anterior proxima home
Guerra nas Estrelas

O mito da sociedade moderna

Por Daniela Cacuso Bellarde dos Santos




O Homem e o Mito
Desde os tempos antigos, a mitologia está presente na vida do homem. Os gregos já possuíam uma mitologia riquíssima em termos de história e personagens: Hércules, O Minotauro, Os deuses do Olimpo são exemplos dessas lendas que já foram contadas ao redor do mundo inúmeras vezes, inclusive através do cinema.
O psicólogo e escritor Joseph Campbell (1904-1987) realizou um estudo detalhado sobre a presença da mitologia no universo humano e chegou a interessantes conclusões: Segundo Campbell1, todas as narrativas, conscientes ou não, surgem de antigos padrões do mito e todas as histórias podem ser traduzidas e dissecadas na Jornada do Herói ( que será explicada mais adiante). Em seus estudos sobre mitos mundiais, ele descobriu que todos eles são a mesma história, porém contadas com inúmeras variações e adaptadas à realidade de quem a conta. Seus detalhes são diferentes em cada cultura, mas fundamentalmente são sempre iguais. Ainda segundo Campbell, "... toda cultura antiga e pré-moderna utilizava uma técnica ritmada para contar histórias retratando os protagonistas e antagonistas com certas motivações e traços de personalidade constantes, num padrão que transcende as fronteiras da língua e da cultura2"
Mas qual a importância dos mitos para o homem?
Durante muito tempo, a mitologia serviu para dar ao homem respostas a perguntas que o homem não podia compreender: o que era o sol, os fenômenos da natureza, sentimentos, etc. Entretanto, no século XVIII, época em que o mundo era dominado pelo racionalismo, pelo empirismo e pelo pensamento científico, a mitologia foi seriamente condenada, por ser sinônimo de ilusão e superstições. Acreditava-se que o mundo só poderia ser compreendido através dos mecanismos básicos da razão.
Entretanto, no início do século XX, Sigmund Freud, profundo estudiosos da psique humana, retomou e explicou a relação dos mitos com a personalidade do homem, alertando para a importância dos mesmos. Posteriormente foi retomado por Carl Jung e Joseph Campbell, que formularam teorias para explicar a ligação entre os mitos e a personalidade humana.
Baseado em todos esses estudos, pode-se chegar a conclusão de que os mitos são uma forma de o ser humano exteriorizar o seu inconsciente, tentando, através deles, buscar respostas para questões universais que o perseguem desde o seu surgimento: Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou quando morrer? O que é o bem e o que é o mal? Como será o futuro? O que aconteceu no passado? Deus existe? O que é a morte?
São perguntas que a ciência ainda não pode explicar, mas que há muito tempo a mitologia já havia explicado...

Guerra nas Estrelas: o Mito da Sociedade Moderna
Devido ao desenvolvimento científico e tecnológico da raça humana, os mitos tiveram sua importância significativamente reduzida, uma vez que a cultura moderna colocou sua fé na ciência e na religião. Conseqüentemente por vários séculos o surgimento de novos mitos foi praticamente nulo.
Porém, com o surgimento do cinema, os mitos novamente ganharam seu espaço, agora não boca-a-boca como acontecia antigamente, mas através de meios audiovisuais, e difundidos ao redor do mundo.
Em meados da última década de 70, um jovem cineasta americano admirador de Joseph Campbell resolveu criar uma nova mitologia, uma mitologia que pertencesse ao seu tempo, com elementos do seu tempo. Esse cineasta chamava-se George Lucas, conhecido hoje por inúmeros filmes de sucesso, mas, principalmente, pela concepção da trilogia de Guerra nas Estrelas, que apresenta elementos estudados e escritos por Campbell em sua obra " O Herói de Mil Faces". Se assistidos sem maior profundidade, os filmes da trilogia não passarão de mais uma história de aventura, um conto de fadas onde o herói salva a princesa das forças das trevas. Então qual a razão do grande sucesso de bilheteria causado pelo filme na época que foi lançado?
Um dos motivos, sem dúvida, foram os efeitos especiais utilizados por George Lucas, efeitos que estabeleciam um novo padrão nos filmes de ficção científica e que eram muito avançados para seu tempo. Mas esse não foi u único motivo responsável pela existência de milhares de fãs do filme por todo o mundo. A razão foi a composição da história e dos personagens da história, repletos de simbologia e ligações com aspectos psicológicos.
Temos a presença do herói, que Campbell citou em sua obra3 ,segue sua jornada, cujo início se situa na etapa denominada " Chamado à Aventura" e termina na " Ressurreição" e na volta com o " Elixir" (estas etapas serão mais detalhadamente explicadas adiante". Temos também a presença de " arquétipos" (termo usado pelo psicólogo Carl Jung em muitas de suas obras e que será explicado mais detalhadamente adiante), como o Herói, o Mentor, o Guardião de Limiar, o Arauto, o Camaleão, O Pícaro e a Sombra, cada um com sua função (dramática e psicológica) definida na história.
Talvez esta seja também a razão do enorme sucesso de Guerra nas Estrelas, a utilização destes símbolos universais que fazem com que os personagens sejam facilmente compreendidos e que haja empatia entre eles e o público.
A seguir, uma explicação mais detalhada sobre os estudos de Joseph Campbell e Carl Jung, comparando seus resultados com o filme Guerra nas Estrelas, no intuito de prosseguir com o objetivo desta monografia.

