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Blue Jasmine e A Rosa Púrpura do Cairo: flores raras entre o sonho e o pesadelo norte-americano

 

Richard Miskolci

 

Quando eu era estudante de economia era sempre confundido pelas bibliotecárias como sendo da área de literatura e, de certa maneira, ironizado por alguns professores por minha paixão literária. Na época, a confusão e estranheza que causava me parecia sinal de inadequação social pura e simples. Economista devia se preocupar com “coisas sérias”, estudar macroeconomia, venerar Marx e não se deixar levar por livros e filmes. Hoje em dia diria exatamente o oposto. Se fiz alguma escolha válida na vida foi a de me dedicar tanto à leitura de romances e à busca de filmes que me fizessem olhar o mundo de outra forma, pelo lado pequeno e singelo do cotidiano desqualificado pela seriedade dos grandes tratados.

Lembro que quando estudávamos a Grande Depressão corri a ler “Vinhas da Ira” de John Steinbeck e assisti pela segunda vez meu filme predileto: “A Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen. Fiz comentários em sala de aula que despertaram a atenção de meu pouco inspirado professor e o olhar de fria condescendência de meus colegas de classe. Aos olhos deles as obras apenas ilustravam o que se passara, eram um simulacro da dura realidade dos fatos econômicos e políticos. Mas aos meus olhos a experiência da família migrando pelos Estados Unidos em uma viagem desesperada, em meio à crise, até a Califórnia ou a história da mulher desempregada que buscava refúgio em um cinema da Broadway, em Nova York, me ensinavam mais sobre a Grande Depressão do que os frios relatos construídos com o supostamente necessário distanciamento “científico”.

Por que a crise econômica seria mais visível e mensurável em número do que em sofrimentos? Será mero acaso que os números de suicídio sobem em meio às quebras de bolsa de valores? O que eu não entendia ainda é que a história oficial das grandes crises econômicas é feita pelo alto, quer seja a partir dos governos, dos burocratas ou das vertentes políticas à direita e à esquerda. Mas meu olhar se dirigia aos de baixo, os mais duramente atingidos ainda que curiosamente os mais facilmente ignorados durante e após as recessões. Não por acaso, meu professor até se interessou em saber da história da família migrante em busca de emprego e da sobrevivência, mas um sorriso irônico tomou seus lábios quando resumi a história da protagonista de “A Rosa Púrpura do Cairo”.

Uma mulher simples, ignorante sobre o mundo da política e da economia, que apanhava do marido e – ao ficar desempregada – vai ao cinema e começa a assistir seguidamente um filme até que, em um aparente delírio, os personagens começam a conversar com ela e o protagonista a convida a entrar do outro lado da tela. Mia Farrow era então esposa de Allen e sua musa. Seu retrato de Cecilia une – na medida certa – a doçura da personagem e o amargor de suas circunstâncias. É o contraste entre sua fragilidade e a grandiosidade do mundo ao seu redor – quer o da Grande Depressão ou o do glamour do cinema – que a torna tão fascinante. Focar em um grão de areia em meio a um oceano bravio diz muito sobre a perspectiva de um artista em relação à realidade que analisa. Que esse grão seja uma mulher frágil e sem recursos para resistir não é mero acaso. As crueldades da vida social continuam a ser mais duras para as mulheres ou todxs que são colocados em sua posição subalternizada hoje em dia.

Passados tantos anos e em meio a uma “crise econômica” que, um dia, poderá figurar nos livros como a Segunda Grande Depressão tenho tateado, aqui e acolá, por fontes visuais e literárias sobre o que vivenciamos para além dos dados “concretos” dos artigos e relatórios. Até que hoje assisti “Blue Jasmine”, o mais recente filme de Woody Allen. Seu roteiro simples e certeiro se passa entre a Nova York dos negócios, do poder e da corrupção e a San Francisco dos outsiders, dos fracassados e dos white trash. Jeannete, ou melhor, Jasmine, é uma mulher de origem simples que soube fazer seu caminho de ascensão social até o casamento com um homem de negócios envolvido em artimanhas financeiras. Em meio ao colapso de 2007-2008, seu marido é preso, perde tudo e termina por se enforcar na prisão. Seu enteado abandona os dois e Jasmine, empobrecida, tem um colapso nervoso que a leva ao internamento, ao eletrochoque, mas – por fim – decide começar de novo do outro lado do país.

