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Entrevista de Cláudia Wonder a Larissa Pelúcio

Toco a campainha e Cláudia me abre a porta. Há nela um frescor e um sorriso que me fazem pensar que a entrevista será boa.  Era novembro de 2006, uma manhã quente depois do feriado de finados, quando Cláudia Wonder, ícone da cena paulistana dos anos 80 me recebeu em seu apartamento na região dos Jardins, em São Paulo, oferecendo-me um café e uma boa conversa. Foram 2 horas de entrevista gravada, da qual trago um curto trecho de 15 minutos.

Aos 51 anos, naquele momento, Wonder era uma sobrevivente, resistiu ao preconceito em pleno período de ditadura no Brasil, quando se assumiu travesti; prostitui-se em Paris, onde, segundo ela, foi a nona trans brasileira a atuar por lá; enterrou muitas amigas e amigos durante o pânico “ dos anos de chumbo da aids”, tempo de solidão e medo. Mas foi também nos anos 80 que Cláudia consolidou-se como artista “underground”, fazendo shows em boates paulistana e tendo na platéia artistas como João Gordo (Ratos de Porão) e Dinho (legião Urbana).

Encontramo-nos diversas vezes ao longo deste quatro anos. A última vez em setembro último, em Salvador durante o evento Stonewall 40 + e o que no Brasil, onde Cláudia fez o show de encerramento (foto).

Dois meses depois, ela faleceu, deixando muitos escritos, um livro publicado, várias entrevistas concedidas e um documentário premiado dirigido por Dácio Pinheiro. Ressalto esses registros, porque Cláudia, lamentava o vazio de história e memória que existe entre e sobre as travestis, apontando a tragédia da aids como responsável por essa lacuna.

Naquela manhã paulistana, procurávamos, eu e ela, não deixar que aquele vazio se alargue. Por isso é importante ouvir Cláudia, uma estela, ativista, travesti, intersex, trans, artista, humanamente múltipla.

Sentamos acompanhadas dos nossos cafés falando sobre o cotidiano das travesti naquele momento. Conto o que tenho ouvido nas ruas, naquele momento estava realizando meu trabalho de campo entre travestis que se prostituem, reunindo dados para minha tese de doutorado. Quando ligo o mp3 Cláudia está falando sobre o ambiente cruel da “rua”, termo próprio das travestis para se referirem à prostituição.

Cláudia Wonder – A pessoa se torna cruel. O ambiente é cruel, né? As meninas que trabalham

na rua, na prostituição – mesmo aquelas que trabalham sozinhas, pela internet, por telefone – elas não têm outro ambiente de convivência, de relacionamento. A não ser com as amigas que também fazem aquele mesmo trabalho e com aquele ambiente que são os boys, os gigolôs, as cafetinas. E esse ambiente, deixa a pessoa muito na defensiva. E é uma coisa cruel! Então essa coisa aí que você falou da aids, assim, “todas têm”, é uma coisa, assim, que elas acreditam, né?

Larissa Pelúcio -  Você acha então que não é fato? Que é mais, assim, um tipo de acusação?

CW – Claro! Eu acho que até a falta de auto-estima faça com que elas digam um negócio desse. Porque a falta de auto-estima… desde a infância, da adolescência, dizem que você não presta. Você diante da sociedade não tem perspectiva nenhuma! Você vê que você é a margem da margem. Que você tá lá longe. Então, aquilo vai destruindo a tua auto-estima de uma tal maneira que realmente se acha um lixo, você se acha aidético, você se acha…

LP – Você acredita que esse tipo de vivência gera um quadro depressivo… por que eu ouço muito isso, tipo “fulana é louca”.

CW- Ah é! A maioria. Porque isso já vem da cultura homossexual que a gente é chamada de louca, né? Os gays assim. “Ah bicha louca”, “a louca”. E mesmo na França é chamado assim, Le cole. Eu achava que isso era uma coisa do Brasil de chamar a gente de louca. Mas lá também. “A Gaiola das Loucas”, um clássico esse filme. Então tem uma coisa assim… não sei de onde vem isso, mas tem. Não sei de onde vem isso, mas tem. Talvez pela maneira de ser, pelo jeito de ser diferente das outras pessoas. Mais exuberante.