Os Arquétipos
Segundo o psicólogo suíço Carl Jung4, Arquétipos são os componentes do chamado inconsciente coletivo. O inconsciente coletivo seria uma herança psíquica que todo ser humano recebe em sua constituição. É como se este já tivesse uma predisposição para a criação de determinados símbolos e imagens que ele carrega com si desde o seu nascimento e que independe de valores ou experiências que ele venha a adquirir ao longo de sua vida. Jung sugeriu que o inconsciente coletivo é semelhante ao inconsciente pessoal, que os contos de fadas e os mitos seriam "sonhos" de uma cultura inteira. Os mesmos tipos de personagens parecem ocorrer em nível pessoal e coletivo. Os arquétipos são constantes se observados ao longo dos anos e das culturas, nos sonhos e na personalidade dos indivíduos, assim como na imaginação mítica do mundo inteiro.
Existem inúmeros arquétipos, entretanto, em se tratando de personagens, podemos resumi-los a 7 tipos básicos e considerar os outros como variação destes 7: Herói, o Mentor, o Guardião de Limiar, o Arauto, o Camaleão, O Pícaro e a Sombra.
A seguir veremos uma explicação mais aprofundada de cada arquétipo, fazendo ao mesmo tempo uma comparação com a composição dos personagens de Guerra nas Estrelas.

HEROI
Um personagem comum, carismático, que tem um desafio, que enfrenta desvantagens aparentemente insuperáveis e consegue de algum modo vencer, aprendendo alguma coisa com sua aventura :esta é a definição simples de Herói. Entretanto existe muito mais para se falar sobre este arquétipo do que esta definição superficial.
A princípio, o Herói (protagonista da história) é a ligação principal entre o espectador e a história. Ao assistirmos a um filme, vemos as coisas através dos olhos do herói, nos alegramos e nos entristecemos junto com ele, sofremos e aprendemos com ele, nos identificamos com ele. Essa identificação se dá devido a qualidades que o herói possui, que consideramos admiráveis e faz com que queiramos ser como eles. Através dele podemos ver nossos desejos realizados, nossos problemas resolvidos e nossas vontades satisfeitas. Eles nos fazem crer que tudo é possível e mesmo os problemas mais complexos podem ser resolvidos.
Porém, o Herói deve apresentar fraquezas, medos e defeitos- presentes em todos os seres humanos-, uma mistura de emoções, dúvidas e apreensões para que se torne mais " real", mais humano, para facilitar a identificação do público com ele. Joseph Campbell disse uma vez sobre Guerra nas Estrelas: "
Todo adolescente é um Luke Skywalker que tem de sair de seu planeta (a família) e partir para a conquista do mundo. Tem de abandonar velhos modelos e construir os seus próprios, numa verdadeira cruzada heróica em direção ao desenvolvimento de sua personalidade. Terá que lutar contra a tentação de permanecer na origem, daí pode-se entender o fato de Luke Skywalker ter de enfrentar seus próprio pai na figura do mal de Darth Vader"5

