Notícia

Gisele Bicaletto - Publicado em 24-06-2026 13:00
Pesquisa trata justiça reprodutiva e relação com maternidade/paternidade
Voluntários participarão de entrevistas individuais entre junho e agosto (Cartaz)
Voluntários participarão de entrevistas individuais entre junho e agosto (Cartaz)
Uma pesquisa de Iniciação Científica, desenvolvida no Departamento de Enfermagem (DEnf) da UFSCar, pretende investigar a percepção da assistência em saúde no processo de maternidade/paternidade, com foco em como marcadores de raça, classe e gênero atravessam essas experiências. O estudo convida pessoas autodeclaradas pretas, pardas ou indígenas (cis ou trans), que gestaram ou adotaram nos últimos três anos, para participarem de entrevistas individuais sobre o tema.  

O projeto é realizado pela graduanda em Enfermagem da UFSCar Maria Gabriela da Silva Costa, sob orientação de Natália Stofel, docente do DEnf. De acordo com a pesquisadora, o objetivo principal é compreender como marcadores sociais como raça, gênero e classe, de forma interseccional, atravessam as experiências de pessoas que vivenciaram a maternidade ou paternidade (por gestação ou adoção) nos últimos três anos. "Queremos ouvir as histórias dessas pessoas para entender os desafios, as alegrias e as dificuldades enfrentadas, especialmente no acesso e na qualidade da assistência à saúde durante este processo", explica. Ela reforça que a interseccionalidade é uma ferramenta conceitual que compreende que as opressões de raça, classe, gênero e identidade sexual atuam de forma sobreposta, produzindo experiências únicas de vulnerabilidade e discriminação, o que  permite articular categorias muitas vezes analisadas separadamente.

Temáticas
Maria Costa explica que a justiça reprodutiva é um conceito que se baseia no entendimento de que as opressões de raça, classe e gênero produzem um paradigma de intersecção que impacta profundamente a vida reprodutiva das pessoas. "Nesse sentido, esse conceito se baseia no direito de cada pessoa de ter filhos, não ter filhos e criar seus filhos em condições seguras e saudáveis, envolvendo não apenas a escolha individual, mas também a garantia de que as comunidades tenham os recursos necessários (saúde, educação, moradia etc.) para que essas escolhas sejam possíveis", complementa.

No processo de maternidade/paternidade, a pesquisadora aponta que a justiça reprodutiva está diretamente relacionada à garantia de autonomia e liberdade de decisão sobre a vida reprodutiva, e está presente quando as pessoas têm acesso a um pré-natal de qualidade, um parto respeitoso, apoio emocional, licença parental adequada e redes de apoio, sem sofrer violência obstétrica, racismo ou discriminação, com a finalidade de garantir que a essas experiência seja digna, segura e feliz.

Para a estudante, discutir esses temas é fundamental a partir do momento em que as estatísticas de saúde mostram que mulheres negras, pardas e indígenas têm piores indicadores de cuidado - menor número de consultas de pré-natal, maior dificuldade de acesso a acompanhantes no parto e maiores taxas de mortalidade materna. Ampliando esta discussão para além da gestação, também se aplicam à maternidade/parentalidade por adoção, no qual a pobreza, o racismo e o sexismo determinam quem é destituída da maternidade e quem pode, de fato, adotar, podendo impactar diretamente no bem-estar dessas famílias. 

"Portanto, o racismo estrutural, o sexismo e a classe social atuam juntos, criando barreiras que tornam a experiência de maternidade/paternidade muito mais difícil para essas populações. Ao ouvir essas pessoas, podemos entender com mais cuidado essas barreiras e lutar por políticas públicas que combatam essas iniquidades", reforça a pesquisadora sobre a expectativa do projeto. Os resultados do estudo serão utilizados para recomendar melhorias nas políticas públicas de saúde materna e perinatal, com foco na equidade racial e de gênero, além de fortalecer o debate sobre interseccionalidade no âmbito da saúde pública.

Pesquisa
Para realizar o estudo, são convidadas mulheres cis ou pessoas trans, maiores de 18 anos, que gestaram ou adotaram nos últimos três anos; que foram atendidas no Sistema Único de Saúde (SUS); que sejam autodeclaradas pretas, pardas ou indígenas; e que residam em qualquer região do Brasil. As pessoas voluntárias participarão de entrevista, presencial ou online, conforme agendamento prévio, com duração média de 50 minutos. Nenhum dado dos participantes será divulgado.

As pessoas interessadas em participar podem entrar em contato pelo WhatsApp (19) 98168-6338 ou pelo e-mail maria.costa@estudante.ufscar.br, entre os meses de junho e agosto. Projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFSCar (CAAE: 55688522.6.0000.5504).