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Akira Kurosawa

Por Hadija Chalupe da Silva




Akira Kurosawa

"O Luminoso", nascido em 1910, morre aos 88 anos e deixa uma vasta filmografia de 32 filmes. Foi pintor, ilustrador de revistas, publicitário e assistente de direção antes de se tornar cineasta.
É o cineasta japonês mais conhecido no Ocidente, fato que lhe causou alguns problemas, pois muitos japoneses o achavam "ocidentalizado" demais e em contra partida foi quem ajudo a popularizar o cinema em seu país.
Inicialmente Kurosawa trabalha com filmes de Dramas Realistas Contemporâneos, (o Japão estava vivendo no pós-guerra) onde ele evoca o Neo-realismo Italiano; primeiro longa (1943), Sugata Sangiro e A mais Bela (1944).
O apogeu de sua carreira se dá em sua fase Jidaigeri (filmes históricos samurais): Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre (1945), Rashomon (1950) onde recebe o Leão de Ouro no festival de Veneza, Os sete Samurais (1954), Trono Manchado de Sangue (1957), esta fase vai até Barba ruiva (1965), depois deste filme Kurosawa passa por uma fase crítica, sem financiamento e com filmes de pouca repercussão. Irá se reerguer em 1975 com Dersu Usala, em co-produção com a União soviética, onde recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Depois foi apoiado por cineastas norte-americanos como: Francis Forda Coppola, Scorcese, George Lucas, obteve recursos para criar novas obras-primas.
Kurosawa transcendeu a gêneros, períodos e nacionalidades, mas nunca deixou em segundo plano sua própria cultura, isso é percebido na movimentação dos atores, em sua obsessão por cenários autênticos e as influências dos teatros Nô e Kabuki.
Uma das características mais associadas ao perfil de Kurosawa é o de ser perfeccionista e minucioso.
Seu perfeccionismo estava ligado justamente ao fato de o cineasta participar de praticamente todas as etapas do processo de realização de um filme. Ele não apenas dirigia, mas também escrevia os roteiros, desenhava os personagens e as cenas de batalha, ele sempre manteve o hábito de fazer desenhos coloridos das cenas dos seus filmes, que terminavam servindo como storyboard na rodagem, ajudava na fotografia e no posicionamento da câmera e fazia o corte final de suas junto com o montador.
Junto ao caráter minucioso e detalhista no processo de filmagem e ao pragmatismo, objetivo do cineasta no trabalho de edição, outra característica marcante de sua persistência.
"A essência de sua obra está sustentado no tema da vida"1
Márcio Alvarenga está dizendo que Kurosawa o que importa é a exposição dos conflitos psicológicos. Ele estuda longamente o ator, preparando-o para que deixe de ser simplesmente um tipo e faz com o ator penetrar na personagem e transcenda seu próprio Eu interpretativo, que interprete toda sua verdade humana.
Esse sentido humano se reforça na tese de que "se você trabalha com homens deve saber formá-los, só assim será possível utilizar seus recursos"2.
A linguagem cinematográfica de Akira está profundamente interligada ao sentimento humano. Para ele o homem não nascia com direitos sobre o mundo. Para ele nada estava adquirido. Pelo contrário o homem devia olhar de frente o pior do que a humanidade foi e sempre será capaz. Em seus filmes o componente reflexivo, sempre estará presente, que se traduz em mensagens adequadas ao nosso cotidiano, focalizando um homem frente as escolhas éticas e morais.
Clássico na forma e romântico na essência, Akira Kurosawa foi um cineasta eclético, passando dos dramas históricos samurais às adaptações da literatura ou a crítica da sociedade contemporânea, em que o protagonista invariavelmente prefere a honra a qualquer outro valor (como em Os Sete Samurais) sem que isso significasse a ausência de uma constante temática. Todos os meus filmes têm um tema em comum: por que os homens não podem ser mais felizes juntos?
Sua obra densa onde se fundem a alma japonesa e os valores universais, o ideal humanista está subordinado à beleza que jorra em imagens esplendias criadas com notável, senso plástico, eximia e espantosamente simples misan-séne, noção rigorosa de montagem.