O público alvo de George Lucas ao lançar o filme Guerra nas Estrelas era certamente o público adolescente, especialmente os garotos. Por isso representou através de Luke Skywalker (personagem de Mark Hamill) a vontade de todo adolescente: sair de casa, separar-se dos pais ara viver uma vida nova repleta de aventuras.
O arquétipo do Herói não se manifesta apenas no personagem principal, pode ser uma máscara usada por outro personagem que, durante a história, acaba realizando um (ou mais) atos heróicos. Pode ser um personagem secundário que no fim acaba por salvar a vida do protagonista. Em Guerra nas Estrelas, Obi-Wan-Kanobi (personagem de Alec Guinness) é a manifestação do arquétipo " mentor" , mas ao se sacrificar sua vida para permitir que Luke escape com seus amigos da Estrela da Morte, atua heroicamente.
Os heróis são o símbolo de esperança, transformação, persistência e determinação,principalmente em filmes hollywoodianos, onde este, na grande maioria das vezes, alcança seu objetivo, ainda que sofra um pouco para ultrapassar determinadas dificuldades durante sua jornada.
Em seu livro " O Herói de Mil Faces" , Joseph Campbell resumiu a jornada do herói em algumas etapas básicas:

Partida, separação
Mundo cotidiano
Chamado à aventura
Recusa ao chamado
Ajuda sobrenatural
Travessia do primeiro limiar
Barriga da baleia

Descida, iniciação, penetração
Estrada de Provas
Encontro com a Deusa
A mulher como tentação
Sintonia com o Pai
Apótese
Grande conquista

Retorno
Recusa do retorno
Vôo mágico
Resgate de dentro
Travessia do limiar
Retorno
Senhor de dois minutos
Liberdade de viver

Para facilitar a comparação desta jornada com o caminho percorrido por Luke Skywalker durante o filme Guerra nas Estrelas , utilizarei as etapas sugeridas por Chistopher Vogler em sue livro A Jornada do Escritor6, que modificou ligeiramente os dizeres de Campbell para tornar mais visível a reflexão destes passos com alguns temas do cinema.
A Jornada do Herói
" Mundo comum- é o ambiente seguro do herói, o mundo (ou sociedade, ou situação) ao qual ele está ambientado, seu cotidiano, enfim, o lugar onde ele está cercado por coisas que conhecem e fazem parte de seu dia-a-dia. A situação " normal" de vida do herói é mostrada ao público antes de que este seja chamado ao " mundo especial", um lugar estranho para o personagem, um lugar (ou sociedade ou situação) ao qual ele terá que se adequar. Em Guerra nas Estrelas IV- Uma Nova Esperança, primeiro vemos o herói Luke Skywalker entediado na casa de seus tios em seu planeta natal em sua vida na fazenda antes que ele seja chamado a enfrentar perigos maiores.

" Chamado à aventura- o herói se depara com um desafio e precisa decidir se o enfrenta ou não. O protagonista pode tomar conhecimento de algum problema em sua vida, com sua família, com sua saúde ou com seu trabalho. Tal problema (alguns chama de conflito) pode ser interno ou externo; pode ser um drama psicológico, onde o herói trava uma verdadeira batalha entre dois lados, dois desejos ou duas necessidades da mesma pessoa (e nesse caso o protagonista passa a ser seu próprio antagonista, algo que fará com que ele lute até o fim, até decidir o que será melhor para ele, o que é " mais certo" ou até mesmo politicamente correto). O chamado `a aventura dá rumo à história e deixa claro qual é o objetivo do herói. Em Guerra nas Estrelas o chamado se dá no momento em que Luke descobre a mensagem desesperada envidada a Obi-Wan_Kanobi (Alec Guinness) pela Princesa Leia ( Carrie Fisher ) clamando por ajuda, pois foi raptada por Darth Vader (David Prowse). Com o objetivo do herói determinado, fica para o espectador a pergunta: será Luke Skywalker capaz de salvar a princesa, derrotar Darth Vader e restabelecer a paz no universo? A resposta, obviamente, só descobriremos ao final da história.

