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O Facebook entre seus quadrados e binarismos

Juliana do Prado

A maioria dos comentários que eu vejo sobre as redes sociais se situam em um eixo binário de reflexão: ora baseado em argumentos por vezes apocalípticos em que as redes sociais teriam prejudicado as relações face a face; ora em argumentos otimistas, em que seriam “facilitadoras” de relações sociais, revelando um sinal de que as pessoas estariam quebrando o isolamento social que lhes fora imposto pelas instituições como escola, trabalho, igreja, etc. Entre essas tensões há algo em comum: a constatação de que, independente de como se avalie a questão, cada vez mais estamos nos relacionando através das mídias digitais. O mesmo binarismo se encontra ao falar-se em vida real e vida virtual, como se uma fosse ficção e a outra realidade. Se as pessoas gastam tanto tempo e se investem emocionalmente no “virtual”, porque atribuir apenas às relações face a face o caráter de real? Nesse momento @ leit@r deve se perguntar sobre as mentiras que são contadas nas redes sociais que as caracteriza pela inautenticidade. A autenticidade, como constata Sherry Turkle (2011), é para as sociedades de hoje semelhante ao que a sexualidade foi para as sociedades vitorianas: obsessão. Na rede, as pessoas mais confiáveis e autênticas são as que se expõem mais e que ao se exporem, encontram seu verdadeiro eu.

Porém, o que me interessa mais é refletir sobre como os discursos online, mesmo que não sejam verdadeiros, são retrato do contexto social em que são elaborados e que, por si só, representam alguma faceta d@ sujeit@ que os criou.  Vejamos o caso do Facebook. O fato de que, mesmo que se apresente de modo distorcido, ou mostre apenas o que lhe convêm, é sintomático de uma sociedade de incitação a falar de si constantemente, na qual, para usar os termos de Paula Sibilia (2004), “cada vez mais, a ‘verdade’ sobre o que cada um é se desloca desse âmago secreto, radicalmente íntimo e privado, para aflorar na superfície da pele (e das telas)”. Que atire a primeira pedra quem nunca ficou desapontado de abrir seu Facebook e não ter nenhuma notificação de que alguém curtiu e comentou sua última foto ou opinião super politizada. Mais uma vez me recorro a ideia de Turkle (2011) de que online estamos presentes uns para os outros. E é justamente essa sensação que de certa forma nos aprisiona no estado de “contato permanente” imposto pela necessidade da sociedade contemporânea de comunicação a qualquer hora, em qualquer lugar.

Assim, as mídias digitais não podem ser tratadas como outra realidade, já que estão totalmente inseridas no nosso cotidiano e moldam nossa subjetividade e nossa identidade. Mais do que condenar as inautenticidades existentes, convêm indagar sobre o regime de visibilidade que determina o que pode e o que não pode ser mostrado e quais os marcadores sociais da diferença que indicam pertencimento social dos sujeit@s ali.

É nesse sentido que levanto indagações a respeito de certa ideia de liberdade proclamada sobre o Facebook, de que se trata de um espaço democrático em que tod@s, apesar das diferenças, são iguais e podem expressar-se livremente, sem serem alvo de preconceito e discriminação. Ora, se o Facebook fosse um exemplo de rede social com respeito às diferenças, não encontraríamos tantas manifestações de preconceito, racismo, machismo e homofobia. Isso para não dizer do comentário mais comum que se ouve com aversão a este: o Facebook está se orkutizando, já disse seu criador e isso graças aos brasileiros que não sabem utilizá-lo da maneira correta. Com “orkutizando” leia-se “popularizando-se”. E isso gera ressentimentos, pois afinal, uma rede social que outrora se caracterizava por predominância de um perfil de usuári@s relativamente intelectualizad@s, abriu as portas para um povo, cujo único atrativo no Facebook é poluir a time-line alheia. Um povo, sobretudo, que não tem cultura e que não merece estar ali incomodando @s antig@s e autêntic@s usuári@s.

Diante de posições como essa, não me assustaria em nada se visse campanhas sólidas de “higienização social” do e no Facebook. A maioria dessas campanhas com certeza seriam bem humoradas e despertariam a atenção de grupos “politicamente incorretos”, que acreditam cegamente que sua proposta de humor é crítica e inteligente. É sob a desculpa de liberdade de expressão que se legitima uma forma de discriminação que inferioriza as diferenças e mantêm inquestionável uma ordem conservadora que proclama atributos tidos como essenciais: masculinidades hegemônicas, feminilidades passivas, homossexualidades promíscuas, travestilidades perversas e por aí vai.