O filme se inicia com a viagem da Costa Leste para a Oeste, de Nova York para San Francisco, uma travessia cuja decadência dourada evoca – por mais estranho que possa parecer – a dos personagens miseráveis de Steinbeck. Jasmine, que adotara como nome a flor predileta de sua mãe adotiva, o jasmin azul que só floresce após o anoitecer, vai ao encontro de sua irmã Ginger. Ambas foram adotadas pela mesma família, portanto têm – a despeito de tudo o que as distingue – o mesmo passado de crianças órfãs (foster kids). Sendo biologicamente de pais diferentes não foram tratadas da mesma forma pelos pais adotivos. Na fala recorrente da morena e baixinha Ginger, a família sempre preferiu a loira, alta e aristocrática Jasmine por ‘seus genes melhores”.

Jasmine e Ginger têm uma origem de White Trash (lixo “branco”), ou seja, de brancos pobres considerados perdedores/as (losers) no contexto capitalista norte-americano, mas enquanto a loira subiu antes de cair na escala social a morena se contentou em casar com homens medíocres e pobres. Jasmine abandonou sua graduação em Antropologia para se casar com o magnata financeiro e Ginger virou uma dona de casa com dois filhos que, separada, trabalha em um supermercado do Mission District. A crise econômica destruiu o casamento de ambas: o da loira pela fraude dos negócios do marido e o da morena porque o mesmo fato dragou todas as economias do seu companheiro. Unidas pela adoção e pelo fracasso de suas vidas amorosas, Ginger e Jasmine têm muito mais em comum do que parece inicialmente ao espectador.

O filme gira em torno da história de ambas, seus distanciamentos e aproximações, mas – em especial – de suas tentativas de não se afogarem em meio à crise financeira e pessoal. Jasmine tenta juntar seus pedaços e seguir em frente, retomar os estudos enquanto trabalha como recepcionista para sobreviver. Sua perseverança une sua fragilidade a uma ética de trabalho férrea em uma mistura cruel consigo mesma. Ginger, por sua vez, aventa abandonar seu namorado simplório e machista por um homem mais galanteador e com chances de ascensão social. Em comum, os destinos de ambas envolvem homens cujo envolvimento com elas é sempre incerto e provisório. Sem qualificação educacional e condições para sobreviver por seus próprios meios vivem em torno de uma armadilha.

Cate Blanchette encarna Jasmine com a precisão e o talento que lhe é peculiar. É outra flor rara de Allen, oitenta anos depois da crise de 1929 e em um perfil realista, uma versão mais multifacetada e moralmente ambígua da Cecilia de seu já clássico filme de 1985. Blanchette acerta no tom em um papel difícil, apresentado em camadas que se aprofundam com o andamento da estória como se fossemos convidados a conhecer seu interior cada vez mais em filigrana, o que nos aproxima com admiração e horror de sua fragilidade, seus erros e seu desamparo.

Em “Blue Jasmine”, Allen retrata vidas simples e entrelaçadas construindo um dos melhores retratos da América após a crise de 2008. San Francisco é cenário acertado para entender vidas entre a ascensão do que teóricos chamam de Nova Economia e a decadência e o descarte social dos indesejados. Não por acaso, em suas ruas não faltam pessoas sem-teto, não necessariamente miseráveis, mas mentalmente abaladas pelas promessas e as decepções do que um dia se chamou de “sonho americano”.