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Quem tem medo da Periguete?

Lara Facioli

Ganhou visibilidade no vocabulário popular dos últimos tempos o termo piriguete. Elas, as mulheres piriguetes, estão em todos os espaços e são alvos de diversos discursos: aparecem na novela, em sites da internet, são referência da atual moda brasileira e, ao mesmo tempo, são exemplos daquilo que, para uma moda elitista e de classe média-alta, não se deve fazer na hora de se vestir. Elas ganham versões e roupagens variadas como, por exemplo, as empreguetes da última novela das sete, termo que representa uma mistura de empregada doméstica com piriguete. Estão na boca de famosas como Ivete Sangalo que, em show realizado em 2012, afirmou ser a Piriguete Sangalo, etc.

Ao digitar no Google o termo piriguete ou pirigueti (parece não haver consenso sobre a escrita da palavra, embora a primeira seja mais frequente) somos bombardead@s por uma série de músicas, vídeos, matérias de revistas e definições sobre este suposto novo representante da mulher brasileira. Em uma página[1] que se dedica a apontar significados de palavras e expressões, na internet, consta:

Piriguete é uma classificação de mulheres conhecidas por estarem sempre na balada, geralmente solteiras, que escolhem com quem e quando querem ficar, autossuficientes e que não se importam com a opinião alheia. É uma palavra que surgiu em Salvador, capital da Bahia, e vem da palavra perigosa. A piriguete não costuma ser muito bem vista pelo público feminino e muitas vezes nem mesmo pelo masculino, pois são tachadas de vulgares e afins, e apesar de muitas se sentirem inferiorizadas, é uma palavra muito usada em brincadeiras.

Já em outro site[2], que também aparece como sugestão de acesso para quem procura “piriguete” no Google, no qual os próprios usuários expõem a definição dos termos e são avaliados e curtidos por outros usuários e leitores, consta a afirmação abaixo, que recebeu 1347 curtidas, contra 458 recusadas, por parte dos frequentadores do espaço:

Mulher fácil que vai para baladas a procura de todos os tipos de homens para pagar tudo para elas, pois sempre saem sem dinheiro. Geralmente, quase sempre transam na primeira noite. Você é feio, passou uma gatinha e viu que você está com dinheiro ou tem carro e está te paquerando…caia fora, é uma piriguete.

Tendo em mente o tom conservador que muitos destes discursos se esforçam em consolidar, ao apontar a piriguete como algoz, símbolo de mulheres interesseiras, manipuladoras de homens e maridos, sedentas por dinheiro, quero, neste texto, tentar problematizar estes discursos. Eles são, em sua grande maioria, machistas e classistas. Também procurarei apontar como, através da análise de uma personagem de novela, no caso, a piriguete Suelen de Avenida Brasil, é possível compreender a agência dessas mulheres chamadas de periguete na tentativa de fazer frente aos constrangimentos sociais aos quais estão expostas.

 

Nos últimos meses, a mais famosa piriguete apresentada na TV foi, sem dúvida, Suelen, interpretada pela atriz Isis Valverde e que teve espaço considerável na trama de Avenida Brasil, uma das novelas com maior audiência de toda história da Rede Globo. Suelen era moradora do bairro do Divino, periferia fictícia do Rio de Janeiro, não tinha uma moradia fixa e não havia no roteiro da novela algo que deixasse o telespectador a par da história da personagem. A única coisa que a trama revela é sua origem boliviana e o fato de que um cafetão a havia trazido ao Rio de Janeiro para fazer programas quando adolescente, o que causa estranheza já que a atriz que interpreta uma boliviana é branca. Todo mundo sabe que a imensa maioria dos bolivianos têm origens indígenas. No discurso da novela, a piriguete é apresentada como uma mulher que busca se dar bem e se manter financeiramente, através da manutenção de vários parceiros amorosos, em sua maioria, jogadores de futebol do time do Divino.

Tive uma surpresa ao acompanhar o desenrolar da história de Suelen, torcendo para que não acabasse em morte ou espancamento, final trágico de grande parte das personagens de novela com características similares às da boliviana, o que só serve a alimentar o preconceito de que para aquelas de sexualidade livre só poderia haver a morte. Ao invés do final trágico usual, Suelen se casa e o casamento passa a representar, na trama, um emaranhado de significados que desnudam a figura da piriguete e que nos fazem entender o que se alimenta no senso comum sobre ela. Mas não só: o casório vem acompanhado de insinuações sobre estratégias para escapar à homofobia na medida em que traz ao debate outra figura, Roni, o marido, jogador de futebol do time do Divino. Ambos, expostos aos constrangimentos sociais no ambiente onde vivem, ele por sua homossexualidade, ela por sua “piriguetisse”, estabelecerão uma aliança astuta que visa driblar limites morais, com veremos adiante.

