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Sobre provocar e reagir: a resposta perlocucionária de Valesca Popozuda ao filosofês

Felipe André Padilha

        Como alguém dedicado à compreensão das relações sociais, me sinto autorizado a comentar o fato da recente polêmica envolvendo a obra antropofágica de Valesca Popozuda.

Pra começarmos nossa conversa, gostaria de sublinhar que estamos diante de um ato performativo. A linguagem é sorrateira e por isso perigosa, o que talvez seja ilustrativo para o que Butler chama de performatividade linguística. Estou convencido de que no livro Excitable Speech: a politics of the performative (que eu até agora estou tentando entender porque traduziram como Lenguaje, Poder e Identidad) podemos encontrar elementos que nos ajudem a destrinchar algumas formulações que considero “caretas”.

Dizer que a Valesca é uma pensadora, e das grandes, não opera como um enunciado constativo, na medida em que não descreve (constata) nada. Seria então mais profícuo encarar esse como um enunciado performativo cuja função é criar citações dentro de uma cadeia de repetições. (E hoje eu li Derrida). 

Aprendemos com as autoridades autorizadas que Kant pensa. A Valeska Popozuda jamais. Esse mecanismo é perverso. Eu gosto de pensar nele pela ideia da “colonialidade do ser”, gestado pela vertente decolonial. Nós aprendemos desde sempre que o conhecimento nos é externo: se Deus é brasileiro, a Razão deve ser no mínimo francesa e a Liberdade, com certeza, rica e americana. Afinal, na anatomia política do pensamento globalizado nós somos o cu do mundo. Como nos mostra Butler, os enunciados de identidade guardam a memória das práticas de autoridade que os instituem e os inscrevem como normais e abjetos (2004, p.65). É assim, por exemplo, que continuam operando as citações ritualizadas da heterossexualidade, do racismo e da colonialidade. Mas eu gostaria de enfatizar outro caráter; esse caráter de interpelação que está sorrateiro na questão: “grande pensadora”.

Chamar Valesca Popozuda à prova de filosofia nos prestar esclarecimentos na qualidade de grande pensadora é uma interpelação que a convida para um circuito impossível de reconhecimento e, por consequência, ao se converter para fora do circuito, nossa querida Valesca, se converte em abjeto. Paradoxalmente, ela se sai bem; para o desespero de quem busca a determinação. Ciente de sua importância enquanto representante de um segmento historicamente estigmatizado por ser reconhecido como “som de preto e favelado”, Valesca nos responde performativamente como uma cantora comparável àquelas da MPB.

Não sei quais eram as reais intenções da criatura que elaborou a questão, e nem vem ao caso, mas ela deveria estar ciente que “um performativo é eficaz não apenas quando realiza o ato, mas também quando a partir desse ato derivam seus efeitos” (Butler, p. 38). E aí se mostra interessante pensar na distinção, esmiuçada pela autora, entre atos ilocucionários e atos perlocucionários. Os primeiros são compostos pela classe de atos de falas que produzem efeitos, a sentença de um juiz, por exemplo, ou ainda, quando o médico diz “É uma menina”; já os atos perlocucionários, por sua vez, são aqueles cujos enunciados dão lugar a uma série de consequências. Isso não quer dizer que a temporalidade de ambas, linguagem e efeito, sejam a mesma. Em síntese, enquanto o primeiro reverencia as convenções, o segundo assinala às consequências ou às possibilidades de criação.

E olha como a Valesca é genial. Por que aceitamos Caetano Veloso na FUVEST e não aceitaríamos Valesca na Filosofia? É importante ressaltar que a vaga está aberta, para muita gente nunca houve sequer um reconhecido Filósofo tupiniquim. 

A cantora consegue se sobressair porque recoloca a historicidade do nosso racismo colonial e dos privilégios garantidos a heterossexualidade em curto circuito. De fato, muitas pessoas poderiam concordar comigo a respeito do caráter subversivo do funk e de quanto insubordinadas são as letras e a performatividade por ele performadas. Mas poderia soar tentadora a sugestão que Valesca é obediente ao modelo heterocentrado, não me parece o caso.

Por fim, retomar Valesca ao som de Butler, ou vice versa, nos permite lembrar que o reconhecimento é um ato de constituição capaz de trazer o sujeito à existência, mas também, por outro lado, é algo que constitui o sujeito em parte por exclusão, mediante um tipo de censura não oficial ou de restrição primária na linguagem que constitui a própria possibilidade da agência na linguagem. Precisamos imediatamente produzir novos contextos e que permitam afirmar que a porra da buceta é dela ou que persiste o desejo de na hora do amor virar o cu e pedir dedinho, ou ainda, a Valesca e o funk habitarem o mundo e as nossas provas de filosofia.

 

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Felipe André Padilha é Mestrando em Sociologia na UFSCar e Membro do Grupo de Pesquisa