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A guerra simbólica no Brasil contemporâneo: entre o “golpe” e as “narrativas”

 Fernando de Figueiredo Balieiro*

            Stuart Hall, sociólogo jamaicano-inglês, afirma que as lutas pelo poder no mundo contemporâneo se tornaram “crescentemente, simbólicas e discursivas, ao invés de tornar, simplesmente, uma forma física e compulsiva, e que as próprias políticas assumam progressivamente a feição de uma ‘política cultural’” (HALL, 1997, p. 20). Tal insight nos leva a pensar o cenário político brasileiro levando em conta não apenas os aspectos eleitorais, as estratégias partidárias e as dinâmicas institucionais em si. Ao lado e imbricado com esses aspectos, é possível repensar a importância das operações simbólicas, ou seja, avaliar as formas como os atores políticos, os partidos e os processos políticos e eleitorais são enquadrados dentro de determinadas perspectivas em disputa, considerando especialmente o a centralidade do espaço persuasivo das mídias, sua presença televisiva e nas redes digitais, em suas convergências e especificidades.

Disputas políticas não se medem apenas pelos resultados das urnas, mas elas podem revelar aspectos cruciais de como os eleitores dão sentido aos processos políticos, como percebem os partidos e seus candidatos. Como publicado em matéria da Carta Capital (03/10), o Partido dos Trabalhadores perdeu 60% das prefeituras em 4 anos. A crise do partido chega a seu ápice após o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Dentre as explicações que sucederam, a mais recorrente atribui o fracasso eleitoral ao efeito da “Operação Lava-Jato”, na qual vários dos membros do partido estão envolvidos. Tal explicação não leva em conta que tão enredado quanto o PT nos esquemas de corrupção investigados estão outros partidos, como o PMDB, PP, além do PSDB que teve muitos de seus quadros citados em delações. Quando se verifica que esses partidos não sofreram os mesmos abalos nas últimas eleições municipais, a análise do resultado das eleições exige outras explicações que, dentre questões contextuais, passam pela guerra simbólica que permeia as disputas políticas no Brasil contemporâneo.

Para além da disputa eleitoral, as disputas simbólicas ficam mais evidentes e radicalizadas quando se observa o abalo ou as rupturas institucionais, especialmente quando estas se dão de forma não consensual. Nesses casos, as disputas tomam centralidade na esfera das ideias, dos sentidos, da linguagem, da cultura. O que está a ocorrer? Dar nome às situações torna-se fundamental: vivenciamos um impeachment que respeita o que está previsto constitucionalmente ou um “golpe” de Estado em novo formato? Categorizar é tentar fixar um sentido a uma realidade complexa e dinâmica, mas como fazer isso quando há atores que divergem em pontos fundamentais?

Não há dúvidas de que os fatos políticos recentes, do ano de 2016 configuram um momento de ruptura em relação à Nova República estabelecida em 1988.Tal ruptura é perceptível pelo esgotamento de certas forças políticas e desgaste das democracia representativa, mas pode ser acessada e avaliada a partir das novas interpretações que vieram a tona. O novo período de turbulência, como era de se esperar, trouxe consigo disputas de sentido sobre a realidade e, com ela, “novas” palavras. A palavra “narrativa” é uma das novidades que passa a tomar conta dos programas televisivos, palavra que parecia longe do público e do jornalismo até então, embora seja familiar àqueles que lidam com as teorizações da realidade, com as aproximações entre os fatos e os conceitos, com o concreto, sempre opaco e escorregadio às palavras e as representações que buscam disciplinar aquilo que é por excelência fugidio. As narrativas são formas de dar inteligibilidade, organizando os fatos, dotando-lhes de coerência. Falar em narrativas é expressar que o real não é acessível em si, não é transparente, mas é captável a partir do exercício do pensamento e, portanto, está sempre sob seu comando, e sob determinada perspectiva.

Poderia se pensar que a introdução do termo narrativa estaria qualificando a discussão pública ao explicitar que sob qualquer fato existe sempre uma perspectiva e que, portanto, deveríamos estar sempre atentos e críticos a quaisquer descrições dos fatos, pois elas carregam interpretações, na maior parte das vezes interessadas. Mas não parece que esse seja realmente o caso. A ideia de narrativa apareceu no nosso debate contemporâneo, dentro de determinada corporação midiática, vinculada a uma interpretação que pretende ocultar a sua própria perspectiva, apresentando-se como representante da apreensão literal dos fatos. As narrativas, nesse caso, são as dos outros, aqueles que se afastam da “realidade tal como ela é”. Isso se torna claro se lembrarmos que não ouvimos, no debate midiático, falar de narrativas em disputa, mas de uma narrativa: a “narrativa do golpe”.

