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Sexo em sala de aula – provocações para um currículo heteronormativo

O desafio de trabalhar, pelo prisma das ciências sociais, com sexualidades, gênero, identidades, diferenças em uma turma de Psicologia, acabou resultando em um conjunto bastante interessante de trabalhos, dos quais três deles estão publicados aqui no Ponto Q.

Abaixo, Larissa Pelúcio discute, brevemente, sua experiência nesse sentido.


Os texto apresentados aqui foram selecionados a partir de um conjunto de 35 trabalhos escritos como exigência para a conclusão da disciplina Antropologia II, ministrada por mim, Larissa Pelúcio, à turma do segundo ano de Psicologia, da Faculdade de Ciências, Unesp, campus Bauru.

Nosso programa procurou contemplar temas contemporâneos e que possibilitassem o diálogo entre Ciências Sociais e Psicologia, levando em conta, ainda, que a turma já havia passado por uma etapa anterior de formação basilar dentro das questões que marcam as especificidades da Antropologia como área de saber (no semestre anterior haviam cursado Antropologia I). Assim, o eixo temático de nossas aulas pautou-se pelas discussões sobre identidade, corpo, gênero e sexualidade. Autores como Jeffrey Weeks, Michel Foucault, Guacira Lopes Louro, Richard Miskolci, entre outras e outros, instigaram as discussões e ofereceram um terreno teórico sólido a ser percorrido.

É lugar comum dizer que as discussões sobre gênero e sexualidade não são contempladas nos nossos currículos universitários, tampouco vemos discussões de fôlego sobre diferenças, diversidade, ainda que esses temas estejam na ordem do dia e que já disponhamos de uma razoável (numericamente) e sólida bibliografia que traz essas discussões para o campo acadêmico. Procurando deslocar esse lugar (comum) para um espaço de reflexão crítica e atinada com a formação de alunas e alunos do curso de Psicologia, me propus a enfrentar, junto com a turma, a aridez da formação nessa seara.

A princípio, tinha a sensação de que estávamos avançando muito lentamente, com dificuldades. Diante da inquietação da turma, me dividia na dúvida: o que ali era incômodo pelos temas a serem enfrentados e o que era um disfarçado desinteresse pelo espaço de sala de aula? Eu também me inquietava.

A curiosidade manifesta vinha marcada pela sexualidade como tema tabu, por intervenções cheias de “verdades” cristalizadas, e que não podiam ser abandonadas sem alguma dor e muito menos sem leituras, debates, resistências, problematizações. Talvez aqui resida o desafio maior. Ler! Ler criticamente. Ler em diálogo. Ler para ultrapassar o próprio texto. Fato: nossas alunas e alunos chegam à universidade sem terem aprendido como fazer isso. E quando se trata de fazer essas leituras para disciplinas que são “apêndices”, “complementos” da área de formação escolhida, essa desconfiança dos textos aumenta. “Dá pra aprender sem ler”. O que acaba levando para a universidade uma perversão da formação nos cursinho pré-vestibular, a clássica educação bancária freiriana.

Diante desse quadro, pensei que, talvez, um trabalho de final de curso fosse um bom instrumento para provocar a leitura, o diálogo entre autores, a reflexão e a elaboração de texto pelas alunas e alunos. Encarei o ceticismo da turma, envolvida com muitos outros trabalhos de final de disciplina, que, na hierarquia da grade curricular, estavam acima da matéria que eu lecionava. Um pouco de “latim” e orientações seguras para a realização dos trabalhos encerrou essa questão. Os trabalhos teriam peso cinco na média final e prazo inadiável para a entrega.

E aí, veio o “dia D”. Surpresa. Cada aluna/aluno que se assomava à porta da minha sala no departamento de Ciências Humanas tinha uma exclamação no olhar e um prazer manifesto em frases como “foi muito bom fazer esse trabalho”; “nossa, viajei escrevendo… agora tudo fez sentido”; “adorei ter de ler Foucault”. Ânimo! Professoras e professores são pessoas que alimentam dessa estranha substância: o entusiasmo dos/das discentes.

A leitura dos trabalhos foi prazerosa. A qualidade de algum deles me nutriram e, então pensei, por que não divulgá-los como forma de reverberar idéias, de estimular novas reflexões e de reconhecer esforços?

E aí estão eles. São três trabalhos escritos por alunas do segundo ano de Psicologia:

Corpos Femininos em Expressão de Denúncia – Raissa Scarton

O Adolescente Emo-Ana Carla_Pitty

Sexualidade, Devio e Norma – Mariana Cervi

Publicamos também uma resenha, elaborada em grupo, a partir do filme C.R.A.Z.Y – loucos de amor, assistido em sala. Como os demais trabalhos, a resenha aponta para uma primeira aproximação como tema das (homo)sexualidades, gênero, identidade e diferença, um aproximar-se que, como já disse, não se deu sem resistências, desafios e um certo encantamento (ainda que com dor).

CRAZY Entre a Culpa e o Desejo [Resenha do filme C.R.A.Z.Y.]