" Recusa ao Chamado- viver uma aventura que ficará para sempre em nossas vidas nem sempre é algo muito convidativo. Sair de seu ambiente seguro, onde todos o conhecem, onde você sabe como e onde encontrar o que precisa nem sempre é uma tarefa fácil, pois o medo do desconhecido é inevitável. Por esse motivo, o herói muitas vezes fica relutante quanto a abandonar seu mundo comum e enfrentar o desafio. Esse é o momento em que uma força exterior deve agir para motivar o herói a prosseguir com sua missão, dando-lhe um incentivo ou coragem para continuar. Em Guerra nas estrelas esse momento fica claro no momento em que Obi-Wan Kanobi chama Luke para ajuda-lo a salvar a princesa Léia e oferece-se para treina-lo como um cavaleiro Jedi. Luke recusa o convite pensando em seus tios, mas quando volta para a fazenda e descobre que eles foram atacados pelas tropas imperiais, ele não hesita mais e decide acompanhar Obi-Wan em sua busca pela princesa. O incentivo foi a morte de seus tios, e a luta contra o Império passa a ser uma questão pessoal.

" Encontro com o mentor- O mentor pode aparecer em uma narrativa sob os mais diferentes aspectos. Representa alguém com uma certa experiência de vida que dá conselhos aos mais jovens, e pode simbolizar as relações entre pai e filho, mestre e discípulo, Deus e o ser humano. Sua função é preparar o herói para a sua missão, dando-lhe ferramentas que lhe serão extremamente úteis em algum ponto da história. Essas ferramentas podem ser objetos mágicos, informações vitais ou conselhos. Em Guerra nas Estrelas, Obi-Wan dá a Luke a espada que pertencera a seu pai e também lhe dá o treinamento adequado para que se torne um Jedi; ambos arma e conselhos serão necessários quando Luke tiver que enfrentar o lado escuro da força.

" Travessia do primeiro limiar- Ao realizar as etapas anteriores, o herói terá atravessado o Primeiro Limiar, que marca o fim do primeiro ato da história (que é o momento até onde o herói decide agir) e o começo do segundo (o momento da ação). Agora que ele está definitivamente no Mundo especial, começa a história propriamente dita. No momento em que Luke aceita a missão proposta por Obi-wan, ele passa para segundo ato da história.

" Testes, aliados e inimigos- Geralmente aparecem no segundo ato da história, são personagens que farão parte do restante da história desempenhando um papel fundamental durante a jornada do herói ajudando-o ou atrapalhando- o. Em Guerra nas Estrelas esse momento se dá em uma cantina, onde Luke tem o primeiro contato com o mundo especial. Lá ele conhece Han Solo (personagem desempenhado por Harrison Ford) e Chewbaca (personagem de Peter Mayhew ). Ambos terão um papel decisivo na história, assim como a menção a Jabba, the Hut, um inimigo poderoso que aparecerá no terceiro episódio da trilogia, "O Retorno de Jedi".

" Aproximação da caverna oculta- é a fronteira que separa o herói do seu objetivo. Nessa etapa, o herói deve ficar atento a ataques surpresa do inimigo, e ser cauteloso pois está pisando em território inimigo. A Caverna Oculta é representada, na mitologia, pelo mundo dos mortos, o mundo do desconhecido, onde novamente o herói pode ficar receoso de entrar. Para isso, ele se prepara (mentalmente e fisicamente) para enfrentar perigos que podem leva-lo a experiências terríveis, traumatizantes e até mesmo à morte. Em Guerra nas Estrelas, esse momento se dá na hora em que Luke e seus aliados são sugados pela estrela da morte, onde vão resgatar a princesa Léia e enfrentar Darth Vader.

" Provação suprema- é o primeiro confronto do herói com a morte. É o momento em que o herói passa por um grande perigo, chegando a um estado de quase- morte. É um momento de tensão para ele e para o público, esperamos ansiosos para saber se ele resistirá à provação ou sucumbirá, entregando-se de uma vez para a 'morte'. É o momento em que Luke Skywalker se encontra com seus companheiros no depósito de lixo da Estrela da Morte e é pego por um monstro que vive no esgoto que faz com que ele permaneça submerso por tanto tempo (na verdade, apenas alguns segundos, mas o espectador tem a sensação de que o tempo foi muito maior) que chegamos a nos perguntar se ele realmente morreu. Essa etapa representa o medo da morte e nos faz perceber que o mesmo sentimento também toma conta do herói e este também é suscetível a morte, o que o torna mais humanizado e, conseqüentemente, mais próximo do público, alguém com quem nos identificamos cada vez mais. Ao passar pela provação Suprema, o herói terá cruzado o Segundo Limiar, que é o fim do segundo ato do filme.