COR - A plasticidade do filme
No cinema a cor nos possibilita uma interpretação poética interligada a imagem a ao som. O processo de comunicação, via cor, tem um efeito premonitório, que contribui para a valorização do clima que o diretor deseja transpassar para o público e o cinema de Kurosawa é um dos maiores representantes, pois a cor e não a forma que determinava o conteúdo expressivo de seus filmes.
Para ele a objetividade era o requisito mais importante no trabalho de edição:
Não importa quanta dificuldade você encontre para obter determinada tomada, o espectador jamais entenderá isso. Se não for interessante, simplesmente não será interessante. Você pode ter-se tomado de grande entusiasmo ao filmar determinada tomada, mas se esse entusiasmo não é transmitido na tela, você deve ser pragmático o suficiente para cortá-la.3
As cores têm uma realidade sensorial, uma marcante atuação na emotividade humana. No conto Demônio Chorão, do filme Sonhos de Akira Kurosawa, o ambiente é todo sombrio, com predominância dos tons de cinza, pois não há mais luz no planeta esse conto apresenta para o espectador os horrores de uma mundo pós-apocalíptico em conseqüência da bomba atômica e em Povoado de Moinhos, também do filme Sonhos, a seqüência final é de um funeral de uma senhora de 100 anos, ninguém chora por sua morte, a contrário todos estão cantando e dançando, suas roupas são colorias e nas mãos há fitas e flores, expressando vida e alegria.
"Em vez de tentar reproduzir exatamente o que eu tenho diante dos olhos, eu uso, a cor mais arbitrariamente, de forma a expressar-me vigorosamente"4
Um dos pintores que influenciou os filmes de Kurosawa foi o holandês Vincent van Gogh, admiração que resulta em mais um conto do filme Sonhos, Os Corvos, onde o alter-ego do diretor está visitando um museu, ela transporta-se e aparece caminhando pelos quadros de van Gogh e o encontra pintando, tenta conversar com ele, mas van Gogh diz que não tem tempo e sai para pintar.
Além de a cor tentar expressar as terríveis as terríveis paixões da humanidade ela da a possibilidade da sensação de movimento, uma dinâmica que envolve e se torna compulsiva.

Rashomon (1954) - A pluralidade do ser humano
Três homens que durante uma temporal, se abrigam sob um local em ruínas e conversam sobre a história de um duplo crime: ao passarem por uma floresta, a noiva de um samurai tem relações sexuais com um bandido e o samurai morre em circunstâncias não claras. Não se sabe se ela foi estuprada ou consentiu com o ato. Se ele havia sido assassinado ou se suicidado por causa da desonra. O fato é reconstituído quatro vezes, de acordo com o ponto de vista de quem a estava contando (noiva, ladrão, espírito do samurai e um lenhador).
A relatividade da verdade e a inútil tentativa do ser humano de buscar a verdade, é a base de Rashomon, estruturado em forma de flaschbacks foi a forma com que Kurosawa mostrou os vários pontos de vista da narrativa. Foi também a primeira vez que uma câmera filmou o sol diretamente.
Outro ponto importante é a fotografia, onde foi aproveitada a luz natural para realçar os vários caminhos da floresta, como que refletindo os vários caminhos da história, e a caracterização das personagens partindo do exterior para o interior delas, ou seja, o meio interferindo no ser humano.
Com Rashomon, Akira foi premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza.


