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As negras de Avtar Brah

 

 

Natália Corazza Padovani*

Lembro de estar sentada diante do espelho com os cabelos lambuzados de uma química fedorenta que minha mãe passava fio a fio para alisar os cachos. Cabelos cacheados, carapinhas, não podiam ser bons sinalizadores naquela minha escola de brancos ricos do ABC paulista. Tanto não eram que eram razão de atenção. Encaracolados mereciam cautela naquela terra de lisos. E eu, aos doze anos, alinhava as curvas sinuosas dos enrolados indisciplinados. Lembro de fazê-lo com a ajuda de minha mãe, disciplinadora, lisa, chorosa; enrolada nos nós daqueles cabelos amaldiçoados por uma raça estranha que corria no meu sangue. Afinal que raridade poluidora seria a destes caracóis enroladores? 

 

Foi no avião, pouco menos de vinte anos depois, com a carapinha solta em dias de viagens por uns Estados Unidos pedagogicamente repartidos em branco, negro e latino que me vi, novamente, diante daquele espelho. Na pequena tela, nas costas do assento da frente, eu, latina branca encaracolada, assisti The Help, chamado em português de Histórias Cruzadas. O filme, baseado no livro de Kathryn Stockett, conta as relações estabelecidas pelas meninas brancas, de vinte e poucos anos, recém casadas, recém mães, e, uma, recém graduada, com as mulheres negras, de quarenta e poucos anos, recém trabalhadoras domésticas, recém ex-escravas em Jackson, cidade do estado de Mississipi, durante a década de 1960. Voltando de uma estranha temporada pelos suls daquele país, as imagens do filme selavam minhas impressões.

 

Todos os anos o Women’s Studies da Duke University em Durham, North Caroline, USA, faz um workshop sobre teoria feminista. São convidados importantes personagens de referência na área que sobem a um púlpito e narram acerca da produção de novos conceitos, novas expertises, novas metodologias, novas percepções: inovações para a teoria feminista mundial. Neste ano, se nem todos os expoentes eram brancos norte-americanos, todos eram professores de universidades brancas norte-americanas: lisas. No auditório cheio, disputado, estudantes bem vestidos, portadores de óculos e cabelos minuciosamente estilizados, acotovelavam-se, sentavam-se no chão para poderem ouvir, com atenção, os ensinamentos dos sábios teóricos tecedores de linhas conceituais a serem aplicadas pelo desenvolvimento da prática das ciências sociais, antropológicas: o progresso.

 

Estava eu, neste ano, zonza dentre estes cotovelos. Brasileira, fui, junto com mais outras quatro garotas estudantes “promissoras do terceiro mundo” – leia-se uma congolesa, uma mexicana, uma croata, uma islandesa (nórdica, branca bem afastada, quase exótica) – beneficiada com uma bolsa que me levou de Santo André à Guarulhos, de Guarulhos à Nova York e, de lá, ao sobrevôo pelos rios que entrecruzam Tennessees e Mississipis à friagem fervilhante sulista daquele hemisfério norte.

 

Foi nas escalas de filas; atendente a atendente, policial a policial, em Nova York, que eu pensei que os Estados Unidos eram negros. Foi naquele aeroporto gelado, grosseiro, caro, com nome de herói democrata que passa gel nos cabelos lisos, que sentei a espera do vôo à Durham, North Caroline; sul longínquo daquele norte central fronteiriço. Ao meu lado, um senhor simpático carregava um anel em cada dedo de pele preta; na cabeça, os cabelos brancos penteados e, no tronco, um blazer bege. Lia The New Yorker. Íamos ele e eu descer.

