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Para Woody Allen os homens são mais pesadelos do que sonhos

Richard Miskolci

Alerta! Não leia a resenha se você não assistiu o filme ou não quer conhecer seu desfecho

“Você vai conhecer o homem de seus sonhos” (You will meet a tall dark stranger, 2010) é o mais recente filme de Woody Allen. Considerado por alguns críticos como um filme menor em sua vasta e rica cinegrafia, mais justo seria classificá-lo como um de seus mais sutis. A obra tem, entre seus muitos méritos, uma perspectiva crítica que não titubearia em chamar de “feminista” sobre os dilemas amorosos de casais convencionais. A película se revela uma desconstrução cuidadosa e delicada de três relacionamentos em crise, um entre um casal idoso, outro que se aproxima da meia idade e um de jovens na faixa dos vinte anos.

Seria o filme uma crítica ao casamento? Não há dúvida de que da união programada entre Dia (Freida Pinto) e seu noivo jovem e promissor, passando pelo em crise entre os quase quarentões Sally (Naomi Watts) e Roy (Josh Broslin) até o divórcio entre os idosos Helena (Gemma Jones) e Alfie (Anthony Hopkins) não há nenhuma imagem positiva do casamento. Os laços familiares também não são mostrados por lente simpática, antes em seu caráter asfixiante e até cruel. Sally, por exemplo, vive entre o desejo irrealizado do pai de ter tido um filho homem e sua própria relação instável que não permite que ela engravide e forme sua família. Mas um olhar mais acurado verá que o filme reserva uma crítica ainda maior do que ao casamento e à família. Do título ao desenlace da trama encontramos o verdadeiro alvo de Allen: os homens de nosso tempo.

As protagonistas desta história são as mulheres em três fases da vida: a idosa abandonada pelo marido, a mulher infeliz que se aproxima dos 40 anos e a jovem nas ilusões de seus vinte e poucos anos. Todas são mais ou menos frustradas em seu cotidiano e descobrem a expectativa de, algum dia, ver acontecer o que anuncia uma vidente como o acontecimento mais promissor na vida de uma mulher, ou seja, “conhecer o homem de seus sonhos”.

O filme se inicia e termina com o foco em Helena, uma mulher próxima dos 70,  abandonada pelo marido obcecado com exercícios físicos e a boa forma. Em meio à depressão e perda de referência depois de 40 anos de vida conjunta, ela apela para os conselhos de uma vidente charlatã em busca de alento para seu futuro. A filha de Helena é Sally, casada com Roy, um americano com ambições literárias frustradas. Obrigada a pedir ajuda dos pais para pagar o aluguel, Sally também trabalha em uma galeria de arte, onde, progressivamente, se descobre apaixonada pelo patrão Greg (Antonio Banderas). Por fim, Dia é uma jovem estudante de doutorado em música, noiva de um jovem promissor, mas que se deixa conquistar pelo marido de Sally.

Os homens da trama são, cada um à sua forma, o oposto do “homem dos sonhos” anunciado no título e que, com certeza, povoa a mente de mulheres (e muitos gays também). Alfie é um idoso que decide viver uma vida de solteiro regada a sexo e prazer e termina se casando com uma prostituta que o trai com um personal trainer. Roy se revela um fracasso como escritor, trai a esposa e rouba o livro de seu melhor amigo. Greg, que em alguns momentos parece sensível, surpreende aos poucos a apaixonada Sally – e provavelmente ao expectador – com sua convencionalidade machista.

O filme começa em tom de comédia e, por meio de cenas aparentemente risonhas, empreende uma desconstrução dos casais e das expectativas das mulheres. Os homens as frustram de formas diferentes, mas têm em comum um pragmatismo chauvinista que se revela em suas escolhas por mulheres mais jovens e, quiçá, manipuláveis. Allen é sutil, mas faz questão de “fechar” sua trama mostrando o que vê de ruim em cada um desses homens já que dois terminam “punidos” em suas escolha.

Alfie, rejeitado pela ex-esposa, se vê falido e preso à prostituta grávida de um filho que pode não ser seu.  Ironicamente, o velho fanático por exercícios físicos se descobre traído pela esposa com um personal trainer. Roy convence Dia a desistir de seu casamento e ficar com ele. A ironia de Allen com o personagem está em uma curta e genial cena em que, do quarto da nova amante, vê a ex-esposa se trocar, invertendo o que antes acontecia, ou seja, via, do quarto da esposa, a jovem desejada se despir no prédio ao lado. Já que Allen “pune” Alfie, não é de se estranhar que deixe mais “em aberto” o fim de Roy. Duas definições em um mesmo filme poderiam soar moralistas, o que, no fundo, não parece preocupá-lo. O fim incerto de Roy talvez seja uma punição maior do que se fosse definida. O escritor “charlatão” termina na incerteza sobre o provável fracasso de suas ambições com a provável descoberta de que roubou a obra de seu amigo em coma.

Por fim, o único homem que sai ileso é Greg, o patrão de Sally que rejeita seu amor em um diálgo dilacerante de revelação apaixonada e recusa cerimoniosa. Naomi Watts, em excelente performance, alcança o tom certo nas cenas finais em que a vida de Sally se frustra em cada aspecto: da expectativa profissional, à amorosa e familiar.

Dos três casais principais, um único novo se forma e se salva nesta fábula contemporânea sobre as relações entre homens e mulheres: Helena termina com um livreiro esotérico e romântico. Allen parece propenso a fazer uma ode à velhice, a qual já vivencia ele próprio, em uma cena final com o beijo casto entre os idosos apaixonados.

Este beijo carinhoso não impede que, ao sair do cinema, alguns terminem com um nó na garganta diante do cruel final de Sally. A filha de um casal que queria ter tido um filho homem, casada com um homem que a traiu e foi embora mas que – finalmente livre do casamento infeliz – se declara para o homem que ama, mas ouve dele uma recusa e o anúncio de que está em um relacionamento com sua amiga.

“Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” (You will meet a tall dark stranger), que em inglês evoca mais a imagem do homem latino e sensual do personagem de Banderas, faz da promessa frustrada uma crítica realista e amarga sobre os desencontros entre as expectativas amorosas femininas e o pragmatismo machista que persiste nos homens de nosso tempo.