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Dez dúvidas sobre as manifestações

E algumas reflexões…

Richard Miskolci

            As manifestações no Brasil adquiriam contornos de um movimento, o qual, como o próprio termo define vai se transformando, sendo reinterpretado e exigindo mais reflexão para saber o que significa em cada momento, local e como pode – inclusive – modificar os objetivos iniciais dos protestos que, inicialmente e não por acaso, foram inicialmente hostilizados pelas autoridades e a mídia.

 

1.     Será que as manifestações que se espalham têm o espírito das primeiras que foram hostilizadas?

2.     A reinvindicação inicial sobre o aumento da tarifa era o objetivo? As que se seguem e espalham pelo país se relacionam de que maneira com as iniciais?

3.     A recepção “positiva” da mídia, da oposição e do governo não causa estranheza?

4.     Manifestar apenas descontentamento é algo político em um regime democrático? A Primavera Árabe e demais eram manifestações contra regimes autoritários, eram um descontentamento contra ditaduras. O que pode gerar um descontentamento em um regime democrático?

5.     Muitos definem a pauta dos/as manifestantes como difusa. Alguém consegue imaginar solução difusa?

6.     Dentre as palavras de ordem há “Abaixo a Corrupção”. Alguém em sã consciência é a favor da corrupção? Ser contra a corrupção é como ser contra a fome. Vale lembrar que Jânio Quadros e Collor foram eleitos com discursos contra a corrupção.

7.     Manifestantes se dizem apartidários e contra os políticos. Então, com quem eles/as vão negociar e o que?

8.     Se a mídia, a oposição e o governo “encampam” as manifestações “interpretando-as” como parte da democracia, então elas podem ser “interpretadas” como de esquerda, centro ou direita, demandando mais poder para o governo (golpe branco) ou contra o governo (golpe da oposição que é ainda pior do que o atual governo).

9.     Como tomar parte em uma manifestação sem saber o que ela defende? Ou é possível ser contra a “cura gay” e o “estatuto do nasciturno” e ir para a rua junto com fundamentalistas religiosos, ruralistas e as respectivas “juventudes” oficiais dos partidos que disputarão as próximas eleições?

10. Será que sou @ únic@ a achar que falta uma pauta de reinvindicações claras? Será que sou o únic@ a achar que se criarem pautas as multidões vão se dividir e a pataquada cívica pode virar um campo de batalha entre as diferentes visões de país que estão sendo ignoradas e propositalmente encobertas para criar essa imagem cinematográfica de povo unido?

Não apresento as dúvidas contra os protestos, mas buscando compreendê-los em movimento, em seus paradoxos e possibilidades, positivas ou negativas, sem temores de interrogar as consequências. Vejo que há algo novo nessas formas de manifestações políticas criadas a partir das novas mídias sociais como o Occupy, a Primavera Árabe e os protestos brasileiros.

Dentre as novidades está não a já antiga recusa aos partidos e aos políticos estabelecidos, mas também aos movimentos sociais que há muito não são novos e, no Brasil, foram quase ignorados por FHC, cooptados pelo governo Lula e descartados pelo Dilma. Pior, os movimentos sociais em nosso país não conseguiram e/ou não quiseram construir bases populares. Partidos, governantes e movimentos sociais, de formas diversas, deixaram de criar canais de diálogo com a sociedade civil.

Resultado, a sociedade civil se organiza para protestar contra os canais institucionais existentes para a política. Mas nem a sociedade civil tampouco @s polític@s ou os antigos movimentos sociais conhecem uma alternativa viável.

Por enquanto…