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Racismo e Homofobia no Futebol: sobre macacos, bichas e o caráter performativo da abjeção

Felipe Padilha

                  No dia 28 de agosto de 2014, durante a partida do Campeonato Brasileiro disputada entre Grêmio e Santos, a torcida gaúcha protagonizou um dos casos mais comentados de racismo no futebol entre os ocorridos nesse ano. Embora um dos motes da Copa do Mundo realizada no Brasil tenha sido a luta por um futebol sem racismo, para algumas pessoas ainda parece difícil reconhecer a gravidade das ofensas racistas. Aranha, goleiro do Santos, revoltado com as injúrias proferidas pela torcida rival que o chamava de “macaco” e emitia guinchados com o claro intuito de ofender o atleta, parou a partida e denunciou as agressões.

As emissoras de televisão que transmitiam o evento ao vivo prontamente voltaram suas lentes para a vítima, virando as costas para quem cometia a agressão, muito embora o goleiro insistisse para que as câmeras fossem voltadas às arquibancadas. Nos vídeos disponibilizados na rede é possível ver o jogador repetir por diversas vezes a frase: “filma lá”. Mas sem sucesso. Excepcionalmente, uma câmera descuidada de uma das televisões a cabo que cobriam a partida deixou escapar uma imagem que seria incessantemente repetida. Nela é possível claramente ver uma moça branca, jovem, com cerca de 20 anos esbravejar com todo seu fôlego: M-A-C-A-C-O. Daí para a comoção midiática foi um pulo. Aquele xingamento seria reproduzido milhões de vezes em todas as mídias do país.

Mas vale lembrar que naquela ocasião a jovem mulher estava envolta por uma multidão de homens que freneticamente incitavam e repetiam os mesmos impropérios criminosos. Embora um pequeno grupo de homens também tivesse sido flagrado, pouco foi falado sobre eles, exceto pela ênfase dada ao fato de que entre eles havia um homem negro também racista. A mídia preferiu focalizar suas lentes sobre a performance da moça estendendo aqueles três segundos por mais de três minutos embalados pelas análises que envolviam sempre alguma técnica que favorecesse a leitura labial. Assim, os homens foram deixados intocados e protegidos pela invisibilidade, como uma espécie de endosso social que se refletiu na impunidade daqueles que mais se expressam dessa forma nos estádios de futebol: os homens, em sua maioria, brancos. O culto à masculinidade branca e heterossexual normaliza o racismo, a homofobia e a misoginia na sociedade brasileira, inclusive, entre os apaixonados pela bola, muito embora a maioria de suas estrelas tenha a pele preta.

No dia seguinte, a jovem moça racista estamparia as capas de todos os jornais esportivos e, mais do que isso, ganharia centralidade nos noticiários. Rapidamente a Rede Globo tratou de chamá-la para uma conversa no programa Encontro, apresentado por Fátima Bernardes. A entrevista, além de despolitizar a discussão, visava um encontro entre a agressora e sua vítima. Se negando a protagonizar o espetáculo, mais uma vez, Aranha passou a figurar para essa mídia como alguém rancoroso e, possivelmente, responsável pela propagação ainda maior do discurso do racismo. Pelé, inclusive, vestindo a máscara branca, teria desaprovado a atitude de Aranha, mas nós não. Da posição de vítima, o goleiro passou a ser apresentado como rancoroso e, por isso, também como agressor.

Ora, caberia indagar por quais razões a mídia brasileira, em especial as grandes emissoras de televisão, expõem as vítimas em vez de expor seus agressores? A jovem racista que foi flagrada pelas câmeras alegou que teve sua vida destruída, sua casa atacada, perdeu o emprego e que pretendia mudar de bairro. Mas, porque ninguém se questionou publicamente sobre como vivem aquelas pessoas que, enxotadas do espaço da humanidade, não possuem sequer condições de mudar-se para longe de quem as agride.

Tal como ocorreu com Aranha, semanas depois, no dia 09 de setembro, um novo episódio de racismo no futebol. Dessa vez, o também goleiro Igor, do Operário-MT, denunciou o racismo sofrido durante o jogo contra o Tombense-MG, pela série D. Protagonizado em Minas Gerais o episódio ocupou pouco destaque nos noticiários. Ao entrar em campo, o goleiro Igor diz ter ouvido a torcida mineira ironizando e chamando-o de “Aranha” e “Negão” e os insultos foram progressivamente se agravando. O goleiro, de 28 anos, reagiu ao ouvir, pela terceira vez, alguém gritar “macaco”. Embora o jogador tenha relatado as ofensas ao árbitro da partida, Antônio Carvalho Schneider, nenhuma providência foi tomada. Revoltado, Igor chutou a bola em direção à arquibancada e acabou expulso do jogo.

A imagem não é neutra. Ao contrário, poderíamos sugerir que ela revela seu poder ao recolocar a questão racial no centro do debate incitando e formando a própria raça. Pedir que Aranha se encontrasse com sua agressora mais uma vez frente às câmeras que amortizaram sua agressão, no final das contas, apenas (re)posionaria a sua negrura como subalterna diante de uma moral branca, hegemônica e convincente.

Outro exemplo que poderia ser citado envolve a soçobrada campanha encabeçada por Neymar e Luciano Hulk, em consonância com um grande projeto publicitário, no lamentável episódio de racismo vivido por Daniel Alves no jogo do Barcelona, em abril desse ano. Nessa ocasião, um torcedor arremessou uma banana em campo e Daniel comeu a fruta em frente às câmeras e acabou prontamente capturado pelo marketing, embora a contragosto. A campanha “somos todos macacos”, talvez propositadamente, apontasse para o caráter animal incipiente à espécie obscurecendo o fato de que nem todos somos humanos.