Se fosse possível fazer uma metáfora sobre o Facebook diria que lá cada um tem seu quadrado definido. A começar pelo cadastramento do perfil, em que somos solicitad@s a nos enquadrar nas categorias ali existentes de gênero, sexualidade, raça/etnia, geração, escolaridade, religião e classe. Segundo Eva Illouz (2007), a elaboração de um perfil é um processo de racionalização de um eu privado levando a sua representação pública e é justamente sobre esse processo de racionalização que devemos questionar sobre as diferenças e formas de discriminação encontradas online. Não é novidade para ninguém que é possível encontrar na internet uma série de manifestações que delineiam as posições de gênero e sexualidade por exemplo. Assim, são frequentes mensagens conservadoras que circunscrevem o gênero dentro de uma perspectiva binária de homem/mulher obedecendo a uma matriz heterossexual, que conforme nos elucida Butler (2003) passa pela coerência socialmente imposta entre sexo, gênero, desejo e práticas.  Essas mensagens carregam em si uma ideia fortemente embasada na naturalização das identidades masculinas e femininas, atribuindo papéis rígidos e desiguais entre elas. Seria até exaustivo se eu me alongasse em exemplos de mensagens com teor machista e/ou sexista que verifico constantemente no Facebook. Deixo ao leit@r o desafio de verificá-las em sua time-line e quiçá combatê-las.

Essa mesma perspectiva binária sobre o gênero se encontra no que tange à sexualidade, como fica claro pela imagem que antecede esse texto, retirada de uma página no Facebook chamada “Orgulho Hetero”, que conta com mais de cem mil seguidor@s. A referida página é repleta de mensagens homofóbicas e machistas, que determinam claramente o lugar da heterossexualidade como normal e da homossexualidade como abjeção. Não é preciso adentrar em páginas específicas para se constatar que as normas e convenções sexuais se reproduzem com veemência no Facebook, indo de encontro a uma ordem heterossexista e preconceituosa. Na internet de forma geral, sujeit@s que fogem à essas normas são marginalizados e relegados a um mundo virtual ainda tido como obscuro e perigoso.

Através de exemplos como esses que devemos questionar tanto posições celebrantes sobre as promessas das mídias digitais, quanto posições mais resistentes que não conseguem compreender sua inserção nas relações sociais. Muito tem se falado sobre vícios envolvendo o uso da internet e com isso há um aspecto de patologização do seu uso. Isso se coloca em especial quanto às redes sociais e ao Facebook mais frequentemente. Mas é preciso verificar até que ponto essa patologização caracterizada pelo vício não está carregada de marcadores sociais das diferenças que, por sua vez, alocam sujeitos em posições sociais de gênero, sexualidade, raça/etnia, religião e classe. Acredito que a grande questão não está relacionada ao vício como algo neutro que possui os mesmos critérios para tod@s. Há questões muito pouco abordadas e que requerem um cuidado maior, as quais apenas lanço nesse breve texto para quem sabe posteriormente aprofundá-las: Quem está “autorizado” a utilizar o Facebook e para quais finalidades? Quem define nele os níveis do saudável, patológico e abjeto? Essas questões estão em consonância com o contexto social em que vivemos, do qual não se pode retirar as mídias digitais e acreditar ingenuamente que se cria outra realidade – neutra – a partir delas. É interessante observarmos esse contexto de forma articulada, no qual, a internet tem se tornado um microdispositivo de constituição de sujeit@s e com isso tem relegado cada um a seu local específico.

Juliana do Prado é doutoranda em Sociologia na UFSCar

Referências:

BRAH, A. Diferença, Diversidade, Diferenciação. Cadernos Pagu, Campinas, n.26, jan./jun. 2006, p. 329-376.

BUTLER, J. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

ILLOUZ, E. Intimidades congeladas: Las emociones en el capitalismo. Buenos Aires: Katz Discussiones, 2007.

SIBILIA, P. A vida como relato nos blogs: mutações no olhar introspectivo na conformação do “eu”. In: VIII Congresso Luso-afro-brasileiro de Ciências Sociais. Coimbra, 2004. Anais.

TURKLE, S. Alone Together: Why We Expect More From Technology and Less From Each Other. New York: Basic Books, 2011.

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