" Recompensa- Ao passar pela provação suprema e vencer a morte, o herói é recompensado por sua coragem e bravura. Nesse momento, ele obtém o seu objeto de busca, seu tesouro. Nessa fase, o herói já não é mais o mesmo do início da história. Passou por testes e provações extrema, se deparou com a morte e venceu inúmeros desafios; portanto ele possui uma maior experiência de vida, maior compreensão do mundo (novo) que o cerca. Em Guerra nas Estrelas, Luke salva a Princesa Léia e consegue os planos para destruir a estrela da morte, fundamentais para derrotar Darth Vader.

" Caminho de volta- é o hora em que o herói prepara-se para voltar para o seu mundo comum, quando sua missão já foi completada e ele pode retomar sua vida normal. Porém no primeiro momento ele ainda está no mundo especial e agora vai sentir as conseqüências de seus atos no mundo especial. As forças que ele perturbou vão querer vingança e o herói precisa provar mais uma vez que é capaz de derrota-las para poder finalmente voltar ao seu mundo. Em Guerra nas Estrelas, é o momento em que Luke e Léia são perseguidos por Vader ao tentarem escapar da Estrela da Morte.

" Ressurreição- Essa etapa é parecida com a etapa da Provação suprema, onde, nas palavras de Vogler6, a morte e a escuridão fazem um último esforço desesperado, antes de serem finalmente derrotadas. É uma espécie de exame final do herói que deve ser posto à prova, ainda uma vez, para ver se aprendeu as lições da Provação suprema. Em Guerra nas Estrelas, esse é o momento em que Vader persegue Luke enquanto ele tenta com seus outros companheiros destruir a Estrela da Morte. É o momento final da história, onde a tensão da platéia está no auge, a hora de descobrir se todo o trabalho do herói no decorrer de sua jornada foram mesmo válidos. Essa é também a hora em que o herói vai precisar decidir se volta para o mundo comum ou permanece no mundo especial. O herói agora atravessou o terceiro Limiar, que culmina com o terceiro ato da história.

* Retorno com Elixir- O herói pode voltar ao mundo comum ou permanecer no mundo especial, do qual ele agora faz parte. Entretanto, qualquer que seja sua decisão, ele deverá levar consigo o Elixir o tesouro ou aprendizado do mundo especial. Ele obteve conselhos de seu mentor, enfrentou situações difíceis, e está pronto para desfrutar de seu sucesso, seja exibindo seu " troféu" para os amigos, ou provando algo a uma sociedade que não acreditava nele ou ainda sentir-se em paz consigo mesmo e com sua consciência. No caso de Luke Skywalker, seu elixir podem ser os ensinamentos que aprendeu com Obi-Wan-Kanobi sobre a força e como usa-la e de maneira sábia e eficiente contra o lado negro. Pode ser também o resgate da princesa Léia e a conquista de um novo amigo, Han Solo, que no início do filme.