Alguns ingredientes em comum perpassam todos esses casos: em primeiro lugar, o fato de que ser negro ainda pode ser deslocado como uma ofensa e, embora a lei anti-racismo coíba severamente esses atos, vigora o pacto de perjúrio feito pela imprensa em torno da questão; em segundo lugar, ainda cabe explorar quais significados são encasulado na figura do “macaco”; por fim, cabe refletir quais razões impedem um tratamento jurídico análogo ao do racismo para alcançarmos a criminalização da homotransfobia.

Na noite desta quinta-feira, dia 19 de setembro, houve um novo encontro entre Grêmio e Santos em campo. Dessa vez, impedidos de proferir ofensas racistas graças à ampla e negativa visibilidade que a mídia dera ao episódio anterior, a tática empregada pela torcida gremista não pôde ser considerada criminosa. Aranha, dessa vez, disputou a partida em meio aos berros de centenas de torcedores que em uníssono repetiam: “Aranha, viado; Aranha, viado”.

Mais uma vez, como era de se esperar, a mídia deu visibilidade à vítima, deixando impunes seus agressores. Se por um lado, o “macaco” desperta noções como o aspecto atrasado e/ou primitivo atribuídos aos povos negros pelos colonizadores europeus e sua suposta ciência; por outro lado, o termo “viado” aponta para o avanço desse processo. O “viado” traz em si as marcas de uma sociedade que considerava, até pouco tempo, a homossexualidade como degeneração, como um desvio moral, daí o sentido do (des)viado. Além disso, a duplicidade ambígua contida no termo, poderia também remeter ao veado como um animal delicado e saltitante, isso talvez explique sua analogia com o termo “gazela”.

O “macaco” e o “viado” são termos cujo significado foi forjado no interior de uma sociedade marcada pela obsessão classificatória que tinha como objetivo separar as pessoas consideradas normais daquelas tidas como anormais e, portanto, menos capacitadas. O “macaco” representa o atraso da humanidade, enquanto o “viado” é o ícone do aspecto degenerado dos desviantes. Não atentar ao deslocamento semântico que força o uso de um termo ou outro seria incorrer no mesmo erro dos veículos de comunicação da grande mídia brasileira, deixando de lado o caráter político suscitado por essas ocasiões.

O protagonismo visual conferido às vítimas, por outro lado, não é apenas exclusividade dos grandes veículos de comunicação. Talvez como um efeito dessa pedagogia da notícia, nas redes sociais, temos cada vez mais percebido algo parecido. Pouco se falou sobre o assassino de João, o jovem gay que teve sua vida violentamente ceifada por um outro rapaz que, sequer, teve seus dados divulgados. Em compensação, nas redes sociais as fotos da vítima estraçalhada foram compartilhadas milhares de vezes. Algo análogo se passou com as crianças mortas na Síria, pouco foi falado sobre a conjuntura política do país alimentando à expectativa de que as imagens falassem por si mesmas. As imagens não falam por si, principalmente quando estampam as vítimas deixando de lado seus agressores e o debate político que envolve o caráter público dessas discussões.

Além da violência dupla conjuminada pela falta de respeito à vida e às famílias delas, expor tais imagens em redes sociais tem pouco ou quase nenhum valor. A imagem repetida incessantemente milhares de vezes pode ser entendida como um performativo, nos termos da teórica queer Judith Butler, ou seja, como um conjunto de atos estilizados e repetidos no espaço e no tempo cujo poder emana de um quadro que regula repetições mais ou menos legítimas. A imagem de Aranha, através dos poderosos mecanismos de repetição da mídia, se converteu no performativo que serviu de ataque ao goleiro Igor, daí chama-lo de “Aranha”. De modo análogo, a morte do jovem João serviu também performativamente para ensejar o desejo de eliminação que a torcida gremista nutriu por Aranha.

O desejo de eliminação anda pari-passo com o sentimento de abjeção. Daniel Alves, eloquentemente, conseguiu romper o performativo dentro do qual foi interpelado, mas, infelizmente, não teve o mesmo sucesso com as agências de publicidade. Aranha rompeu por mais de uma vez: a primeira foi quando não aceitou calado as injúrias que lhe foram impostas e, a segunda, quando se negou a pactuar com o espetáculo midiático preparado para o seu encontro com a torcedora racista. Já João, como tantos outros homossexuais, travestis e transexuais, não teve a mesma sorte. O corpo do rapaz, encontrado estraçalhado em um terreno baldio, tinha na boca um papel com os dizeres: “Vamos acabar com essa raça”. Mais uma vez, em um país em que a negrura é representada como feia, motivo de vergonha e digna de abjeção, torna-se difícil responder sobre quais são os limites seguros que informam a racialização do sexo e a sexualização da raça.

Por fim, é possível supor que Aranha não tenha se reconhecido na interpelação ofensiva do “viado”, uma vez que é heterossexual, mas, com isso, podemos ter dimensão do quão sofrível pode ser um circuito de reconhecimento que o condena, pois, quando foi chamado de “macaco”, o goleiro não resistiu e chorou.

 

Felipe Padilha é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar e membro do Quereres- Núcleo de Pesquisa em Diferenças, Gênero e Sexualidade.