Filho do técnico do time do Divino, Diógenes, e de mãe religiosa que resolve retomar o contato com o filho após deixa-lo com o pai, com vistas a seguir a carreira de atriz pornô – Roni, que se desentende com Suelen durante todo o caminhar da trama, propõe a ela um casamento de fachada e não monogâmico usando os seguintes argumentos:

Casando comigo você pega cidadania brasileira e não precisa ser deportada pra Bolívia.  E eu sei que você não quer voltar pra lá… Casando eu ganho um apê do meu pai e saio de casa, realizo o sonho da minha vida. Sem falar que me economizo de mil problemas na minha carreira, com o pessoal do bairro que fala que eu sou gay. [...] É a perfeição pra nós dois! Pensa bem: você vai poder ficar com quem quiser, sem problemas. E eu vou poder sair da casa do meu pai, levar a minha vida. Você não é mulher de casar, Suelen! 

O desfecho, à primeira vista, é do salvamento de ambos: Suelen, mais do que impedida de ser deportada, objetivo que se perde com o caminhar do roteiro, é conclamada a abandonar a “vida fácil” e se curar da “piriguetisse”, por meio do casamento. Roni, salvo das perseguições por sua homossexualidade, passa a ter uma “fachada” heterossexual, o que o torna aceitável no bairro do Divino e no time de futebol. O matrimônio proporciona, para o jogador, a legitimidade de parecer hetero. Soma-se a isso, a empolgação de Suelen com o casamento realizado nos moldes mais tradicionais, com direito a vestido, padrinhos, Igreja e benção do padre, o que deixa a entender que aquilo sempre foi o desejado por ela.

O final feliz dado a Suelen se assemelha à história de Dona Flor e seus dois maridos. Leandro, também morador do Bairro do Divino, com quem Suelen havia mantido relações sexuais por algum tempo e amor platônico de Roni, ao perder o posto de jogador do time do Divino, resolve voltar para sua cidade natal. Roni e Suelen vão encontra-lo na rodoviária e convidam-no para morar com o casal, que rapidamente se transforma em triângulo amoroso. Suelen termina grávida e não é desvendado o nome do pai da criança, uma vez que a personagem não aceita fazer o exame de DNA.

A forma como o triângulo é apresentado ao espectador aponta, claramente, para uma tentativa de nos fazer acreditar que os dois homens não se relacionam sexualmente, sendo a presença da piriguete o que sustenta a pretensa heterossexualidade de seu arranjo amoroso a três. Em diversos momentos da trama, Roni e Leandro passam a imagem de que é por Suelen que eles estão ali, tentando animá-la com suas tentativas frustradas de ser atriz, cuidando da gravidez, etc.

Se partirmos da ideia de que os roteiros de novela são elaborados com vistas à opinião pública e são alterados de acordo com picos ou quedas de audiência, bem como com base em pesquisas realizadas com o telespectador, podemos pensar que o triângulo evidencia que a sociedade brasileira aceita melhor uma relação a três do que uma estabelecida entre dois homens ou mesmo entre mulheres. O que é corroborado pelo quarteto formado na mesma novela, entre Cadinho, Noêmia, Verônica e Alexia, que depois de muito se desentenderem por conta das “puladas de cerca” de Cadinho, resolvem ter um casamento formado por quatro indivíduos, onde as mulheres também aparentam não se relacionar entre si. Em outras palavras, a poligamia, sob o controle masculino, incomoda menos ao público brasileiro do que a homossexualidade masculina ou feminina!

Discussões sobre triângulos amorosos e heterossexismo renderiam outro post nesse blog, então, voltemos para a figura central deste texto, a piriguete, e guardemos como dado importante, o casamento de Suelen e Roni.

O termo piriguete, de acordo com o que é apresentado nos discursos do senso comum e da mídia, surgiu na Bahia, para fazer referência às mulheres perigosas que buscariam manter-se financeiramente com o dinheiro de um homem, sem, necessariamente, se envolver afetivamente com ele. Estas mulheres, neste contexto, seriam jovens de uma camada socioeconômica baixa e, majoritariamente, negras. É de se duvidar que o termo tenha se iniciado em meio aos homens das camadas populares, mesmo estrato social da piriguete e não tão desejados por elas. Quem mais parece ter medo da piriguete são as mulheres de classes média e alta, brancas, uma vez que disputam com ela, no mercado amoroso e sexual, os parceiros disponíveis.

