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Mariana Pezzo - Publicado em 28-09-2026 10:20
Projeto da UFSCar aprimorará cuidado de pessoas com demências no SUS
CCD se soma a Centro de Pesquisa em Envelhecimento recentemente aprovado (Arte Henrique Matheus)
CCD se soma a Centro de Pesquisa em Envelhecimento recentemente aprovado (Arte Henrique Matheus)
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) anunciou recentemente a aprovação do projeto para criação do Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Métodos Inteligentes no SUS para o Tratamento de Pessoas com Demência (CCD-MIDEM), com sede no Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) da UFSCar. Coordenado por Márcia Regina Cominetti, docente no Departamento de Gerontologia (DGero) da Universidade, em parceria com Claudia Marina Fló, da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, o Centro tem como pesquisadores principais também Tiago da Silva Alexandre, do DGero, e Luciana Correia Alves, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O objetivo é desenvolver e implementar, no Sistema Único de Saúde (SUS), um modelo para qualificar o diagnóstico e o cuidado das pessoas que vivem com demência. Assim, o CCD-MIDEM deve funcionar como modelo assistencial orientado por dados, no qual decisões clínicas e organizacionais serão apoiadas por análises automatizadas, com desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial (IA) para auxílio ao diagnóstico e à estratificação, ou seja, a caracterização dos casos de demência em relação ao tipo e, também, ao estágio de desenvolvimento (leve, moderado ou avançado).

O projeto foi construído em diálogo com dois dos quatro serviços especializados no atendimento à pessoa idosa existentes no SUS em São Paulo: o Ambulatório de Especialidades Médicas do Idoso - Centro de Referência do Idoso - da Região Norte (AME-CRI Norte) e o Ambulatório de Especialidades Médicas do Idoso da Região Sudeste (AME Idoso Sudeste). "O AME Idoso Sudeste é o único que já tem a linha de cuidado em demências, que nós conhecemos e nos deixou muito bem impressionados. Pudemos, em um processo de construção coletiva, levantar as necessidades e os gargalos junto à equipe, e a ideia do projeto é, assim, avançar no aprimoramento da linha de cuidado", explica Tiago Alexandre. Posteriormente, a partir da avaliação da iniciativa, está prevista também a instalação da linha de cuidado no AME-CRI Norte. "E, a partir dessas experiências, nossa expectativa é que possamos ter um modelo para a implementação da política pública não apenas em outros serviços do estado de São Paulo, mas em todo o Brasil", projeta o docente da UFSCar.

A partir das demandas identificadas no diálogo com os serviços e a Secretaria de Saúde, a expectativa é contribuir para a diminuição do tempo para diagnóstico, o aprimoramento da estratificação de risco e, assim, a otimização de recursos assistenciais, oferecendo às pessoas responsáveis pela gestão e outros profissionais na organização da linha de cuidado em demência. "O objetivo que estrutura toda a iniciativa é melhorar a jornada do paciente, que em geral é longa. O projeto busca justamente diminuir esse tempo entre a entrada no serviço de Saúde e o diagnóstico. Com essa possibilidade, de um diagnóstico mais ágil e preciso, é possível iniciar intervenções imediatamente e, com isso, retardar o avanço da doença e aprimorar a qualidade de vida das pessoas que vivem com demência e, também, de cuidadores", resume Márcia Cominetti. No projeto, o grupo de pesquisadores registra, inclusive, que embora o diagnóstico das demências seja uma área muito forte na Ciência brasileira, os avanços ainda não se refletem plenamente na prática assistencial. Buscando alterar esse quadro, as ações do CCD-MIDEM estão organizadas em dois eixos, o Clínico-Assistencial e o de Gestão.

Eixo Clínico-Assistencial
No eixo Clínico-Assistencial, aos exames já realizados rotineiramente, deverá ser incorporada uma avaliação neuropsicológica mais rápida. Embora seja considerada ferramenta fundamental de avaliação cognitiva, os modelos existentes são demorados, e a ideia é testar baterias de alta precisão com número reduzido de testes. Também será acrescentada a testagem de biomarcadores plasmáticos, proteínas detectáveis no plasma sanguíneo que têm se mostrado promissoras no diagnóstico no tempo oportuno e outras medidas de acompanhamento das demências, particularmente da doença de Alzheimer.

