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A Pele que Habito: um gótico contemporâneo sobre o biopoder

Richard Miskolci

Nesta inesperada tarde paulistana quente e ensolarada, lia Falando sobre a Sociedade de Howard Becker em um café quando me lembrei que ontem estreara o mais recente filme de Pedro Almodóvar. Seguia fascinado pela forma leve e inteligente com que Becker expande a análise social para além do discurso oficialmente sociológico e inclui romances e filmes como uma forma de compreender o social quando entrei no cinema.

Na sala escura, antes da projeção iniciar, tinha dúvidas sobre se o cineasta espanhol me surpreenderia positivamente depois de suas últimas películas, um pouco erráticas e decepcionantes em relação a obras-primas como Todo sobre mi madre. Lera alguns artigos sobre o filme desde sua exibição em Cannes. A recepção dividida e a ausência de prêmios parecia sinal de que o mestre errara a mão mais uma vez.

Ao contrário da recepção pouco calorosa de que tive conhecimento, e de minhas expectativas de deixar o cinema frustrado, deparei-me com um feito narrativo de grandes proporções. Almodóvar envelheceu, amadureceu e sua mestria cinematográfica é um deleite não apenas para cinéfilos, mas também para pessoas que, como eu, lidam com formas de arte como maneiras especiais de falar sobre o social. Em pauta, a ciência contemporânea e os sonhos generalizados de perfeição física, imortalidade e adequação do corpo aos desejos identitários.

Trata-se, claramente, de uma versão contemporânea de Frankenstein (1818), mais criativa e inteligente do que as centenas que povoam o mundo do entretenimento desde a popularização do romance de ideias de Mary Shelley. Tendo escrito recentemente um artigo intitulado “Frankenstein e o Espectro do Desejo” para a revista cadernos pagu, da UNICAMP, minha mente anda povoada pelas referências que vi se materializarem em imagens na tela. Imagens belas, incrivelmente estilizadas, de um pesadelo que mal começou.

Almodóvar adapta de forma sagaz um romance contemporâneo, Myguale (1995, publicado em português como Tarântula) do escritor francês Thierry Jonquet (1954-2009). Sua adaptação faz da história uma crítica ao poder da medicina contemporânea encarnado em um médico sem escrúpulos. Se Frankenstein cria um monstro guiado por um desejo que o leitor não compreende e, talvez propositalmente, o romance deixa de explicitar, Ledgard é guiado por uma mescla de sentimentos cuidadosamente reconstituídos em cenas de flashback: desejo de vingança, ambivalência erótica e uma prepotência profissional sem limites éticos.

Há pessoas que só assistem filmes com prazer se desconhecem o roteiro e, neste caso, a surpresa é um elemento fundamental da narrativa almodovariana. Trata-se de uma obra gótica, em que o segredo é o verdadeiro protagonista, daí ser melhor assistir A Pele que Habito antes de seguir em análises sobre seu conteúdo. Por enquanto, deixo este breve comentário no blog como preâmbulo apologético sobre um filme que merece ser visto e sobre o qual, no futuro, publicarei uma análise mais longa e aprofundada.