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Notas sobre o envelhecimento homossexual nas mídias digitais

 


 

João Paulo Ferreira*

 

            “Amizade boa é aquela pra vida inteira, como um casamento ainda mais bem fundamentado que o comum. Amizade que implica partilha sem cobrança, transparência, companhia nos melhores e nos piores pedaços, e o não engessamento do outro numa idealização irreal e injusta! Sou dono de um depósito bom dessa amizade, quem quiser um pouco ou muito dela, eis me aqui! Além disso, sou de namorar, mas aí, já é outro assunto…” relata Walter[1], 50 anos, residente em São Paulo e faz uso das salas de bate-papo online.

 

            Neste texto reflito preliminarmente sobre o “campo de possibilidades” aberto pelo advento da internet no que toca às questões que envolvem o desenvolvimento das formas de ser homossexual a partir do recorte geração, renda e escolaridade que marca o universo de pessoas com mais de 50 anos que acessam a rede com o intuito de se socializar, fazer amigos ou mesmo paquerar.

 

            A maneira como as pessoas interpretam e desenvolvem as relações e constroem seus desejos é fortemente influenciada por uma multiplicidade de aspectos. A busca por amizade e/ou sexo nas mídias digitais, por exemplo, pode apresentar nuances quando tratamos de geração e cultura.

 

            Começo pela geração. O fluxo temporal e histórico são pontos importantes e situados que marcam a experiência individual de envelhecer e assimilar parâmetros hegemônicos de época em época. A sociabilidade, como mediadora de relações, é avaliada e renegociada em contextos culturais diversos e, portanto, na ação social. Lidamos, assim, com um “tempo interior” que é apreendido de forma subjetiva (MANNHEIM, 1982) e partilhado por aqueles/as que vivem experiências históricas comuns formando uma geração. Em outras palavras, diferentemente das concepções positivistas que tratavam o indivíduo e suas etapas de vida como um determinante biológico, a concepção de geração de Mannheim compõe uma rede de significações que se ligam a épocas a culturas comuns como produtos fabricados no social e estabelecidos culturalmente (WELLER, 2010).

 

Em consonância com o universo homoerótico masculino com o qual tenho me familiarizado, outros estudos (ALVES, 2010) sobre interações em salas de bate-papo entre mulheres com mais de sessenta anos apontaram a criação de relações com parceiras de 10 a 15 anos mais jovens. Essas mulheres, com formação universitária e na faixa etária dos 60 a 70 anos encontravam nas salas de bate-papo e sites voltados a um público homossexual uma alternativa de sociabilidade, busca e seleção de parceiras. Encontro um cenário similar na pesquisa de iniciação científica que venho desenvolvendo.

 

            O intuito aqui é refletir sobre: quais são os envelhecentes online atualmente? Quais elementos de ordem cultural, econômica, geográfica, e social delimitam as fronteiras que dividem quem têm acesso às mídias e quem não têm? No caso de quem tem acesso ao mundo online, qual é o espectro do nível de renda, educação, percurso de vida, estilo de consumo, inclusive, cultural?

 

            Durante minha pesquisa, contatei 119 pessoas com idade entre 45 e 65 anos, de todo o Brasil, que buscam ou se interessam por relações homoeróticas e usam as salas de bate-papo do portal Universo Online® (UOL). Dxs interlocutorxs que consentiram participar da pesquisa, 26,96% eram pós-graduadxs, 28,70% possuíam graduação e 26,09% tinham nível superior incompleto. Ou seja, quase três quartos tinham alto nível educacional em relação à população brasileira como um todo. Do restante, apenas 0,87% possuíam somente o ensino fundamental completo, 13,91% possuíam ensino médio completo e 3,48% com ensino médio incompleto.

 

            Pelo Critério de Classificação Econômica Brasil[2], pude levantar dados importantes que conduziram a análise sobre renda e poder econômico dxs participantes. A saber, da amostra de 107 indivíduos entrevistados, 50,42% foram avaliadxs nas classes B1 e B2 (25,21% em cada), 19,33% na classe C1 e 8,40% na classe C2. Nas classes A2 e D foram avaliadxs, respectivamente, 8,40% e 3,36% participantes da pesquisa.

 

            Grande parte de meus/minhas interlocutorxs, 96,52% homens e 3,48% mulheres, são provenientes de contextos em que o acesso à educação é alto. O privilégio de classe é uma questão que se faz representar pelos indicadores. Entretanto, essa não é a caracterização predominante entre a população brasileira dessa faixa etária tanto em termos etários quanto em termos de origem geográfica. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2012, a taxa de analfabetismo em relação à idade era de 24,4 % entre indivíduos com 60 anos ou mais. Portanto, se há um recorte de renda e escolaridade no acesso à internet em nosso país, ele se radicaliza entre os indivíduos acima dos 60 anos, mostrando que os atualmente online caracterizam um estrato privilegiado, ao menos em termos educacionais. 

