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O “Caso Bruno”: notas sobre futebol, “amor verdadeiro” e masculinidade heterossexual no Brasil contemporâneo

 Richard Miskolci

Um caso de assassinato pode auxiliar a compreender a cultura de um país quando passa a ocupar as manchetes e as conversas cotidianas. Para além do que realmente se passou, o que se afirma e até o que se especula reflete e revela fantasmas e fantasias coletivos. O “Caso Bruno” une elementos exemplares constituindo uma trama complexa que envolve um ex-goleiro de sucesso, ex-mulheres, seu melhor amigo e uma vítima cujo corpo jamais foi encontrado. Ainda por cima, esse caso tem como pano de fundo uma paixão brasileira, o futebol, e seu ícone, o jogador, uma forma de herói nacional e a própria encarnação da masculinidade.

A imprensa insinua, hora ou outra, um dos componentes centrais do Caso Bruno: sua relação com o amigo Macarrão. É tão evidente a centralidade da amizade entre os dois que não há como ignorar a questão sobre se é possível compreender o trágico assassinato e desaparecimento de Eliza Samudio sem explorar melhor os termos da relação entre esses dois homens.

Apresento aqui algumas reflexões preliminares sobre como a abordagem midiática do caso, mesmo trazendo ao discurso a questão a mantém inarticulada ou induzindo a uma resposta em que o provável amor entre dois homens é visto como fonte de desvio, misoginia e crime. Nas reportagens sobre o julgamento, a relação entre Bruno e Macarrão é sublinhada de forma a buscar definir a linha entre “amizade” e “amor”, compreendida pelos órgãos de imprensa como a linha entre heterossexualidade e homossexualidade. Trata-se de um binarismo moralista e artificial que aloca a relação na fronteira entre o normal e o criminoso evocando antigas associações entre homossexualidade e perigo social.

As insinuações evocam o fantasma coletivo de que um amor secreto entre um jogador de futebol e seu melhor amigo seja a razão oculta do assassinato de uma mulher. Afinal, é premente para a opinião pública diferenciar a figura do (ex) ídolo da associação com o crime.

Em certo momento do caso, alguns meses atrás, um advogado de defesa tentou a manobra de afirmar que tudo seria explicado pela homossexualidade. A estratégia podia apontar para um amor não-correspondido de Macarrão por Bruno. O assassinato de Eliza, portanto, poderia ser compreendido como ato de ciúme do amigo, o qual seria o verdadeiro e único culpado. A homossexualidade e a culpa, assim, poderiam ser atribuídas ao subalterno em uma cartada de mestre em que a inocência e a heterossexualidade seriam restituídas ao antigo ídolo esportivo. A divulgação dessa tese, no entanto, respingou no orgulho do réu e o golpe não durou dois dias. O jogador preferiu demitir o advogado e negar a homossexualidade, provavelmente – na visão dele – algo pior do que a condenação por assassinato.

O culto do jogador de futebol marca a própria masculinidade heterossexual neste país, daí, para a mídia e para o público, ser um impulso quase automático o de buscar distanciar um réu, possível assassino, dessa própria masculinidade. Assim, sua possível “homossexualidade secreta” o explicaria e – ao mesmo tempo – o dissociaria dos outros jogadores, os heróis nacionais, modelos de comportamento para os meninos, adolescentes e marmanjos brasileiros.

A suspeita de que Bruno e Macarrão tenham formado um par amoroso se presta também a reavivar preconceitos antigos que associam homossexualidade ao desvio de conduta e, no limite, ao crime. Nessa lógica míope e linear, se ele for homossexual portanto é desviante e, se for desviante, apto a atos sociopáticos. O que também pode levar ao reconfortante pensamento – para os leitores/torcedores – de que se ele é sociopata fica comprovado seu caráter de exceção na esfera do futebol, o universo simbólico em torno do qual a maioria dos meninos brasileiros crescem e “aprendem” a se tornarem “homens”.

Não por acaso, dessa forma, a atenção pública é desviada do crime bárbaro que suscitou as suposições. Vale refletir que dando alento a um desejo de não encarar que a morte de Eliza Samudio é uma expressão radical das consequências sem controle da violência cotidiana contra as mulheres no Brasil. Uma violência que inclui, também, componentes como a manipulação pelos parceiros e a traição, “costumes” bem brasileiros sustentados e incentivados pela camaradagem masculina e seu papel central na vida dos homens em nosso país. Em outras palavras, o problema não é saber se Bruno e Macarrão eram amantes, antes compreender que heterossexuais ou não, em sua “camaradagem” podem ter se criado as condições para um pacto de morte e apagamento de uma mulher.

A opinião pública dificilmente gostaria de constatar que no futebol se engendram essas camaradagens, que “manos” partilham segredos e se auxiliam no sexismo cotidiano que os cacifa como ídolos para outros homens brasileiros saindo com um número sem fim de mulheres. É como se a “caixa preta” da masculinidade nacional não pudesse ser aberta a não ser para expulsar dela “exceções”, curiosamente subsumidas na homossexualidade, a qual é associada a um suposto ódio contra as mulheres.

Bruno não é exceção em seu comportamento sexual. Basta acompanhar os noticiários mais populares e as colunas sociais para encontrar um número imenso de comprovações de que na esfera esportiva, e no futebol em particular, a imagem mais cultuada e esperada continua a ser a do playboy, o homem que “pega” todas. O ícone masculino do “pegador” mal esconde o regozijo do “pontuar”, afinal, quem “pega” também “larga” e “largar”, leia-se abandonar ou sumir, aqui talvez seja o mais importante para inflar a masculinidade. Ser “macho”, heterossexual, portanto, é que implica desprezar/usar mulheres.