A periguete, como desdobramento da noção de perigo, nestes discursos, é figura desqualificada por usar a sedução como forma de conseguir certa mobilidade financeira dentro dos limites da classe a qual pertence. Em épocas de ascensão das camadas populares e do surgimento do que se chama Nova Classe C, também caracterizada por ser majoritariamente negra, fica evidente o tom de preconceito de classe e de racismo que tais discursos assumem. O que as classes média e alta temem, não é somente a “vingança da empregadinha”, mas também as figuras das mulheres de classe baixa que em maior medida, atualmente, acessam certos bens de consumo, que permitem adquirir uma performance corporal sexualizada, inspirada em mulheres bem sucedidas como Paris Hilton e Kim Kardashian, socialites expostas na mídia. Sobretudo disputam, no mercado amoroso, não somente os homens de seu próprio estrato social, mas os de estrato mais elevado, competindo assiduamente com as chamadas, também no senso comum, de “patricinhas”, jovens, de classe-média alta, que se caracterizam pelo consumo frequente de roupas e produtos de beleza e que prezam, a partir do universo simbólico de sua classe, pela valorização do “amor” e do “romance”, tão distantes da piriguete, cuja origem social exige que seja mais esperta, estrategista e agenciadora do próprio futuro.

Em outras palavras, a piriguete consiste em uma ameaça ao modelo de relação romântica, heterossexual e de classe média-alta. Ela é representante de uma disputa entre amor e interesse, este último colocado como parte do universo das camadas populares nos discursos hegemônicos, quando se trata da figura da mulher. Se a única opção a surgir para uma mulher pobre consistisse de fato na gravidez dividida com um jogador de futebol ou com um homem de estrato social superior, trata-se de ter em mente não se tratar de uma prova da suposta falta de caráter da mulher e sim da permanência da subordinação das mulheres das camadas populares que foram, historicamente, alijadas de transitar entre os domínios do consumo e do prazer até muito recentemente.

No caso do casamento de Suelen com Roni, trata-se de uma aliança entre dois subordinados, apesar de a piriguete da novela das oito ser branca, o que pode diferi-la da piriguete que caminha pelas ruas do país. O objetivo de ambos é o de driblar constrangimentos sociais em busca de uma forma de alcançar a estabilidade, no caso dela, a financeira, decorrente de sua posição subordinada na classe popular; e, no caso do jogador, a segurança e o respeito em um ambiente machista e homofóbico.

A periguete segue gerando polêmica e representado um suposto perigo para as classes altas e para seus formatos de relações heterossexuais, românticas e com papéis de gênero bem definidos. Enquanto uma mulher que pode não ter outros meios de lutar contra sua posição de subalternidade, a piriguete me pareceu bombardeada por discursos classistas, carregados de machismo disfarçado de preocupação com a exposição da mulher e sua consequente desvalorização e vulgarização. Na verdade, tais discursos apontam para uma nítida desqualificação do desejo da ascensão destes sujeitos da Nova Classe C que, por serem mulheres, em sua grande maioria, negras, ocupam uma posição ainda mais subalterna na sociedade brasileira.

No fundo, o que mais parecem temer as patricinhas é que as periguetes apaguem de vez suas ilusões no amor romântico como sendo a suposta liga de suas relações com os mauricinhos. De um embate entre mulheres de classes diferentes algo permanece o mesmo: o homem ainda é visto como detentor das melhores condições financeiras e também do atributo simbólico de tornar uma mulher respeitável ao seu lado. Reside aí a secreta similaridade entre patricinha e periguete, uma forma de subalternidade que a primeira não quer reconhecer e a segunda é obrigada a encarar, reconhecendo os componentes de interesse presentes em qualquer relação amorosa.

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Agradecimentos: Contei com a ajuda de algumas pessoas pra escrever o artigo. Brigada Thaís Moya pelas ideias iniciais, brigada Richard pela correção cuidadosa e criativa, brigada também às piriguetes que estão por aí, inspirando, dentre outras coisas, pensamentos sociológicos.

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Lara Facioli é doutoranda em Sociologia na UFSCar, onde desenvolve pesquisa sobre o uso de mídias digitais por mulheres de classes populares sob a orientação de Richard Miskolci.

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[1] http://www.significados.com.br/piriguete/

[2] http://www.dicionarioinformal.com.br/piriguete/