INTRODUÇÃO

     As represas constituem importantes ecossistemas artificiais que alteram as características hidrológicas e ecológicas de um rio (Tundisi, 1993). Os reservatórios são regulados pelos seguintes fatores: morfometria, sazonalidade e sistema de operação. Os reservatórios do Paraná Superior são ecossistemas com morfometria complexa, estabelecendo processos dinâmicos diferenciados entre os diversos reservatórios. Quanto á sazonalidade, a alteração da altura do nível do reservatório produzem mudanças na zona litoral provocando modificações nas margens e em alguns casos, interferindo na sucessão das comunidades planctônicas, bentônicas e peixes (Tundisi, 1993).

     As barragens podem, em muitos casos se constituir em uma barreira intransponível a qualquer espécie de peixe, isolando sítios e zonas específicas, para onde determinadas espécies costumavam se dirigir com a finalidade de se reproduzir ou se alimentar conforme observado por (Godoy,1995; Agostinho & Zalewski, 1996). Isso produz um efeito genético pelo isolamento de populações (Petrere, 1996).

     A construção de barragens também alteram as características físico-químicas da água (Branco, 1972), influenciando dessa forma a estrutura das comunidades de peixes (Godoy, 1995). Além disso a comunidade de peixes sofre uma redução da abundância de espécies reofílicas, dando lugar ás espécies com maior capacidade de adaptação aos ambientes lênticos (Castro & Arcifa, 1987), como por exemplo, o cará Geophagus brasiliensis, o saguirú Cyphocharax modestus, e o lambari Astyanax fasciatus (Smith, 1999). Além dos impactos gerados pela construção de reservatórios a ictiofauna nativa que consegue prevalecer estão sujeitas a interferências de espécies exóticas.

     No Rio Tietê muitas espécies de peixes foram introduzidas principalmente nos reservatórios, dentre elas estão a Tilapia rendali, Oreochromis niloticus, Cyprinus carpio, Astronotus sp, Plagioscion squamosissimus, Triportheus a . angulatus e Cichla temensis.

     Os argumentos econômicos para a realização da introdução de espécies exóticas em reservatórios são inúmeros, como por exemplo a obtenção de alimento, aumento dos estoques pesqueiros, controle de macrófitas, algas e moluscos, e também para recreação (Agostinho & Júlio, 1996). O principal argumento ecológico para introdução de espécies exóticas em reservatórios é de que nesses ambientes, peixes reofílicos não são adaptados a viver em águas mais profundas e paradas. A zona pelágica dos grandes reservatórios não é habitada e os peixes de rio são incapazes de utilizar todos os nichos disponíveis no reservatório (Fernando, 1991). Amaral & Petrere (1994) afirmaram que no reservatório de Promissão, esta hipótese pode ser aplicada, pois a comunidade de peixes está concentrada às margens do reservatório.

     Negativamente, a introdução de espécies exóticas pode causar a perda de espécies, a redução do rendimento pesqueiro das espécies nativas e alterações do ambiente pela redução dos locais de desova (Welcomme, 1988; Fernando, 1991). Poderá também ocorrer uma pressão sobre as espécies nativas, seja ela por predação ou competição sobre as espécies nativas. Twongo (1995) concluiu que depois da introdução de espécies exóticas no lago Victoria e Kyoga na África, as espécies nativas começaram a declinar devido á competição.

     Uma forma de se avaliar a pressão que as espécies exóticas estão exercendo nas espécies nativas é caracterizando a dieta das espécies exóticas e nativas e verificar se há sobreposição alimentar. Em ambientes de água doce muitas espécies de peixes possuem larga tolerância a tipos de habitat e uma certa flexibilidade nos hábitos alimentares, repartindo muitos recursos do seu ambiente com várias outras espécies (Lowe- McConnel apud Uieda, 1997).

     Segundo (Uieda, 1997), em condições de rio os peixes são mais facultativos, mudando sua dieta conforme crescem ou modificam seu biótipo, ou de acordo com os alimentos disponíveis estacionalmente ou por seleção ativa de alimentos preferidos de acordo com escolha individual, sendo assim é difícil a a previsão dos possíveis impactos das espécies exóticas nas nativas no que se refere ao tipo dos recursos alimentares.

     O estudo da dieta de peixes baseada no conteúdo estomacal é uma técnica normal em ecologia, mas surpreendentemente pouca literatura existe sobre a extensão dos métodos que podem ser empregados (Hyslop, 1980). Existem principalmente duas categorias de estudo da alimentação, a primeira é aquela que examina a dieta da população de peixes, tendo em vista a avaliação das espécies de peixe em questão (Hyslop, 1980). A segunda categoria é aquela que estima a quantidade total de alimento consumido por uma população de peixes, envolvendo cálculos matemáticos (Staples, 1975; apud Hyslop, 1980).

     Segundo (Hyslop1980), a maneira mais simples de relatar dados do conteúdo estomacal de peixes é amostrar o número dos conteúdos estomacais de um ou mais indivíduos de cada categoria alimentar. Este número pode expressar uma porcentagem do total de estômagos (Hyslop, 1980), ou todo o conteúdo estomacal em questão (Hyslop, 1980).

     Em estudo realizado por (Uieda et al., 1997), foi analisado o hábito alimentar das espécies de peixes de um riacho de Serra do sudeste do Brasil, o que possibilitou caracterizar à partilha de recursos alimentares, permitindo entender as interações entre as espécies, e de forma prática, mostrou a importância deste estudo em ecologia.

     Em se tratando de reservatórios do Médio Tietê, poucos trabalho de dieta estão disponíveis na literatura. Arcifa et al.,(1988) realizaram um estudo no reservatório de Americana formado pelo Rio Atibaia, afluente do Rio Tietê. Neste trabalho descreveram a Ecologia Alimentar dos peixes desse reservatório, incluindo algumas espécies exóticas como a tilápia. Dessa forma utilizando a ecologia alimentar das espécies exóticas será possível avaliar eventuais impactos na ictiofauna nativa, como realizado por Santos et al,(1994) que avalia a introdução de peixes predadores exóticos entre eles a corvina e o tucunaré nos reservatórios formados pelo rio Grande e Paranaíba, localizado no Paraná Superior.

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