Mas essa coisa da depressão, claro, né meu amor. Imagine ninguém merece. Porque elas podem até militar pela prostituição, mas muitas delas, a maioria não teve outra chance na vida. E a pra ter chance na vida você precisa de um alicerce. E o primeiro alicerce é a família. Assim, todas que eu conheço que se deram bem, de uma forma ou de outra na vida, é porque teve o apoio da família. Com o apoio da família elas tiveram estrutura psicológica para enfrentar a escola. Porque a escola é um outro lugar onde você chega e ali é a crueldade total. Porque criança já é cruel. Com a diferença então, nem se fale!  Eu sei porque senti na pele.

Se os professores não sabem lidar com a diferença das trans ou dos gays e ainda por cima se ele for preconceituoso, homofóbico, aí meu amor. Eu sei o que eu sofri. Eu com 12 anos, eu ia muito bem na escola, porque eu estudava em colégio pago. O sonho do meu pai era que eu saísse de uma faculdade e fizesse outra. Enquanto ele existisse… ele dizia “enquanto eu tiver aqui eu quero que você estude. Quando você fizer 18 anos eu te dou um carrinho”… Talvez porque ele já percebia minha diferença e achava, claro, que se eu fosse uma pessoa com muito estudo, uma pessoa muito culta eu iria me dar bem. Porque realmente as portas se fecham pra quem é diferente, e principalmente se você é um gay afeminando. E é como eu sempre fui, afeminado. Então é isso.

Voltando lá naquele assunto. Se a pessoa não tem base e com essa base ter estrutura para enfrentar a escola, ela vai acabar lá, na rua, porque ela não tem outra alternativa. A maioria é mandada embora de casa, a família não aceita.

LP – Nesse ambiente de falta de alicerce, de ambiente cruel, a depressão que você ta falando que pinta, e aí, os caminhos terapêuticos para isso. Como se resolve isso? Pra onde eu vou? Como eu faço para organizar minha sanidade, minha sexualidade?

CW – No meu caso foi a arte. Foi o modo que eu encontrei de mostrar que eu sou alguém, que eu existo, que eu sou uma pessoa. Um modo de eu me afirmar e de eu ser querido. Desde criança eu quis ser artista. Desde criança… porque desde criança que eu ouço assim “toma vergonha”, “Toma jeito de homem”. Então eu acho que assim, o aplauso era onde eu me sentia querido.

Então na escola eu ia recitar, eu ia cantar. Em casa, qualquer festinha que tinha eu ia lá fazer imitação. Eu lembro que quando eu era criança eu ia lá e imitava o Roberto Carlos, a Wanderleia e o Eramos. Os três! (risos). Dava o meu show! E aí, com 18 anos eu já fazia show, mas aí já como travesti. E desenvolvi aí minha arte: na música, na dança, no teatro. Fui estudar teatro e encontrei ali a minha válvula de escape. Era meu modo de me mostrar que eu sabia fazer alguma coisa, da minha capacidade. Era o meu modo de me mostrar  que eu sabia fazer alguma coisa, Da minha capacidade. “Olha, vocês me marginalizam, vocês me maltratam, vocês me destroem, mas eu faço isso. Eu se fazer isso.

Eu acho que é isso. Se a pessoa não tem… mas mesmo assim é muito difícil, porque as portas se fecharam totalmente pra mim nesse lado artístico aí. Depois a gente fala mais disso.

Mas se você não tem uma válvula de escape, a terapia, qual que é a terapia? São as drogas! Muitas pessoas buscam um amor, um apoio de alguém. E muitas vezes colam aí com qualquer ordinário, qualquer aproveitador. Mas fora isso, é que nos resta: as drogas! (…)

Essa coisa da auto-estima é um trabalho. Primeiro você tem que despertar pra isso. Segundo, você tem que ter condições para acreditar nisso. Que você é alguém, que você é capaz, que as pessoas todas estão erradas e que você está no seu caminho. Porque o mais fácil é você acreditar que você é quem está errado. E que você merece todo o sofrimento.

