a-dia dos serviços de saúde nos quais estou inserido e da reflexão sobre as minhas experiências práticas, eu pude chegar a uma conclusão a esse respeito: a medicina é feita por médicos. Apesar de sua obviedade, eu notei que, em muitas situações, minha tese não se aplica à realidade, seja por falha na formação acadêmica ou no modelo de atenção à saúde – para exemplificar, posso citar o alarmante índice de 61,4% de reprovação no Exame do Cremesp de 2008; e o modelo hospital-centrado predominante no país. Assim, através da ação sinérgica desses fatores, senti-me respaldado a pensar que a academia e a prática da medicina induzem à formação de especialistas, ao invés de médicos generalistas competentes.

Em outras palavras, percebi que existem muitos profissionais com conhecimento altamente especializado que, quando se deparam com patologias de alta prevalência, como diabetes e hipertensão, pecam na formulação de um raciocínio clínico coerente, na abordagem terapêutica e/ou na realização de técnicas básicas de exame clínico, principalmente as que envolvem a relação médico-paciente. Como consequências desse fenômeno, podemos ainda citar a despersonificação do paciente, que passa a ser visto, por exemplo, como um coração, um fígado ou um rim doente, de acordo com o especialista que o atende, ao invés de ser considerado como um todo biopsicossocial; e o “conluio do anonimato”, ou seja, a diminuição da responsabilização do médico em relação ao cuidado do seu paciente quando este cuidado é compartilhado com outros médicos. Devo ressaltar que conto com a sorte de ter bons preceptores que, apesar de especialistas, são bons generalistas. Isso me permitiu comparar o atendimento dos vários médicos que se envolveram no cuidado dos meus pacientes, principalmente daqueles que trabalham no sistema de referência e contra-referência, e, baseado na literatura e na resolutividade de cada um, pude chegas às minhas conclusões.

A minha tese, por sua vez, fez-me questionar também se não há uma solução para tal situação, já que minhas expectativas para o futuro não contemplavam trabalhar em um contexto como esse. Então, com um pouco de pesquisa e um mais um tanto de observação, reparei que, apesar de toda a resistência, existe um movimento de reformulação tanto do ensino como da prática da medicina no Brasil, buscando restabelecer o equilíbrio entre especialidade/generalidade e aprimorando o cuidado ao paciente. Apesar de tímidas, as mudanças curriculares dos mais tradicionais cursos de medicina refletem a necessidade em resgatar o objetivo primordial da graduação, que é formar médicos generalistas competentes, através de um contato mais precoce e mais completo com as três atenções em saúde. Além disso, a implantação do Programa Saúde da Família foi o primeiro passo de uma longa caminhada que pretende tirar o foco da atenção centrada em procedimentos e recolocá-la naquela centrada ao paciente, através de, entre outras coisas, a criação de equipes de referência e apoio matricial especializado, o que visa harmonizar a atuação do médico como especialista e como generalista – para compreender melhor o que quero dizer, sugiro a leitura dos textos do Prof. Dr. Gastão Wagner de Sousa Campos, Professor Titular de Medicina Preventiva da UNICAMP sobre esse assunto.

Levando toda essa reflexão em conta, a dúvida sobre qual especialidade seguirei tornou-se secundária no contexto de minha formação, pois estou convicto que é principalmente a qualidade da minha graduação que definirá que tipo de médico que serei no futuro: bom ou ruim.

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