 

            Evidentemente, ainda existem rupturas que podem ser verificadas pelos indicadores sociais apresentados anteriormente. Educação e renda, por exemplo, estão diretamente envolvidos com a mediação da experiência. De qualquer forma, vale lembrar que homossexuais – devido às restrições à livre expressão de seu desejo no cotidiano – podem dispender mais com comunicação porque por meio das novas mídias sociais têm acesso a uma sociabilidade que lhes é negada sem mediação. Portanto, se a experiência é mediada por diferentes tipos de marcadores, podemos pensar preliminarmente na categoria “desejo” como produto de um processo que aglutina classe social, geração e consumo. Esses marcadores sociais da diferença representam segundo Avtar Brah (2006), um processo contingente, passível de deslocamento, altamente fluido e que pode ser ressignificado.  

 

            É possível compreender o consumo atrelado à noção de poder, em que, estar conectado em salas de bate-papo não somente marca a homogeneidade dxs interlocutorxs homossexuais de minha pesquisa, mas, também, denota uma hierarquia em relação ao acesso que é representada pelos contextos e capilarizada nos lugares que lhe são próprios (FOUCAULT, 1988). Em outras palavras, os homens homossexuais idosos online ainda representam uma minoria dentro de sua coorte e tendem a se aproximar de indicadores de gerações mais novas.

 

            A realidade que integra o circuito da demanda e da sociabilidade online entre homossexuais mais velhxs não se traduz, tão somente, em possibilidades positivadas – “promissoras” –, antes, como formas hierárquicas rígidas de inclusão e exclusão.  De forma preliminar, minha pesquisa mostra que os novos espaços de sociabilidade online e suas tecnologias utilizadas por homossexuais acima dos sessenta anos como forma alternativa aos circuitos tradicionais são acompanhados por um recorte severo de classe social e escolaridade, se comparados com o restante da população brasileira na mesma geração.

 

Com a popularização do uso dos computadores, das redes sociais e do poder de consumo muitos pontos de acesso foram criados em todo o Brasil – 56 milhões até outubro de 2012 (IBOPE) –, entretanto, ainda é perceptível que esse processo marca uma grupo privilegiado, mas não mais minoritário. De acordo com a PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios) de 2012, mais da metade dos moradores do Sudeste e do Sul já possuem acesso à internet. Segundo pesquisa do Ipea[3], o fato de não possuir computador representa 59,6% dos motivos para não contratar o serviço de internet, seguido de 14,1% que afirmaram não ter condições de pagar pelo serviço, 8,7% por não ter necessidade/interesse pelo serviço e 4,3% por não saber utilizar.

 

            Esse “estrato privilegiado” que teve predominância em minha pesquisa, não pode ser generalizado entre xs homossexuais mais velhxs atualmente online. Por ser uma metodologia de amostras convenientes, este fato pode ter influenciado a investigação e propiciado tal recorte de classe[4]. Respondentes tendem a ser pessoas com certo nível intelectual e que se sente atraído pela possibilidade de participar de uma pesquisa acadêmica enquanto os que não responderam podem ter perfil menos escolarizado e, inclusive, com menor renda.

 

            Dito isso, os dados obtidos pela estratificação por região/estado demonstraram que 51% dxs interlocutorxs em minha pesquisa eram provenientes de São Paulo, 18% do Paraná, 14% do Rio de Janeiro, 6% de Minas Gerais e 4% do Rio Grande do Sul. As demais regiões/estados – Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás, Espírito Santo, Distrito Federal, Bahia, Tocantins, Pará e Paraíba –, as quais xs interlocutorxs eram provenientes, apresentaram indicador de 1% em cada um. Foram encontradas similaridades com outros indicadores validados em pesquisas nacionais em relação aos mesmos recortes geográficos e suas diferenças[5]: produto interno bruto (PIB) per capita, índice de desenvolvimento humano, taxa de analfabetismo, demografia, acesso à internet e expectativa de vida.