Sonhos (1990)
Um filme que investiga, em oito episódios, alguns dos fantasmas do inconsciente humano. Expressa de forma poética as imagens e fantasias que as pessoas constroem dentro de si.
Ele fala ao olhar e ao coração, como um grito de alerta ao homem para não destruir seu planeta. Há as grandes causas pelas quais se tenta apelar: o amor, a natureza, o entendimento entre as pessoas, os riscos da guerra nuclear e a lição e a experiências de quem sabe ver o mundo com o olhar simples de um centenário aldeão.
É através de Sonhos que a preocupação do diretor com a plasticidade pode ser representada.
"Decupagem" de cenas selecionadas do filme Sonhos.
Pomar de Pessegueiros
Seqüência em que o Imperador japonês e seus súditos começam a dançar para o menino.
Esta seqüência é acompanhada por uma música tradicionalmente japonesa, ao som de sopros bem agudos, em alguns momentos aparece a percussão e há também um instrumento que lembra o som de bambu.
Eles estão dispostos em um morro que parece uma grande escada, uma escada com quatro degraus, esses degraus representam a hierarquia do império japonês, essas pessoas que estão dançando para o menino são os espíritos das árvores de pessegueiro que foram cortadas. Seus trajes são típicos dos grandes impérios japoneses, com aquela maquiagem branca no rosto, roupas suntuosas e muitos acessórios (a roupa e os acessórios estão de acordo com o papel da pessoa nessa hierarquia). O menino de mais ou menos 12 anos que os está vendo a dança está vestindo um kimono azul.
Eles estão dançando para o menino, essa dança representa o florescimento das árvores de pêssego (no caso o último florescimento), seus movimentos são lentos e leves, no ritmo da música.
Em um dado momento começa a chover pétalas da flor de pêssego. Tudo é muito colorido com o predomínio das cores verde, vermelha e branca.
Começa a ser alternado planos das pessoas dançando, com planos das árvores de pessegueiro floridas (flores rosas, mas a árvore não tem folhas). Até que todo o campo onde estão as pessoas é substituído por pessegueiros. A música de fundo muda, passa a ser uma música clássica ocidental, ao som de órgão, num tom bem alegre.
O menino está com uma expressão de admiração perante aquele campo todo florido. Essa cena mostra a alegria do menino em ver o último florescimento dos pessegueiros, e é representada pelo tom da música e pelas cores que compõe a cena.

Os Corvos
O Alter-ego de Kurosawa está procurando van Gogh, começa a caminhar sobre seus quadros, os dois primeiros são desenhos, sendo que o primeiro é desenhado dó em marrom, o desenho é composto pelo conjunto de linhas, pontos e traços que vão formando paisagens de casas, ruas, árvores; o segundo é um desenho só em azul, do terceiro desenho para frente já são os quadros de sua fase pós-impressionista, onde o amarelo, o azul e o verde são as cores predominantes, é possível perceber a textura da tinta, a direção, camadas e intensidade das pinceladas, você tem a impressão que Eu vai atolar o pé nas tintas e vai manchar o quadro.
Toda a seqüência é acompanhada com som forte de piano, uma melodia quase que predominantemente com uma nota só, música forte, grave em alguns momentos esse clima tenso é quebrado por uma nota mais grave ainda.

Monte Fugi em chamas
Houve a explosão de três usinas nucleares e só restaram cinco pessoas, uma mãe com duas crianças e, mais dois homens. Eles estão na beira de um penhasco que de um lado há o nada (chão coberto pelas coisas das pessoas que desapareceram) e do outro lado o mar.
Neste momento começa a aparecer fumaças coloridas, são as fumaças da radiação que causão câncer, mutação e morte. Nessa cena há uma contradição muito forte, entre as cores da fumaça (vermelha, verde, azul) que normalmente significam alegria com o seu real significado que é a chegada da radiação, a beleza associada ao caos, a imprudência do homem.
Rapsódia em Agosto (1991)
Neste filme o diretor nos convida e pensar, refletir, sobre os horrores da bomba, segundo as lembranças de uma senhora, vítima da bomba atômica. Neste filme Kurosawa transforma o horror em poesia, apresentando a bomba atômica de uma forma poética.
"Decupagem"
Seqüência em que a avó conta aos seus netos como ela viu a bomba.
Ela está de frente para as montanhas que logo atrás está Nagasaki, ela está descrevendo para seus netos como foi que ela e seu irmão viram a bomba. As crianças olham fixamente em direção as montanhas, a avó continua a falar e sua expressão é de espanto e desespero, como se ela estivesse vivendo aquele momento novamente.
Ela descreve a fumaça da bomba, como um grande olho "um grande olho que olhou ferozmente para nós dois" . Ela diz que seu irmão ficou possuído por aquele olhar e "não conseguia ver mais nada" e passou a fazer desenho de olhos, pelo resto da vida. Ela também não consegue esquecer aquele olhar, quando ela diz isso o plano muda para uma visão subjetiva da avó, que vê a explosão novamente, entre as duas montanhas o céu fica vermelho (o vermelho do céu e da bomba representa a intensidade da ferocidade da bomba), sob aquela fumaça formando o cogumelo da bomba quando inesperadamente aparece um olho entre as montanhas, esse olho é uma metáfora da bomba, é o olho do mundo, o olho de Deus, do Universo, vendo a atrocidade que o homem acaba de cometer. O próximo plano é a avó voltando em direção a casa, aterrorizada com o fato que acaba de vivenciar novamente. Em toda a seqüência as crianças ficam em silêncio olhando na mesma direção da avó, para ver se conseguiam enxergar o mesmo que sua avó, mas não conseguiam. Quando a avó volta para a casa as crianças continuam olhando em direção as montanhas, ainda tentando enxergar e sentir o que a avó lhes acaba de descrever.