Uma coisa que eu acho absurda é alguns travestis dizendo que a gente é do diabo. Eu já vi depoimento da televisão e tudo, “nós somos do diabo!” ou “Nós não somos coisa de Deus!”. Quer dizer, esse tem uma auto-estima lá no inferno mesmo (risos).

LP – E um pouco a tua trajetória?

CW – Eu acho que nisso td que eu to aí hoje, eu fui sendo levada. Porque a gente sempre projeta assim uma carreira. Da carreira que eu projetei pra mim, digamos que eu consegui 20%, do que eu projetei pra minha vida profissional. Assim, do jeito que eu desenhei. Veio assim o sucesso, o reconhecimento do meu talento, da minha pessoa, de outras formas.

Por exemplo, qual artista que não sonha em ser popular? E eu não fui uma artista popular justamente pelo preconceito. Eu tinha tudo para ser popular. Eu aconteci numa época que acontecerão vários artistas que faziam parte do meu ambiente: Legião Urbana, Titãs, Cazuza, Marina. Toda a minha geração… João Gordo, dos Ratos de Porão. Eu fazia parte dessa turma do rock nacional. E eu era uma das coisas mais radicais que tinha. E o povo adorava as minhas músicas e adoravam a minha performance.

Só que os magnatas na época, que eram as gravadoras, a Warner, Ariola, enfim, as que comandavam. Chegaram pra mim e disseram assim: “Se você fosse um cara ou uma garota, eu fazia de você uma estela amanhã. Porque teu trabalho é ótimo, você tem talento pra caramba, mas você é travesti e o Brasil não está preparado pra isso. Não vai vender”.

E eu falava, “mas como, o meu show lota de adolescente, e não é gay”. É garotada! É homem, mulher, garoto, garota! Que quer o disco, que o disco! Porque naquela época era uma grana fazer um disco. E eles monopolizavam, né?

E eles falavam, “Tudo bem que o adolescente vai comprar, mas o pai vai quebrar”. Quer dizer, você se vê numa situação dessas… Que dizer, todos esses artistas dos quais eu estou te falando eram meus fãs, iam nos meus shows. A imprensa toda… Assim, durante uns quatro anos eu virei formadora de opinião. Me ligavam para saber o que eu estava lendo. Eu fazia editorial das roupas que eu estava usando. Não tinha essa coisa de fashionista. Você entende qual é o grau da coisa? E eu não pude ir adiante pelo preconceito.

Chega uma hora que não dá pra ir mais. Ou você faz um disco e vai pra televisão ou não vai mais nada, acabou ali. Porque não adianta você ficar fazendo showzinhos nas boates porque chega uma hora que acaba o tour e aquele povo que freqüenta a boate já viu e reviu. Você tem que seguir. Você tem ir adiante, você tem que mostrar pra massa. Ponto. Não consegui ser uma artista popular. O que que eu virei? Virei uma celebridade undergroud, até hoje. (…)

Mas em compensação eu ganhei um respeito e um prestígio que muitos artistas populares não têm. O respeito como a mídia me trata, os artista me tratam, a militância. Porque eu nunca levantei uma bandeira pra dizer assim “eu vou defender os travestis”, “eu vou defender os gays”. Não! Eu fiz tudo naturalmente. Aí eu dava uma entrevista e achava que era legal falar sobre tal coisa! Eu lembro que eu virava e falava assim: “olha eu acho que realmente eu estou fazendo este trabalho pra mostrar que travesti não faz só dublagem em boate, que travesti pode fazer música, pode cantar, enfim… não é um deficiente”. E aí eu acho que as pessoa começaram a me ver com essa veia de militância, esse viés para a política. Mas na verdade foi uma coisa meio involuntária. Foi natural.