 

            A mídia como uma possibilidade para encontrar parceirxs, pelos indicadores analisados por teste comparativo – Mann-Whitney (U), Wilcoxon (z), Asymp. Sig. (2-tailed) – demonstrou que, no caso dos indivíduos que vivem a homossexualidade de forma secreta, teve forte correlação com o critério da idade – (U = 1078,500, z = -2,213, p = 0,27). Ou seja, as pessoas que vivem a homossexualidade de forma secreta são mais velhas quando comparadas, no mesmo estudo, com o grupo que vive a homossexualidade de forma pública – mais jovens.

 

Viver a homossexualidade de forma secreta e fazer uso das mídias para encontrar parceirxs quando mais velhx é algo a ser pensado: quais fatores levam a esse circuito online da relação homoerótica em segredo? A geração que viveu o pânico sexual da aids entre a década de 1980 e 1990 se envolve numa “nova” cruzada moral a despeito de saúde/doença? Quais marcadores sociais da diferença movem esse circuito?

 

            Sendo assim, é possível perceber que a web amplia o código-território das relações homoeróticas tanto para os grandes centros, cidades interioranas e estados, os quais meus participantes eram provenientes (Gráfico 1). Cria possibilidades inimagináveis que, à luz dos espaços públicos, jamais poderiam acontecer. Das razões mais diversas, esses indivíduos que fazem parte de uma geração que viveu a homossexualidade no “meio” – e, portanto, a necessidade de afirmar-se “fora” –, como estigma, doença e, mesmo, pecado, encontram na internet uma nova – e, talvez, única – forma para encontrar parceirxs e criar laços de amizade sem serem marcados pela exposição de seus desejos eróticos no espaço público (MISKOLCI, 2009, p. 176).  

 

“Ser velhx” e participar dos circuitos em espaços diversos é, antes qualquer coisa, abraçar o “campo de possibilidades” que as normas permitem. Na busca por relações homoeróticas e até mesmo amizade nas mídias digitais, o corpo e a saúde desempenham grande papel entre internautas mais velhos. Suas “chances” online de se socializar envolvem sua origem socioeconômica, pois o universo online se relaciona diretamente com o off-line. Nesse sentido, até mesmo o desejo por encontrar amizade online expresso por um dos colaboradores da pesquisa no início desse texto tem suas demandas. Não nos enganemos, pois online até a amizade tem seu preço.
 

João Paulo Ferreira é estudante de Gerontologia da UFSCar e membro do grupo de pesquisa

 


 

Agradecimentos:

 

 

 

Ao Prof. Richard Miskolci e Felipe Padilha pelas valiosas críticas e orientações na redação. À Prof. Keika Inouye pela especial ajuda com o SPSS, leitura dos dados e atenção. Muito obrigado!

 

 

 

 

 

Referências:

 

 

 

ALVES, A. M. Envelhecimento, trajetórias e homossexualidade feminina. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, n. 34, v. 16, p. 213-233, 2010.

 

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 

 

MANNHEIM, K. Sociologia. São Paulo: Ática, 1982.

 

MISKOLCI, R. A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da normalização. Sociologias, Porto Alegre, n. 21, p.150-182, jan./jun. 2009.

 

WELLER, W. A atualidade do conceito de gerações de Karl Mannheim. Revista Sociedade e Estado, n. 2, v. 25, p. 204-224, mai./ago. 2010.

 

 

 



[1]Por motivos éticos, foram suprimidos os nomes reais dxs interlocutorxs. Walter é um dos interlocutores neste estudo que analisa qualidade de vida e esperança entre pessoas na faixa etária dos 45 aos 65 anos que se relacionam com pessoas do mesmo sexo nas salas de bate-papo da Universo Online® (UOL); o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de São Carlos (parecer número 300.177/2013) e é coordenado sob orientação da Profa. Dra. Keika Inouye e da Profa. Dra. Fabiana de Souza Orlandi do Departamento de Gerontologia.

[2]Instrumento validado nacionalmente e utilizado para mensurar o poder de compra das famílias e das pessoas. É caracterizado pela somatória dos critérios: posse de itens e grau de instrução do/a chefe de família (escolaridade). Subdivide-se em oito classes, sendo, em ordem ascendente: E, D, C2, C1, B2, B1, A2 e A1.

[4]A amostra por conveniência faz parte da metodologia da presente pesquisa, a qual é organizada para receber xs interlocutorxs – dentro do recorte: idade entre 45/65 anos, que se relacionam com pessoas do mesmo sexo nas salas de bate-papo da UOL, em todo o Brasil – e avaliada por meio da plataforma Survey Monkey®, versão Gold, for Windows.

[5]Para detalhamento e conhecimento dos indicadores, o arquivo com a tabulação completa pelo Choropleth Map (Microsoft® Office Excel, 2007) está disponível para download nesta página.