0

Mesa “Rotas e Desvios” no Seminário Internacional Fazendo Gênero 9

Mesa redonda: Rotas e Desvios: Teorias Globais e Locais de Sujeitos, Identidades e Práticas Queer

Coordenação: Larissa Pelúcio (UNESP/Bauru)

Mesa Rotas e Desvios - Discussões Queer com Jack Halberstam, Marcia Ochoa e Richard Miskolci no Fazendo Gênero 9, Floripa, 2010

A mesa discutiu as rotas e os desvios que marcam práticas, construções identitárias e subjetivações fora das normas a partir de apresentações de pesquisador@s queer: Jack (Judith) Halberstam, Marcia Ochoa, Ana Cecília Acioli Lima e Richard Miskolci. Jack (Judith) Halberstam problematizou a forma como teorias de gênero criadas nos EUA e na Europa universalizando e estabilizando variações de gênero locais. Marcia Ochoa explorou, a partir de uma etnografia diaspórica queer, as dimensões afetivas da marginalização que conectam o contexto venezuelano a um circuito transnacional midiático renegociando relações de poder. Ana Cecília Acioli Lima explorou a política da ambigüidade corporal e identitária na obra de Jeanette Winterson. Richard Miskolci, por sua vez, procurou descentrar a teoria queer problematizando suas relações com a categoria raça-etnia em uma pesquisa histórica sobre a articulação entre o desejo e o projeto político-cultural de nação no Brasil finissecular.

Plateia da Mesa Rotas e Desvios no Fazendo Gênero 9, Floripa, agosto de 2010

A política dos corpos ambíguos na ficção de Jeanette Winterson
Ana Cecília Acioli Lima (UFAL)

A autora britânica Jeanette Winterson tem sido acusada por algumas teóricas feministas de trair os interesses políticos das lésbicas por, em boa parte de suas narrativas, não nomear a orientação sexual das personagens, privilegiando corpos ambíguos e identidades fluidas e provisórias. Nesse aspecto, podemos dizer que a forma como Winterson desestabiliza o binarismo dos discursos que normatizam os corpos e rompe com noções essencialistas de subjetividade e identidade a aproxima mais do Queer do que de algumas vertentes do feminismo. Entretanto, contrariamente à idéia de algumas feministas-lésbicas de que a ausência de um sujeito definido impossibilita a política, defendo que a perspectiva feminista-queer de Jeanette Winterson em sua ficção não universaliza o amor e a homossexualidade de maneira apolítica, muito menos reduz a representação de corpos ex- orbitantes, abjetos, ou queer, ao mero jogo lingüístico ou à mera experimentação formal. Discuto brevemente, neste trabalho, as maneiras em que a autora desestabiliza e (re)configura os corpos sexuados emThe Passion (1987), Sexing the Cherry (1989) e The Powerbook (2000), a fim de ilustrar como a política nas suas narrativas reside exatamente nas possibilidades de perspectivas analíticas críticas, situadas na intersecção entre uma multiplicidade de posições de sujeito e suas relações com os discursos do poder e seus respectivos sistemas de controle e normatização.

Global Female Masculinities
Jack (Judith) Halberstam (University of Southern California)

This talk is divided into three sections. In the first, I survey the work of Judith Butler, and in particular her theories of transgender identification, to consider the parochial nature of discussions of gender variance in North America and in Europe. My aim in this first section is to show how contradictory the politics of performativity can be and how much confusion there is in a US/European context in relation to thinking about gender stability and gender flexibility and their relations to gender normativity. Having localized a set of debates about gender variance in a US/European context, I turn to a global context and trace the way that these very local debates about gender variance become stabilized and universalized when they form the basis for studies of gender variance elsewhere. In the final section, I survey some recent films which take the diversity of global transgenderism seriously.

Desejos e Desvios no Brasil finissecular

Richard Miskolci (UFSCar)

Este artigo explora as relações entre o projeto hegemônico de nação e a emergência do dispositivo de sexualidade no Brasil de fins do século XIX. Busca reconstituir a rede de discursos políticos, científicos e literários que marcou a configuração local da sexualidade articulando nossa fortuna crítica sobre nação, a pesquisa histórica nos arquivos e o referencial teórico dos Saberes Subalternos, a vertente culturalizada do marxismo que originada a partir dos Estudos Culturais britânicos e enriquecida pela filosofia pós-estruturalista – gerou os Estudos Pós-Coloniais e a corrente feminista conhecida como Teoria Queer. Foca, sobretudo, na identificação e análise do regime de verdade que instituiu o binário da hetero-homossexualidade como enquadramento dentro do qual o desejo se associou à construção de nossa identidade nacional.

“La moda nace en Paris y muere en Caracas”: Fashion, Beauty and Consumption on the (Trans) National
Marcia Ochoa (Community Studies – University of California at Santa Cruz)

“Fashion is born in Paris and dies in Caracas,” declares a clique of Venezuelan gay men who came of age in what was called “La Venezuela Saudita” – a Venezuela of the 1970s, flush with petrodollars. This queer saying understands fashion to be produced in certain places, to travel by various means, and to somehow encounter its death in Caracas. Fashion and beauty were important concerns in the production of the Venezuelan nation from the late 19th through the 20th C. As place that has been seen as “out of the way,” Venezuela has engaged in a litany of practices to center itself. On a national, regional and individual level, the politics of center and periphery take particular forms. This talk examines the ways the nation of Venezuela uses beauty and femininity to make center and dispute periphery through the national beauty pageant, and the forms of marginality and centering invoked and experienced by transformistas, a kind of Venezuelan transgender woman.
In the current moment, when the constitution of center and periphery are being deeply reformed in Venezuela through the Bolivarian Revolution, this queer diasporic ethnography roots out the affective dimensions of marginalization, and the role of transnationally-mass mediated discourses in the making of place and the negotiation of power. This work can be seen as a general theory about how glamour works to momentarily reorder social relations. Based on archival research in the history of the beauty pageant in Venezuela and ethnographic work with participants and producers in the national beauty pageant, this paper argues that fashion, beauty and femininity are tools to access the transnational magic of glamour in Venezuela. Further, it argues that these strategies to produce national identity and dispute periphery are also tools for the selfmaking projects of transformistas.