ARQUÉTIPO MENTOR
O mentor é, geralmente, um amigo do herói . é quem lhe dá conselhos úteis para sua jornada e lhe ensina valiosas lições que farão com que ele cresça no decorrer da história. Joseph Campbell classificava-o como " velho sábio" , ainda que ele não precise necessariamente ser velho, apenas tem mais experiência do que o herói em determinados assuntos. O mentor também é responsável por dar presentes ao herói, que lhe serão de grande valia posteriormente,
Este é um arquétipo muito importante, presente em um vasto número de histórias, na mitologia e em contos de fadas. Em Cinderella, o mentor é a fada madrinha, que dá Cinderella roupas apropriadas para que ela vá ao baile; em Chapeuzinho Vermelho, o mentor é a mãe de Chapeuzinho, que alerta-a para que não fale com estranho, não ande pela floresta e volte cedo para casa devido ao Lobo Mau.
Na vida real, o arquétipo do mentor ode ser relacionado aos nossos pais, que nos dão conselhos, muitas vezes baseados em sua própria experiência, que usaremos ao longo de nossas vidas. É por isso que muitos heróis buscam nos mentores um substituto para a figura do pai, que não desempenha um papel que preencha suas necessidades satisfatoriamente. Em Guerra nas Estrelas (IV- Uma Nova Esperança), o mentor aparece na figura de Obi-Wan-Kanobi. Ele encontra Luke Skywalker no primeiro ato do filme e logo no primeiro encontro já lhe dá um "presente": o Sabre de Luz, uma espada luminosa que pertencera ao seu pai. A seguir, explica ao nosso herói sobre a Força e sobre cavaleiros Jedi. Posteriormente ensina-o como usar e dominar a Força, treinando-o para ser um verdadeiro cavaleiro Jedi e lutar contra as forças do mal (Darth Vader). Obi-wan torna-se um pai para Luke, uma vez que o garoto não conhecia o pai biológico e morava com os tios em uma fazenda em Tatooine, até estes serem mortos por foras do Império.
O mentor é um arquétipo flexível e pode se manifestar em vários personagens ao longo da história, pois os arquétipos não se resumem a um personagem e sim a uma função que ele desempenha.
O papel do mentor é fundamental para uma boa história. Segundo Christopher Vogler7,
Os mentores fornecem aos heróis motivação, inspiração, orientação e treinamento e presentes para a jornada. Todo herói é guiado por alguma coisa, e uma história que não reconheça isso e não deixe um espaço para esta energia estará incompleta. Quer se exprima como personagem concreto, quer como um código de conduta interno, o arquétipo do mentor é uma poderosa arma nas mãos do escritor.
Guardião de Limiar
São arquétipos manifestados em personagens cujo objetivo é proteger a entrada do Mundo Especial e barrar a entrada daqueles que não são dignos. Representam uma versão menor do real perigo que ainda está por vir- o arquétipo Sombra- e muitas vezes estão ligados a ele, por uma relação financeira (são mercenários) ou por uma relção de dominação.
Na vida real, são a representação de problemas que enfrentamos todos os dias: azar, preconceitos, brigas, etc.Sua função dramática é pré-testar o herói para saber se ele está realmente preparado para entrar no Mundo Especial. O herói passa por um teste físico e/ou um teste de inteligência. Se vencer o obstáculo, poderá prosseguir com sua aventura.
Um recurso muito utilizado pelo herói para passar pelo Guardião de Limiar é " entrar na pele" do mesmo, adquirindo sua aparência física e enganando- o.
Luke Skywalker e Han Solo (personagem de Harrison Ford) fizeram uso deste recurso no momento em que precisara mandar pelo corredores da Estrela da Morte sem serem vistos pelos soldados-robôs de Darth Vader, a fim de encontrarem a princesa Léia. Para isso, roubaram as armaduras de dois soldados, vestiram-na e usaram Chewbaca como prisioneiro, conduzindo-o pelos corredores da base espacial até encontrarem a sala onde Leia permanecia presa.
O Guardião de Limiar é alguém ou algo que bloqueia temporariamente a passagem do herói. Pode ser um personagem, uma força da natureza ou um anima, que põe as habilidades do herói à prova. Uma vez que este ultrapassa o Guardião de Limiar, isso significa que ele está suficientemente preparado (física e psicologicamente) para a próxima etapa da jornada.