 

Desci em Raleigh-Durham, e corri à fila dos taxistas. Clientes, brancos, sentavam-se atrás. Foi onde sentei. Na direção estava Halli, somaliano morador de Raleigh-Durham pelos últimos doze anos. Dirigindo, contou-me da Somália, da comida, do sol, das estações, contou do medo que tinha de seus filhos – adolescentes, negros e africanos – serem presos nos Estados Unidos (onde prisões privadas enquadram latinos, africanos e seus filhos norte-americanos). Contou que por esse medo, ele e sua esposa resolveram que filhos e mulher iriam morar na Somália. Só, Halli permaneceria nos Estados Unidos trabalhando como taxista. No caminho, naquela estrada deserta que cruzam cidades sem calçadas, Halli disse que somente como taxista de um provinciano aeroporto norte-americano conseguia manter os filhos na Somália. Que só com os dólares de Halli é que seus filhos podiam comer, apenas, comida orgânica escapando, assim, da prisão e dos pesticidas norte-americanos que, testados nas lavouras somalianas, afetam o sistema nervoso de quem os come. Halli não os come. Não os comem seus filhos. Mas pesticidas, prisões e dólares americanos dirigem suas vidas desde aquelas estradas vazias até os caminhos da mercearia somaliana.

 

Desci, mais uma vez, agora, num hotel. Eram recepcionistas e lençóis brancos. Arrumadeiras morenas, mexicanas. Perguntei pelo ônibus que me levaria à universidade, ao que me responderam que não havia; como não havia, também, caminhos pelas calçadas. Só havia carros, “é perigoso transitar por onde caminham carros, você pode ser atropelada e o trajeto é vazio”. O taxista que me levou desde ali até a universidade desta cidade sem transporte público, era Gabriel do Suriname. Ex-garimpeiro se sentia um tanto de Roraima que falava até português. Tinha casado com uma cozinheira que trabalhava meio período como puta no garimpo fronteiriço, mas perdera todo o ouro e, foi juntar-se ao seu irmão naquelas terras de asfalto liso. Falava pouco inglês, não precisava. Cliente não trocava muita conversa e o bairro em que fez tua casa era latino nas margens dos rios negros daquela alva Carolina que conheci, enfim, ao entrar no campus da universidade do Duque. Casas neogóticas um dia mantidas e habitadas por grandes proprietários das terras onde escravos plantavam tabaco. Senhores preocupados com a educação de seus filhos homens. Desci do carro de Gabriel. Vínhamos ele e eu de um sul diferente daquele. Vínhamos ele e eu de um sul não tão diferente daquele. Eu, paulista, branca, antropóloga, feminista descia do carro. Ele surinamesco, nortista, garimpeiro, de um latino mais escuro que o meu, seguia no carro; viria me buscar mais tarde.

 

Mas naquele auditório eu era um pouco Gabriel. Achatada por entre os cotovelos anglo-falantes, meus latins encaracolados eram pretos. Numa escala diferente da de Halli, da dos policiais atendentes do aeroporto JFK, era eu a preta bárbara civilizada: tão branquinha que decepcionava. Nada queriam ouvir de mim que vinha de longe. Como com Gabriel, a quem se ajuda não se troca conversa. Não havia troca possível comigo ali, naquele auditório. Só a escuta civilizadora que vinha iluminar a minha prática e teoria sulista do mundo; lá de baixo. Descia. Falavam de etnografias feitas com travestis filipinas, equatorianas; com trabalhadoras mexicanas, portenhas, croatas, congolesas; com índias neozelandesas. Falava-se de conceitos que nomeavam zonas fronteiriças das sexualidades, dos cuidados, dos afetos; Brown, chamavam-nas. As fronteiras eram marrons. E nós, cotistas convidadas, ajudadas, cuidadas: brasileira, congolesa, mexicana, croata, islandesa, sentíamos estranhas familiaridades com a tal novidade das ciências sociais. Éramos nós as tais zonas browns. Éramos nós as marrons suficientemente brancas para estarmos ali sentadas, servidas de café, água, comida, lençol e transporte dos mais marrons do que nós. Nós, marrons de tantas línguas, trocávamos olhares e, depois da pouca intimidade enrolada pelos embaraços, alguns certos risos sarcásticos dos que descem à área de serviço e sentam à mesa mais próxima da comida e do banheiro com os cotovelos alargados postos sobre a mesa. Mesa a nós reservada durante o jantar de encerramento do evento. Mesa do cuidado delicado oferecido a nós: nós dos cuidados, das ajudas.

