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Sobre “O Pecado da Carne” (Eyes Wide Open, Israel, 2009)

O cinema israelense contemporâneo criou várias obras sobre relações amorosas entre homens. A mais recente, o filme de Haim Tabakman explora as consequências de um envolvimento entre dois judeus ortodoxos em Jerusalém. Um açougueiro kosher na faixa dos quarenta anos, casado e com quatro filhos, se envolve com um jovem recém-chegado e de passado misterioso. A forma realista com que a relação é retratada em seu confronto com as normas religiosas e a complexidade das personagens faz do longa israelense um raro exemplo de representação cinematográfica da vida da grande maioria das pessoas que se apaixonam por outras do mesmo sexo.
Neste filme, homens comuns e inseridos em vidas tradicionais descobrem e tentam viver um amor fora das normas. O açougueiro, sem dúvida, é a expressão do drama do ajustado diante do desejo homoerótico, mas o jovem mais certo sobre seus interesses também tem sua dor: a de ser alguém que busca viver dentro da tradição que o recusa e expele. Drama não muito distinto do modelo “agnóstico” de gays de classe-média alta que constroem suas vidas longe das famílias e em um constante drible das normas e da tradição com as quais não deixam de flertar. O que as atuais lutas pelo casamento e pela adoção de crianças revela.
Eyes Wide Open nos insere na ortodoxia judia, raíz de nossa própria tradição judaico-cristã, mas as rígidas normas religiosas podem ser vistas como muito mais do que isso. Afinal, até o mais agnóstico entre nós vive dentro de uma sociedade construída sobre esta tradição. Confronto e recusa da tradição são coisas distintas, o que o filme torna – de forma sutil e sólida – visível. Talvez por isso mesmo a relação entre os dois homens pareça mais factível do que a da maioria das produções cinematográficas pós-O Segredo de Brokeback Mountain.
Richard Miskolci