Novos eventos não apenas suscitam novas palavras, muitas vezes eles também trazem termos de outras épocas que são atualizados, demonstrando recorrências na história. “Golpe” é outra palavra que tomou centralidade no debate político atual, um termo que pretende inserir os novos acontecimentos que, embora não sejam iguais a outros acontecimentos históricos, em recorrências que marcam o país com experiências de ruptura democrática. Trata-se de uma narrativa, sem dúvidas, que pretende interpretar algo novo em suas distâncias e proximidades com a história política brasileira. Ao lado disso, não deixa de ser uma narrativa utilizada por atores políticos para fazer valer sua leitura de um determinado processo.

Comentaristas políticos e jornalistas televisivos falam da “narrativa do golpe” como um produto da estratégia petista de sobrevivência pós-impeachment, argutamente construindo assim a sua própria narrativa, mas como se essa fosse “a” baseada nos fatos. O sentido de “narrativa” aqui toma outro significado: ela deixa de ser o procedimento usual e necessário de dar ordem à realidade e se torna uma construção forçada e distante da realidade, em oposição a um jornalismo realista, cristalino e factual. A “narrativa do golpe” é assim vista como uma perspectiva interessada, distante da fidedignidade dos fatos que, por sua vez, seria privilégio do jornalismo pretensamente neutro e desinteressado. Alguns colunistas de revistas e/ou jornais reiteram tais argumentos ainda incorporando a figura do analista iluminado, acima das paixões sociais. Com o espaço e repercussão que lhes são destinados, buscam e, para muitos conseguem, aparecer como representantes da verdade e do bom senso. Consolida-se assim uma narrativa hegemônica midiática que se apresenta como não narrativa, leitura não enviesada, não interessada, para além das disputas mesquinhas pelo poder ou pela própria sobrevivência política de determinados atores políticos.

As narrativas se cristalizam não apenas a partir da veiculação de “fatos e suas versões” pelos programas televisivos, permeados por jornalistas e seletos comentaristas políticos, mas elas também são construídas a partir de instituições legitimadas pela sociedade que, em suas ações, produzem significados. Os procuradores do Ministério Público Federal, membros da força-tarefa da Lava-Jato, quando acusaram Lula da forma enfática como fizeram, associando a aquisição de um apartamento e um sítio com o comando de uma operação gigantesca de corrupção, não estavam mirando apenas um processo jurídico que visasse investigar o ex-presidente, mas buscavam cristalizar a associação, em nível simbólico, entre o expressivo líder político com o suposto “maior escândalo de corrupção” do país. Nesses e outros casos, as hipérboles cumprem suas funções específicas, a disputa simbólica visa registrar certas concepções como verdadeiras, ao mesmo tempo em que desqualifica atores e projetos políticos.

O timing coeso da operação judicial-midiática permitia, além de interferir em fatos políticos, aprofundar certos sentidos, como se percebe nas acusações a quem já fez parte dos quadros do PT e suas prisões preventivas às vésperas das eleições, cristalizando a imagem de um partido como símbolo da corrupção. Tais fatos ganham mais força simbólica quando são reproduzidos de forma espetacular em jornais televisivos que garantem, muitas vezes, edições quase inteiramente focadas em conduções coercitivas, de membros representativos do partido, incluindo seu principal líder. As práticas heterodoxas levadas a cabo pela instituição da justiça andam lado a lado de sua veiculação midiática. De um lado uma instituição supostamente ilibada e neutra, de outro lado a convicção da reprodução literal dos fatos, produzindo assim a representação de uma verdade inquestionável. Observa-se que em nenhum momento a seletividade da operação, que se centrou quase que exclusivamente a membros de um só partido, foi questionada ou mencionada, a não ser como uma posição interessada da “narrativa do golpe”.

Não obstante a persuasão de tais elementos, tal narrativa que combinou operações da Lava-Jato com sua veiculação midiática não se efetivou sem dissidências e oposições. Como um evento marcante em todo o processo do impeachment, Dilma Rousseff foi ao Congresso Nacional se defender, sabendo que seu impedimento já estava de antemão decretado. A presidenta, que por todo o seu mandato se esquivou da disputa simbólica, percebeu tardiamente a importância da discussão das ideias, do perigo em fazer prevalecer uma interpretação unilateral sobre os fatos. Em seguida e até os dias de hoje, manifestações são organizadas pelo país denunciando a seletividade da Operação Lava-Jato e as implicações da mídia, em suas várias emissoras que atuaram de forma coesa, no processo do impeachment. Posicionar-se contra o “golpe”, nacional e internacionalmente, não necessariamente corresponderia à crença de que seria possível mudar o que já foi feito, o que estava e está em questão é como ficará registrado o impeachment: como legítimo ou ilegítimo?

De fato, o debate sobre o impeachment é uma disputa de narrativas, disputa desigual pois algumas narrativas são mais potentes do que outras, não pela força do argumento, mas pela sua capacidade de veiculação. Desigual não significa onipotente, o que pode ser verificado na própria força do discurso contrário ao impeachment, questionando sua fundamentação legal, os procedimentos políticos e institucionais que o tornaram possível e os atores e projetos políticos envolvidos. A grande questão política passou a ser como ganhar essa acirrada disputa simbólica, de forma a desqualificar os discursos que se opõem à narrativa dominante.