Madadayo (1993)
É a história de um mestre universitário Hyakken Ushida e sua relação com seus ex-alunos.
"Decupagem"
Seqüência do mestre com sua esposa em sua casa. Esta seqüência é uma elipse temporal marcada por planos que representam as estações do ano.
Os quatro planos não têm diálogo nenhum, ao fundo uma trilha sonora ao som de violinos e sopro.
O primeiro plano representa o outono. O mestre está escrevendo dentro da cabana (eles perderam sua casa num bombardeio aéreo e a única casa que conseguiu alugar foi uma cabana de um jardineiro), ele está escrevendo um livro e sua mulher está varrendo as folhas que estão em volta da casa. O ambiente é de total tranqüilidade apesar deles estarem no meio da segunda guerra mundial. A fotografia deste plano tem um tom amarelo (outono), as folhas das árvores são amarelas e cobre, o chão e o telhado estão cobertos por estas folhas, os raios solares ao baterem nas folhas que estão no chão refletem essa luz alaranjada, típica do outono de países onde as estações são bem definidas.
Inverno: os dois estão dentro da cabana para se proteger do frio, estão sentados na perto da porta vendo a neve cair. A paisagem está toda branca por causa, não há nenhuma folha nas árvores, e seus troncos estão bem escuros. O branco da neve contrasta com a escuridão dos troncos das árvores e da madeira da cabana. Ele está de preto e sua esposa de branco, cores contrastantes e que se complementam, jogo de claro/escuro. A paisagem por causa dessas cores predominantes dá a impressão de uma foto preto e branco, ambiente escuro, mas onde tem neve a luz está levemente estourada.
As árvores já floresceram (terceiro plano - primavera). O ambiente está mais iluminado. Eles estão sentados um do lado do outro na porta da cabana. Do lado esquerdo há uma árvore com flores brancas e à direita uma árvore de flores vermelhas, (elas não têm folhas).Em frente à cabana estão os destroços das casas bombardeadas o que resulta no contraste do colorido das flores (alegria) com o cinza dos destroços (guerra). Eles estão conversando, mas nós não sabemos o que estão falando, ele fuma um charuto e parecem estar felizes com a chegada da primavera.

O último plano é o verão, ele está sentado à porta esperando ela terminar de limpar seu sapato (ele vai sair, vai encontrar com seus ex-alunos para comemoração de seu 61º aniversário). As árvores já estão com folhas, o ambiente já está mais claro, e verde novamente (esperança). Ele se levanta da porta olha para o relógio de bolso, se despede de sua esposa, que fica vendo-o ir ao seu encontro.

Conclusão
O mais tocante da obra se Kurosawa está na grandeza de sentimentos.
Em seus últimos filmes (Sonhos, Rapsódia em Agosto e Madadayo), são pinceladas intimistas sobre o tempo, a morte e a velhice. Perguntaram uma vez a ele sobre "o que faria se tivesse o poder de influenciar a sociedade e mudá-la" e ele disse:
Daria o melhor de mim para aproveitar minhas habilidades como artista. Eu me sinto responsável, verdadeiro e honesto para com minha profissão e estou consciente disso. Eu estou primeiro lidando com a sociedade japonesa e tentando ser cândido ao lidar com nossos problemas. Eu espero que você entenda isso sobre mim quando vir o filme. Como um contador de histórias, não tenho segredos.5
E faz com que seu cinema encontre aí a sua razão de ser, para ele um filme não existia por si só, por jogo ou prazer, um filme devia também ao mundo, como um reparo a dívida e abater o déficit que temos com o mundo, sendo menos divertido, mas também essencial.