 

Risos hilariantes saiam da mesa ocupada pelas promissoras cotistas, pelas negras de Avtar Brah que faziam transbordar as fronteiras marrons. Fronteiras viventes. Risos sarcásticos de olhares cúmplices trocados por corpos que centralizam os caminhos das descidas e conhecem mapas com outras margens. Assim foram os olhares de Aibileen Clark para Minny Jackson. Duas das protagonistas do filme The Help: duas negras, gordas, trabalhadoras domésticas, pobres que mais do que terem de se submeter às leis de apartheid racial do estado do Mississipi na década de 1960, sentiam-se coagidas a atenderem ao rastreamento ordinário de seus corpos, ou melhor, seus fluídos, suas merdas, excrementos, ordinariamente controlados pelos usos e especificações de banheiros, papéis higiênicos, utensílios de cozinha, copos, toalhas… Artefatos conhecidos pelos controles femininos domésticos. The Help é um filme de mulheres, são elas protagonistas de um mundo que não passa pelos altos edifícios de Estado, assembleias, congressos, universidades privadas. Mas sim pelos acordos tácitos mantidos nos corredores de piso laminado, mármore e terra batida das cozinhas, das vielas, das varandas, das igrejas e das pequenezes cotidianas governamentais: delegacias, ônibus, prisões, hospitais. Em The Help, homens são coadjuvantes de processos estatais domesticados pelas relações postas nos quartos de dispensas. Trata-se disso, enfim, da ajuda, da ajudante, do cuidado e da cuidadora; da expertise em saber manter velados segredos públicos.

 

A mesa Brown da Women’s Studies foi composta tão somente por mulheres marrons controladas em seus sotaques, acentos: outros excrementos poluidores. Cachos enredadores do poder de fazer falar o que deve ser cuidadosamente tácito. Carapinha das tramas de segredos que, todavia silenciados, podem afetar tramas de poder diárias, caseiras, íntimas, corporais. Eram destes nós que falavam nossos corpos mudos e risonhos postos estrategicamente na mesa perto da comida. Corpos negros fronteiriços, bárbaros conhecedores de expertises insolentes que poluem quimicamente os lisos cabelos louros de uma América do Norte distante das suas próprias calçadas hostis.

 

Foi indo embora desta mesa dos cuidados civilizatórios, levando acentos e embrolhos anotados em guardanapos, que assisti, desde aquela tela mínima de dentro do avião que descia pelo mapa oficial das rotas aviárias, The Help. Foi desde ali que me vi no espelho. Vi-me ao deparar com a cena da mãe que alisa os cachos da menina jornalista, recém-graduada, recém-chegada de Nova York a cidade de Jackson. Alisa-a na esperança, de esta, enfim, fazer apaixonar um homem, encontrar um marido, casar certo, enquadrar-se, alisar, esbranquiçar.

 

As cenas, postadas na tela, de um Mississipi negro nas cozinhas, nas igrejas e nos ônibus em contraste com a branquidão dos auditórios que reuniam senhoras organizadoras de jantares beneficentes em prol das crianças da África, ironizavam em uma tessitura cruel com as trajetórias de Halli, seus filhos e sua esposa, com a subserviência de Gabriel e das copeiras mexicanas sem nome, com o lugar servil da ajuda que nossas peles cotistas ocupavam nas cadeiras, mesas e jantares: microgeografia política da ordem que configura países, fronteira, acentos e corpos em “mundo” e “terceiro mundo”.

 

Num riso sarcástico e com os olhos marejados, agradecia às ajudas recebidas.

 

Mas enfim, não iria mais embora daquele mundo terceiro. É disso que se trata fazer-se estranho: cruzar as margens e conhecer o entre, já diria Guimarães.

