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Márcia Arán – In Memoriam

Obituário de nossa querida colega do Grupo de Pesquisa escrito por Lilo (Marildo Menegat):

Nos anos 1980 Márcia Ramos Arán fez parte, com um pequeno grupo de pessoas, de diversos movimentos culturais que procuraram trazer para Caxias um pouco do que era produzido nos principais centros culturais do país. Foi coreógrafa e professora de dança durante anos. Seu estilo moderno e sofisticado de ballet resultou em dois memoráveis espetáculos desta época: Carmen, numa recriação que tomava citações que iam de Merimeé a Saura, de Antonio Gades a Bizet; e, mais ousado ainda, Tiernamente, em que misturou a música de Piazzola com a poesia de Mario Quintana, Ferreira Gullart entre outros. Ambos os espetáculos falavam de amor com intensidade e doçura, dois traços que sempre marcaram as relações que Márcia mantinha com as pessoas. Além da coreografia – que foi abandonando aos poucos, mantendo apenas a beleza do passo em rodas de dança nas festas -, estudou psicologia na Universidade de Caxias do Sul (UCS) entre 1982-86. Neste período participou como uma destacada liderança do seu curso na histórica greve dos estudantes e professores da UCS de 1986. Data deste período seu engajamento nas lutas políticas do país, as quais nunca mais abandonou.

Em 1989 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fez mestrado e doutorado no Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IMS-UERJ). Neles desenvolveu uma pesquisa em torno do tema do feminino na teoria psicanalítica. Os resultados de sua elaboração teórica se voltaram para a reflexão de duas questões que rondam a sociedade moderna como fantasmas: a exclusão das mulheres e a homofobia. Para Márcia Arán, sustentando, aprofundando e ampliando uma idéia exposta por Freud numa de suas obras, a dominação masculina – que leva a imposição de uma identidade homogênea, de costas a toda singularidade e suas expressões – somente se mantém ao preço de um crescente e violento mal-estar na civilização. Psicanalista já reconhecida em seu meio, na segunda metade dos anos 1990 participou da fundação do Espaço Brasileiro de Psicanálise (EBP), com Joel Birman e outros(as), o qual teve, apesar da modesta repercussão, um importante papel na renovação da teoria psicanalítica no Brasil. Escreveu sobre sexualidade, psicanálise e cultura para revistas acadêmicas e especializadas, foi autora do livro O avesso do avesso: feminilidade e novas formas de subjetivação, e organizou diversos livros sobre estes temas. Desde 2008 era professora do IMS da UERJ. Márcia Ramos Arán morreu de câncer no Rio de Janeiro no dia 13 de abril de 2011, aos 46 anos de idade. Era filha de Neila Ramos Arán e Alfredo Arán Bitrián (falecido). Sua vida foi bela porque soube viver com a intensidade de suas idéias. Dança agora (e)ternamente na memória de quem a conheceu e sentirá forte sua falta.

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