ARAUTO
Como Vogler já citou em seu livro " A Jornada do Escritor"8, " a aparição do Arauto é a faísca que desencadeia a guerra". O Arauto é o arquétipo que ilustra o desafio do Herói, é aquele que avisa que algo está errado e que precisa ser consertado. O Arauto é o símbolo de uma mudança que está prestes a acontecer.
Ele comunica ao herói a aproximação de algo novo e, que depois disso, ele não será mais o mesmo, não poderá ficar alheio à situação, terá que tomar uma atitude: ignorar a mensagem (e posteriormente sofrer as conseqüências) ou mobilizar-se e tentar resolver o problema.
Segundo Carl Jung9, os Arautos desempenham a função de chamar à mudança. O chamado pode estar presente em um filme, um livro ou até em uma música, cabe a nós decidirmos se vamos ouvi-lo ou não; porém sabemos que ele existe.
O Arauto pode ser incorporado por vários personagens, às vezes como figura positiva, outras como negativa. Em Guerra nas Estrelas , temos dois exemplos de Arauto: o primeiro é Darth Vader, na sua primeira aparição à procura da princesa Léia na nave espacial. Devido aos seu trajes negros (que serão explicados mais adiante, juntamente com o arquétipo Sombra), suas palavras e seus atos para com Léia, er.
sabemos que ele é uma figura negativa; ele revela ao público que algo está desequilibrado, mesmo antes da aparição do Herói Luke Skywalk
Outro Arauto é a própria princesa Léia, quando esta aparece pela primeira vez para Luke em uma projeção holográfica. Devido a suas palavras para Obi-Wan Kanobi, ("você é minha única esperança"), revela a Luke que precisa de ajuda, que está em perigo, que algo está errado. Luke, em um primeiro momento, não toma nenhuma atitude em realação ao " chamado" , entretanto é forçado a agir quando R2D2 (robô responsável pela projeção holográfica de Léia) foge, no intuito de levar a mensagem a Obi-wan.

CAMALEÃO
O Camaleão é um arquétipo que faz jus ao nome: assim como o lagarto que muda a cor de seu corpo de acordo com o ambiente para se camuflar e esconder-se do inimigo, o personagem cujo arquétipo é o Camaleão tem como característica principal as mudanças (que podem ser físicas ou psicológicas). Ele muda seu comportamento para se adequar a uma determinada situação, o que muitas vezes pode ser perigoso para o herói que, por não conhecer a verdadeira personalidade do Camaleão, nunca saberá se ele é verdadeiramente confiável.
A função do camaleão é trazer dúvida e suspensa à história. São projeções de nossos lados" ocultos" que podem vir `a tona a qualquer momento. Esse arquétipo é muito utilizado em filmes de suspense, onde o melhor amigo do herói ou a pessoa que ele menos desconfiava vai se mostrar alguém totalmente diferente do que era no início da narrativa, tornando-se um assassino de sangue frio ou um traidor.
Em Guerra nas Estrelas , o melhor exemplo de Camaleão é Han Solo. No início do filme, quando este se encontra pela primeira vez com Luke na cantina em Tatooine, ele se mostra um pessoa mercenária, que aceita levar Skywalker e seus companheiros em sua nave por uma grande quantidade de dinheiro, além de matar um outro ser intergaláctico logo em seguida, por problemas com dinheiro10. Em outro momento da história ele concorda em ajudar Luke a salvar a princesa Léia apenas porque ela era uma princesa e possuía muito dinheiro, portanto Han seria bem recompensado. Porém, ao final do filme, mesmo após já ter recebido a recompensa, Solo volta para ajudar Luke a destruir a Estrela da Morte por uma questão de amizade, em decorrência de todas as aventuras pelas quais eles passaram juntos.
PÍCARO
A função primária deste arquétipo é fazer rir. Ele nos ajuda a perceber o vínculo comum que temos com os outros, zomba de nossas bobagens e faz com que percebamos nossa hipocrisia através de situações cômicas. Com seu modo (muitas vezes ingênuo) de ver as coisas, eles nos alertam sobre situações que vão do ridículo ao absurdo.
O arquétipo Pícaro também é responsável pela quebra de tensão do filme, aliviando um pouco sua seriedade. Dramas, thrillers e mesmo filmes de ação podem ser exaustivos emocionalmente e o público se reanima após uma situação cômica, pode recuperar o fôlego e continuar a prestar atenção na história. No filme " O Quinto Elemento", de Luc Besson , o pícaro é representado pelo personagem de Chris Rock, um locutor de rádio homossexual em um mundo futurístico. Suas roupas, falas e trejeitos provocam risadas no espectador a cada momento que a seqüência torna-se séria demais, o que faz com que o público relaxe.
O Pícaro não precisa ser necessariamente um personagem humano: animais são ótimos representantes desse arquétipo, como ocorre no filme Dr. Dolittle, estrelado por Eddie Murphy, onde seu personagem é um veterinário que fala com os animais. O pícaro (um deles) é o cachorro falante de Murphy. O próprio Eddie pode ser considerado um " herói picaresco".
Em Guerra nas Estrelas , o Pícaro é ilustrado pelo robô C3PO, cujapersonailidde ingênua e quase infantil,os trejeitos e o comportamento quase humano e sua relação ora robô, ora humana com os outros personagens dão ao filme um toque cômico e divertido.
SOMBRA
Como o próprio nome diz, o arquétipo Sombra representa o lado obscuro e não expresso. Psicologicamente, é o símbolo de nossos sentimentos reprimidos e dos medos que moram em nossa mente. A Sombra é o nosso " lado mau" , aquele que não queremos mostrar, do qual nos envergonhamos.
Tudo isso é projetado nos chamados "vilões", "inimigos", que possuem objetivos contrários aos do Herói e que, para cumprirem suas metas, precisam elimina-lo. A função primordial da sombra é impor desafios ao herói, de modo que este tenha que se fortalecer para vence-los. A sombra pode ser um reflexo negativo do herói. Em uma história de luta psicológica, a sombra é representada por traumas e culpas do próprio herói.
"Sombra" tem relação com o escuro, com o lado negro. "A escuridão, a sombra, a cor negra, são representações simbólicas do mal, da desgraça, da perdição e da morte no mundo ocidental", diz Julvan Moreira Doutorando e Mestre pela FE-USP11. O escuro não nos permite enxergar a real forma das coisas, e algo que não podemos ver claramente torna-se algo assustador e desconhecido. Temos medo do desconhecido, temos medo da escuridão.
Por isso geralmente relaciona-se os vilões à cor negra, como acontece com Darth Vader, cujos vestes são todos negros e extremamente brilhantes. Vader é a representação do arquétipo Sombra, pois é aquele cujos objetivos divergem diretamente com os do Herói. Ele não só impõe um desafio físico a Luke (em O Império Contra-Ataca, segundo filme da trilogia de George Lucas)- uma luta de espadas para determinar a dominação do universo, como um desafio psicológico- aceitar que Vader é seu pai, mesmo que ele tenha se rendido ao lado negro da Força.
Em O Retorno de Jedi, último filme da trilogia, Vader tenta se redimir. Morre para salvar o filho e tem seus crimes perdoados pois, a princípio, a morte é uma maneira de redimir os vilões de seus " maus atos". E Vader volta ao final do filme, na forma de espírito, juntamente com Obi-wan-Kanoi- que morreu em Guerra nas Estrelas- Uma Nova Esperança e Yoda, que também morreu no Retorno de Jedi. Aparentemente, todos se reconciliaram no mundo espiritual.