 

Cruzei algumas vezes mais com cenas mississipanas estendidas. Liguei, desde minha casa em um Santo André de ruas úmidas, a televisão, e ali estavam os mesmos cachos sendo alisados. Era o mesmo Mississipi congelado numa película gravada, mas o dia era outro e já não voava mais às cenas de minha infância, mas desde lá até a cadeira de um cabeleireiro negro que insistia em me vender um programa de alisamento dizendo serem, meus cabelos crespos, uma maldição! A banalidade dos termos, a normalidade da fala me colocava, outra vez, no ponto estranho: enrolado.

 

Voltava, contudo, por àquelas horas, desde outro norte, desde outros fusos. Havia passado dez dias por entre salas de aulas da Universidade Federal do Amazonas no campus de Benjamim Constant e em meio às fronteiras de Brasil, Colômbia e Peru nas cidades de Tabatinga, Letícia e Santa Rosa. Uma Amazônia profunda a que fui chamada, desde a brancura paulistana, para ministrar um curso: “Gênero e Violência: de Foucault a Butler”, se chamava. Ali, eu ocuparia o púlpito.

 

A posição inversa da levada. Eu era a porta voz de um francês branco gay e de uma gay norte-americana branca. Ao menos, diriam, eram pirofagistas, mas a intenção ainda era a de incendiar uma mata. Lugares de enunciação, falaria Foucault.

 

Foi na primeira aula sobre “o tema” que Oscar, “aluno”, ribeirinho, com a mesma idade que a minha, observou: “deve ter sido mais fácil para Foucault se dizer gay? Tem haver com o que a senhora falou sobre lugar de enunciação, não é professora?”. Ser branco em paris, protegido pelas salas de aula das L’écoles tinha mesmo seu lugar de enunciação. Mas Oscar não sabia que nem aquele havia sido suficientemente confortável para dizer-se gay. Foucault, por fim, só o fez, nas fronteiras opostas ao sul do qual fui uma visita marrom. Foi entre os couros pretos de São Francisco, anos depois de deixar o extremo norte de seu mundo enevoado, Paris, que Foucault, como eu, encontrou outros lugares de enunciação.

 

Mas então, na terceira “aula”, Patrícia balançou a cabeça veementemente. Ela, que exibia cicatrizes e tatuagens profundas pelo corpo magro da mulher divorciada, mãe arredada da família pela coragem em separar-se, aos dezenove anos, de um esposo violento, respondeu à Butler: “eu quero sim o Estado! Se ela não quer, eu quero!”. E como o desejava! Uma professora universitária branca em Nova York (ou em São Paulo?) poderia até rejeitá-lo (será?), ela não!

 

A desobediência alargava a desordem da civilização subversiva, deslocava-a e fazia de minha carapinha pelos tão lisos quanto à careca de Foucault. Ali, eu era o púlpito diante do riso sarcástico obscurecido pelo canto da boca vermelha. Lugares de enunciação. Minha brancura ressoava tonalidades professorais, hierarquicamente específicas. Cor que, de outro modo, me ajudou a ser posicionada tenuemente: enquadrou, alisou; coibiu-me a andar por mapeamentos limitados, me fez depender de outros corpos para caminhar por fora. Camadas da ajuda. Contingências das cores nada metafóricas ou abstratas: corpos. Corpos materializados em fronteiras poluentes. Enrolados pelas tramas dos suores, dos gozos, dos sangues, das palavras, dos acentos, das comidas. Fronteiras contingentes, riscos das relações: não existe liso possível. Maldição!

 

E as mães de Mississipi espelhadas nas minhas próprias, cabeleireiros negros racistas, pedindo para alisar-me os enredos de tramas tão ferozes. Permaneço assim, longe da terceira margem, apanhando, batendo. Nessas parábolas fronteiriças que encontro pelas ruas que saem de minhas casas, meus espelho, meus corpos, meus cabelos carapinhas.

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Natália Corazza Padovani é Mestre em Sociologia e doutoranda em Antropologia Social na UNICAMP

 

 

 

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Outubro de 2013.