As mulheres de jogadores – sobretudo as ex-esposas e amantes – ampliam sua masculinidade quanto mais numerosas, assim como seus filhos (legítimos ou não). A mesma mídia que acompanha o caso em pauta é a que noticia rumores, publica fotos supostamente comprometedoras e divulga para seus leitores/torcedores a imagem do atleta que consome mulheres. É nessa cumplicidade entre torcedores/fãs e ídolos que se constroi a hegemonia da masculinidade heterossexual brasileira, uma cumplicidade mediada e explorada comercialmente pela mídia.

A camaradagem entre Bruno e Macarrão é evidente e amplamente noticiada. Desde as descrições das ocasiões em que ambos faziam sexo juntos com mulheres até a tatuagem nas costas do parceiro e subalterno que recentemente começou a ser categorizado pela mídia como “capanga”. A prática de sexo grupal deles é divulgada como se fosse de amplo conhecimento o que norte-americanos, ironicamente, chamam de “a regra de ouro” (the Golden Rule): a noção de que se dois homens fazem sexo com ao menos uma mulher entre eles então eles não são homossexuais.

A tatuagem merece uma análise mais detida, pois foi feita em meio ao “plano” do assassinato/apagamento de Eliza. Ela inscreve os nomes dos amigos como “amor verdadeiro”, algo interpretado por Macarrão como prova cabal de que eram “irmãos” e, segundo ele, com a expectativa de que Bruno fizesse uma igual, o que a descoberta do crime teria impedido. Qualquer que seja o resultado da investigação a tatuagem impressa no corpo de Macarrão é uma evidência expressiva de seu vínculo com Bruno. Que ela seja explicada como “prova” da “irmandade” entre eles em meio ao contexto de planejar o assassinato de Elisa Samudio nos leva a reconhecer como essa irmandade selou-se com o apagamento de uma mulher.

Bruno, o “chefe”, não imprimiu em seu corpo o compromisso com o amigo, apenas, talvez, em um ato sem provas, ou melhor, um crime sem evidências já que o corpo de Eliza Samudio nunca foi encontrado. O ídolo esportivo aprendeu a jogar com menor exposição. É o dominador e o referente, não por acaso ocupando na tatuagem nas costas do amigo a posição tradicionalmente associada com a masculinidade. “Bruno e Maka” é a ordem dos nomes impressos na pele do amigo subalterno.

Tatuagem nas costas de Macarrão, amigo de Bruno, em foto divulgada após sua prisão:

Na descrição de Macarrão, a inexistência de uma tatuagem igual à sua em Bruno parece ser a de uma traição/falta. Cabe especular o que teria se passado se o crime quase perfeito não tivesse vindo à tona: teria Bruno feito a tatuagem? Seria seu vínculo com o amigo/subalterno “amor verdadeiro”? Afinal, segundo o próprio Macarrão, se é que fala o que realmente ocorreu, ao tentar dissuadir Bruno de matar Eliza ele teria dito: “Sou Bruno, sou pica.” Bruno e seu pênis se unem em uma masculinidade assassina compactuada com seu “irmão” de forma que o “amor verdadeiro” só pode mesmo ser entre dois homens, mas, ao contrário da questão insinuada pela imprensa, de forma que a heterossexualidade de ambos é reforçada.

A tatuagem e o crime formam um par que antes de evidência de homossexualidade expõe que, ao menos no Brasil e na esfera do futebol, homens heterossexuais amam verdadeiramente homens heterossexuais. A linha divisória entre amizade e amor procurada pela imprensa revela-se ilusória assim como a tentativa de associar homossexualidade com misoginia.  O “amor verdadeiro” entre os homens heterossexuais explica melhor porque  lidam com as mulheres como objetos sexuais. A heterossexualidade masculina é que pode estar vinculada a um desprezo por elas, pela feminilidade e, não seria surpreendente, sobretudo pela homossexualidade masculina.

O passado de Bruno e Macarrão – escavado com deleite pela imprensa sensacionalista – não deixa dúvidas de que eles surgiram e já fizeram parte do universo exemplar e cultuado da masculinidade heterossexual brasileira. O que desfaz a afirmação aparentemente paradoxal de Macarrão de que não é homossexual, que se fosse assumiria, mas que se sente profundamente humilhado por insinuarem que ele é. Homossexualidade, portanto, para Macarrão e para Bruno, é humilhação. Mas será que não é mesmo a tentativa de humilhá-los retirando-os da esfera da masculinidade heterossexual o que se busca fazer quando se especula se eram amantes?

Na cultura brasileira, a insinuação de ser homossexual equivale a uma acusação, reprovação e, até mesmo, uma condenação. Assim, a condenação por assassinato é substituída pela de homossexualidade apagando a vítima do caso e as embaraçosas questões que este crime traz para a masculinidade heterossexual à brasileira. O caso Bruno, pelos requintes de crueldade, recebe os holofotes midiáticos sem ser devidamente associado ao fenômeno social cotidiano que o precede e explica: a heterossexualidade cultuada na esfera do futebol. O apagamento dela metaforicamente copia o da própria vítima. Eliza Samudio não foi apenas assassinada, ela foi apagada. O apagamento de uma pessoa evoca reflexões sobre os limites para essa masculinidade/crueldade, no caso, dirigida contra uma mulher, a qual não deixa de representar muitas outras.

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Richard Miskolci é Professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, Pesquisador do CNPq e Pesquisador Associado no Núcleo de Estudos de Gênero Pagu – UNICAMP/ e-mail: ufscar7@gmail.com