CONCLUSÃO.
Os mitos sempre existiram e sempre existirão na cultura humana. Os homens precisam dos mitos, precisam das histórias, seja para expressar seu inconsciente, seja para passar o tempo, seja par explicar o inexplicável. Os mitos alimentam nossa alma, são o elemento que nos dá força para continuar, é uma esperança, uma forma de lidar com nossos medos, uma maneira de entendermos a nós mesmos e a nossa realidade. Surgem da nossa necessidade de buscar outra realidade para, através desta, entendermos a nossa.
Mitologia não precisa de tecnologia para ser difundida, como já provaram os gregos antigos, porém podemos dizer que ela se adequa à tecnologia, aos avanços do tempo. Hoje, os maiores responsáveis pela criação de mitos são o cinema e a televisão. Porém, percebe-se que depois de séculos e séculos, a estrutura das histórias e a composição dos personagens não mudou, segue a trajetória analisada e explicada por Joseph Campbell e a composição de personagens explicada por Carl Jung. Tais elementos não mudam porque são parte da personalidade humana, de elementos básicos do inconsciente que permaneceram iguais com o passar dos anos. Medo da morte, do desconhecido, aspirações e dúvidas são parte do SER HUMANO. São a ciência que explica o homem.
O filme Guerra nas Estrelas é considerado um mito porque traz todos os elementos mitológicos que uma história precisa: os arquétipos representando as múltiplas faces da personalidade humana e a jornada do Herói, que representa a trajetória de uma vida, com todas as suas etapas necessárias para a evolução. Guerra nas Estrelas é um mito porque ilustra o mais antigo conflito do Homem, o Bem contra o Mal.
E é por isso que Guerra nas Estrelas pode ser considerado um mito da sociedade moderna.