Para além da interrupção de um mandato presidencial, o golpe da narrativa midiática se faz concreto quando levou a crer que toda e qualquer oposição ao impeachment seja um discurso distorcido. Trata-se de uma demarcação maniqueísta entre um discurso como transparente, literal, desinteressado e honesto e, de outro lado, um discurso falso, interessado e a serviço da sobrevivência de um partido corrupto. Não interessa se a desconfiança com o processo que levou ao impeachment seja bem mais ampla do que a expressão da ideia de um único partido e seus aliados e encontre repercussão e aceitação até no exterior. Em uma influente emissora, um comentarista político, de credibilidade duvidosa, argumentou que o fato da saída de várias delegações no momento do discurso de Michel Temer na Conferência da ONU seria expressão da afinidade “bolivariana” desses países. Até mesmo a Costa Rica seria bolivariana?

A tese de que todos os que entendem o que ocorreu no Brasil foi “golpe” estão a defender um “projeto do poder” petista, a tese de que todas as esquerdas da América Latina são “bolivarianas”, a tese de que a corrupção no país começou, ou se consolidou em bases qualitativamente distintas nos governos Lula e Dilma, todas essas teses fazem parte de uma narrativa que tem se hegemonizado no país. Trata-se de uma narrativa veiculada diariamente pelas grandes corporações midiáticas no país, encontrando também expressão em blogs de análise política e, de forma mais enfática e raivosa, nos comentários em redes sociais, quando o maniqueísmo se torna ainda mais radical. A heterogeneidade da esquerda e do campo democrático contra o “golpe”, as diferenças históricas entre Brasil e Venezuela, especialmente no que toca à independência das instituições judiciais e da liberdade dos grupos oligárquicos da mídia, as continuidades dos casos de corrupção que antecedem os governos de Lula e de Dilma, todos são fatos que escapam à narrativa da mídia.

Há posicionamentos contrários à narrativa hegemônica, mas há limites claros ao debate mais aprofundado, decorrentes da oligopolização dos meios de comunicação no país, obstáculo à democracia. A dissidência somente alcança expressão dentro de espaços discursivos restritos e para públicos afinados, leia-se públicos críticos e versados em outras fontes de informação. Ainda que tais meios sejam também, em boa parte, condescendentes com os erros dos governos petistas, dentre eles a incapacidade de revisão de políticas equivocadas e falta de comunicação clara e de coerência e coordenação do governo e seus aliados, o envolvimento e reprodução de práticas institucionalizadas de corrupção, dentre outros. Não há dúvidas de que surgiram também posições duramente críticas aos governos petistas e que, ao mesmo tempo, não aceitam o processo de ruptura democrática, legitimado pelos veículos de comunicação.

De qualquer forma, o golpe da narrativa midiática transforma, no limite, todos aqueles a que se opõem ora em “bolivarianos”, ora em ingênuos e reféns ao discurso de um partido corrupto, ou então naqueles que não se curvam à realidade dos fatos. O seu “golpe” é fazer isso recusando o lugar do dissenso, atribuindo à divergência um estatuto subalterno, seja questionando a honestidade daqueles que provocam a dissonância à sua narrativa, seja imputando a eles o caráter de cegos à realidade ou incapazes de compreendê-la. Espera-se da mídia, em uma sociedade democrática, que crie espaço para narrativas distintas, qualificando-as como válidas para o debate. O que se faz aqui é o contrário, invalidando uma certa posição e, no limite, transformando-a em algo execrável ao debate público, desqualificando atores e projetos políticos e influenciando os discursos de ódio. Uma guerra simbólica não visa apenas fazer valer uma certa visão das coisas, mas por meios discursivos tentar destruir a possibilidade de existência de seus adversários.

A guerra simbólica deixou suas marcas bem definidas nas últimas eleições, seus resultados foram o aumento significativo da rejeição à política, a desqualificação de um partido político de esquerda que viabilizou políticas democratizantes importantes para o país e, para completar, a consolidação de um expressivo setor de direita intolerante. Tal marca não se sente só nas urnas, mas no dia-a-dia, quando se tem medo de expressar suas convicções políticas, correndo o risco de ser associado a práticas de corrupção ou, no limite, ser agredido verbal ou fisicamente. A guerra simbólica propiciou a desvalorização do diálogo e a incitação à violência, prova disso são as cenas do debate eleitoral do Rio de Janeiro, quando pai e filho representantes do que há de mais intolerante na política do país, transformados por certos setores em “mitos”, ameaçam agredir fisicamente adversários nos intervalos do debate. Jornalistas e comentaristas políticos afins à mídia hegemônica parecem não conseguir esconder o entusiasmo dos resultados das eleições, mas será que percebem o que estão plantando?

 

Fernando de Figueiredo Balieiro é Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria e pesquisador do Quereres – Núcleo de Pesquisa em Diferenças, Gênero e Sexualidade

 

 

Referências

 

HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 22, n. 2, p. 15-46, jul./dez. 1997.