Os resultados desses exames, junto com exames de imagem e todo o banco de dados de avaliações clínicas já existente nos serviços de Saúde, serão integrados com o uso da IA, para identificação de padrões não evidentes e não detectáveis pelas abordagens convencionais. Com isso, a ideia é ter um modelo preditivo, ou seja, que possa predizer o risco de demência e, também, apoiar profissionais no processo de tomada de decisão. "Essa possibilidade leva ao aprimoramento tanto do cuidado individual, com maior rapidez diagnóstica e nos ajustes de medicações e outras intervenções, quanto à melhora na organização do fluxo de cuidado, por exemplo, pelo dimensionamento de quais especialidades profissionais são mais necessárias em um determinado local naquele momento. Tudo isso vai melhorar a jornada das pessoas atendidas", afirma Márcia Cominetti.

A Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) e a Federação das Associações Brasileiras de Alzheimer (Febraz) também são parceiras no projeto e, com elas, o foco estará principalmente no aprimoramento do cuidado após o diagnóstico, já que é comum que as pessoas que vivem com demência e também aquelas responsáveis por seu cuidado fiquem sem saber o que fazer ao receber a notícia do diagnóstico. Assim, será sistematizado o fluxo de atendimento, com incorporação progressiva de intervenções não medicamentosas - como apoio psicossocial e reabilitação cognitiva, dentre outras -, estratégias de cuidado centrado na pessoa e articulação com ações educativas e formativas de profissionais e cuidadores familiares. Essa qualificação permitirá que o diagnóstico seja imediatamente seguido de orientações estruturadas e intervenções não medicamentosas baseadas em evidências, reduzindo a ansiedade associada a esse diagnóstico e favorecendo a adesão ao cuidado.

Eixo Gestão
Já no eixo de Gestão, está previsto o desenvolvimento de plataforma digital de gestão da rede assistencial em demência, com criação de painel interativo de indicadores para monitoramento - em tempo quase real - de indicadores clínicos e organizacionais gerados a partir dos dados de atendimento, cuja análise subsidiará o ajuste contínuo dos serviços. A implementação do painel deverá permitir o monitoramento contínuo de métricas assistenciais estratégicas, incluindo tempo para diagnóstico, tempo para contrarreferência (ou seja, retorno à Atenção Primária em Saúde - APS), estabilidade do cuidado na Atenção Básica e nível de sobrecarga dos cuidadores, bem como indicadores relacionados à qualidade de vida da pessoa que vive com demência no pós-diagnóstico. A expectativa é que a digitalização e automatização de processos possa também otimizar o trabalho especializado, liberando profissionais do excesso de atividades administrativas.

Ciência para o desenvolvimento na UFSCar
Além da equipe já nomeada, participam também, da UFSCar, Aline Gratão, Fabiana Orlandi, Marisa Zazzetta e Lucas Pelegrini, docentes no DGero, e Aniele Takahashi, do Departamento de Fisioterapia; bem como Ligiana Corona, da Unicamp; Monica Yassuda, da Universidade de São Paulo (USP); Marcia Fukujima, Bibiana Povinelli e Eduardo Cruz, do AME Idoso Sudeste; Ana Maeda e Marjorie Piedade, do AME-CRI Norte; Cristina Hoffmann, da Universidade de Brasília (UnB); Celene Queiroz, da Abraz; e Elaine Mateus, da Febraz, grande parte também integrantes do projeto do Centro de Pesquisa em Envelhecimento Humano (CePEH) recentemente aprovado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

O CCD-MIDEM é o segundo Centro de Ciência para o Desenvolvimento sob coordenação da UFSCar. Além do CCD-EMA - Restauração de vegetação nativa na Mata Atlântica pela combinação estratégica de medidas obrigatórias e compromissos voluntários, coordenado por Paulo Guilherme Molin, do Centro de Ciências da Natureza, no Campus Lagoa do Sino, há pelo menos outros 13 CCDs com cientistas da UFSCar em suas equipes, segundo o site que reúne as informações sobre a iniciativa. A especificidade dos CCDs é o foco na realização de pesquisas com impacto direto em políticas públicas, na parceria entre universidades e órgãos públicos, e a lista de 32 propostas selecionadas no edital que aprovou o CCD-MIDEM está disponível no site da Fapesp.