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Os desafios de uma política e uma teoria queer brasileiras: reflexões preliminares

Os desafios de uma política e uma teoria queer: reflexões preliminaresRichard Miskolci

Durante o mês de junho, participei de eventos e proferi palestras lidando com o tema da política queer tanto em fóruns culturais, do ativismo quanto na universidade. A experiência suscitou muitas reflexões e – espero – ,em breve, ao menos um artigo acadêmico. Enquanto não o crio, exponho preliminarmente, no blog Ponto Q, minhas inquietações.

Há muitos anos, costumo dizer que devemos estranhar o que nos estranha. Minha confiança e compromisso ético com esta política do “estranhamento” das normas, das instituições e das convenções sociais me parecia ser suficiente. Agora, com maior contato com as disputas acadêmicas e políticas em torno do queer, sinto a necessidade de reaprender a história e tentar mapear nosso presente com mais cuidado. Refiro-me ao risco de que princípios tornem-nos paranóicos, ou seja, como bem descreveu Sedgwick em um de seus últimos livros, enredados nos termos das relações de poder que visamos contestar e reverter.

Política:
Nos EUA, o queer surgiu das bordas do movimento feminista branco e de classe- média assim como das margens do movimento gay também predominantemente branco e classe-média. Assim, o movimento queer emerge como coalizão feminista-gay marginal com pessoas negras, chicanas, profissionais do sexo, portadores do hiv, esquerdistas, etc. E no Brasil?
De certa forma, a transformação do movimento homossexual brasileiro em LGBT tem paralelo com o que se passou em outras partes do mundo – e não apenas nos EUA. Tendemos a estender o paralelo e ver na entrada dos B e d@s T nossa forma de New Gender Politics. Será?
Quando noss@s ativistas começaram a falar do queer foi muito mais dentro de uma recepção “de orelhada”. Medidas internas ao movimento justificadas pelo rótulo visto como moderno revelam estar muito mais marcado por uma domesticação e incorporação estratégica do termo dentro de lutas bem nossas, bem brasileiras e constituídas – no fundo – por aqueles/as que já estavam estabelecidos/as (sobre isto consulte o excelente artigo de Tiago Duque).
Em outras palavras, ao contrário do que parece à maioria, permanecemos dentro de um jogo político em que a aparente luta entre os “gays” e os “queer”, ou entre política identitária e pós-identitária, não está realmente configurada ou talvez nem traduza exatamente o que se passa no Brasil de nossos dias.

História:
Como alguém pode se considerar queer sem identificar as especificidades de seu entorno social e histórico? Devemos estranhar a sociedade que nos estranha, mas a sociedade brasileira em particular.
Como proposta política que nasceu das margens, o queer impõe que identifiquemos o que faz parte da nossa realidade de sociedade pós-escravista, colonial, marcada pelo imperialismo, fatos que criaram convenções culturais na esfera da sexualidade e do gênero. Neste sentido, o trabalho histórico dos/as primeiros/as pesquisadores na área dos estudos gays e lésbicos no Brasil (assim como em outras partes do mundo) precisa ser reconhecido, respeitado e incorporado – no mínimo – como tendo aberto o caminho para as vertentes políticas e teóricas contemporâneas. Nossa tradição de estudos nesta linha é, em sua maior parte, cultural, construtivista e histórica, portanto tem elementos suficientes para permitir o diálogo e o intercâmbio com o queer.

Além disso, é importante ressaltar que a ambas, nossa tradição e pesquisas sofisticadas sobre “minorias” e aos nossos queer brasileiros, ainda falta um maior contato e incorporação do pensamento feminista, dentro do qual, historicamente, é que nasceu e se desenvolveu a Teoria Queer. Infelizmente, quer nos estudos sobre culturas sexuais (ou “minorias”) quer nos que se autodenominam queer pouco se explora o pensamento feminista que lançou as bases para as teorias e conceitos que hoje se cultuam como, por exemplo,  heterossexismo e heteronormatividade.

Normas e convenções culturais:


Não tenho dúvida de que o alvo queer é mais do que a heteronormatividade, a divisão compulsória da humanidade no binário interdependente da hetero-homossexualidade. Já em 1985, em Between Men, Sedgwick ressaltava que cada sociedade compreende algo como sexual (e diria eu, também cria gêneros) a partir de sua forma particular de relações de poder. Normas tendem a enfatizar o “universal”, o que nos insere na cultura ocidental como um todo, mas nossas convenções culturais as matizam, moldam e criam uma realidade particular. Daí, desde a primeira versão (2006) de meu artigo O Vértice do Triângulo” eu falar de uma heteronormatividade brasileira, a qual, infelizmente, mal começamos a pesquisar. Trata-se de uma agenda de pesquisa que pode se perder ao desqualificar o que já foi feito, ao se seguir na tradição dos estudos identitários ou mesmo seguir criando os queer desconectados dos dois anteriores.

Queer Brasileiro na Política e na Teoria?

Na Política:
Há muito que a divisão política identitária e pós-identitária parece elusiva. Os termos da luta política mudaram de maneira a tornar o apelo às identidades restritivo e excludente assim como a perspectiva pós-identitária encara o desafio das demandas por identidades, mesmo que provisórias, mutáveis ou “estratégicas”. Nem todo objetivo político impõe uma disputa entre estas perspectivas que tendem a se combinar de acordo com a circunstância e o objeto de luta. Há, de lado a lado, uma carência de debate sobre a política contemporânea, as armadilhas criadas pela dependência entre movimento social e Estado, a emergência de novas demandas sociais de reconhecimento, outras formas de fazer política e, sobretudo, a necessidade de ir além das críticas e se criar uma alternativa ao ativismo identitário liberacionista diante das formas mais sofisticada de controle social do presente.

Na academia:


Sem fazermos a transição e incorporação necessária da tradição dos nossos sofisticados estudos gays e lésbicos, da miríade de pesquisas sobre culturas sexuais não-normativas para dentro das que ensaiam compreender nossa heteronormatividade, as fronteiras mutáveis entre hetero e homossexualidade, permaneceremos seguindo, separados e mais frágeis, em duas vertentes que se tangenciam, disputam ao invés de – em uma característica que marcou o queer desde o início – criarem uma coalizão mais poderosa em direção a objetivos comuns.

Será possível ou desejável separar política e teoria?

Os intercâmbios entre a política e a teoria na vertente dos Saberes Subalternos prova que a divisão estanque entre as duas é uma ilusão. Saber e poder estão sempre conectados e parte da pesquisa acadêmica, ao menos desde as transformações profundas da década de 1960, responde à emergência de novos sujeitos, questões e problemáticas que são – ao mesmo tempo – objeto de reflexão e ação política. Refiro-me aqui explicitamente à Teoria Feminista (dentro da qual emerge e se desenvolve a Teoria Queer) e aos Estudos Pós-Coloniais, os quais cada vez se aproximam nas discussões sobre as intersecções dos marcadores sociais da diferença. Infelizmente, tais estudos se desenvolvem cada vez mais como uma fórmula ou instrumento na criação de artigos e teses, ao invés de conectados às demandas políticas que os originaram.