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Tiago Marconi - Publicado em 01-04-2026 09:44
UFSCar recebe jovens cientistas em projetos Geração, da Fapesp
UFSCar é sede de quatro projetos aprovados (Imagem: Freepik)
UFSCar é sede de quatro projetos aprovados (Imagem: Freepik)
A UFSCar é sede de quatro projetos selecionados no edital mais recente do programa Nova Geração de Pesquisadores, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), voltado ao apoio a cientistas em início de carreira - com graduação concluída há menos de 12 anos e doutorado completo há menos de sete anos. Três pesquisas serão realizadas no Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia (CCET) e uma no Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH).

O processo seletivo teve três etapas, com 314 pessoas candidatas. A previsão inicial da Fapesp era apoiar 40 projetos, mas, segundo a Fundação, devido ao alto nível das propostas, 58 acabaram selecionadas. As pesquisas podem ter duração de até cinco anos, com possibilidade de extensão por mais um ano. O resultado foi anunciado em dezembro do ano passado.

Polarização social e política
O projeto sediado no CECH, "Preferência por falantes e seguimento de regras persistente no contexto de polarização social e política: explorando o papel de relações derivadas simbólicas", é liderado por Colin Harte, da área de Psicologia. Irlandês, Harte veio ao Brasil pela primeira vez em 2019, visitar Julio de Rose, docente no Departamento de Psicologia (DPsi) da UFSCar, que tem contribuições de destaque na área da Psicologia Comportamental.

"Meu doutorado foi focado no que chamamos de seguimento persistente de regras: por que os seres humanos persistem em certos padrões de comportamento - ou em seguir certas regras - mesmo quando o ambiente está dizendo que aquilo não está funcionando?", conta o jovem pesquisador. "Quais variáveis aumentam ou diminuem a probabilidade desse comportamento? Quando outros animais recebem um feedback negativo, eles se adaptam. Os humanos, muitas vezes, não. Essa rigidez comportamental tem sido associada à linguagem humana e ao sofrimento psicológico."

No pós-doutorado, ele seguiu explorando a rigidez comportamental, interessado nos motivos de alguns estímulos (palavras, símbolos, pensamentos) controlarem mais do que outros o comportamento humano. Disso, surgiu outra questão: por que seguimos conselhos de algumas pessoas e de outras não? E, por fim, o pesquisador relacionou esses questionamentos ao cenário politicamente polarizado da sociedade brasileira. "Vemos pessoas seguindo conselhos e instruções de figuras polarizadoras mesmo quando há claras inconsistências entre o que essas figuras dizem e fazem. Isso, pode-se argumentar, é justamente o seguimento persistente de regras em ação", explica.

O projeto, que está em vigor desde fevereiro, contará com quatro estudantes de mestrado. Como colaboradores, participam também outros professores brasileiros - João Henrique de Almeida (Universidade Estadual Paulista), William F. Perez (Instituto Par), Renato Bortoloti (Universidade Federal de Minas Gerais) e Debora Hollanda de Souza (UFSCar) - e dois estrangeiros: Jesús Alonso-Vega (Universidade Europeia de Madri, Espanha) e Simone Mattavelli (Universidade de Milano-Bicocca, Itália). Há, também, dois consultores: Julio de Rose e Dermot Barnes-Holmes (Universidade do Ulster, Irlanda).

Filtros de alta performance
Uma das pesquisas sediadas no CCET -  "Filtração de alta performance com meios filtrantes contendo nanofibras funcionalizadas para mitigação e detecção de poluentes" - tem como pesquisador responsável Paulo Augusto Marques Chagas, doutor em Biotecnologia  pela UFSCar que, agora, retorna ao Departamento de Engenharia Química (DEQ). O projeto busca "enfrentar um dos gargalos mais críticos do controle ambiental industrial atual, que é a dificuldade de reter partículas ultrafinas e de lidar com a liberação de gases poluentes ao mesmo tempo". Para isso, o plano é transformar filtros industriais já existentes, com o uso de nanofibras funcionalizadas para filtração de partículas ultrafinas sem aumentar significativamente a resistência à passagem do ar, o que elevaria o consumo de energia e diminuiria a vida útil dos equipamentos. Além disso, os filtros utilizarão material reaproveitado e serão funcionalizados com materiais capazes de detectar gases tóxicos.

Participam do projeto como pesquisadores associados Mônica Lopes Aguiar (do DEQ), Daniel Souza Corrêa (Embrapa Instrumentação), Luiz Henrique Capparelli Mattoso (Embrapa Instrumentação), Mikhael Bechelany (Instituto Europeu de Membranas, na França) e Eduardo Hiromitsu Tanabe (Universidade Federal de Santa Maria). Há também a previsão da participação de dois bolsistas de mestrado e um de pós-doutorado. A data de início da pesquisa é 1º de maio.

De dióxido de carbono a metanol
Transformar dióxido de carbono em metanol é o objetivo do projeto "Reciclagem de CO2 utilizando catálise por plasma para mitigação ambiental e otimização do mercado de carbono", também sediado no CCET, que tem como pesquisador principal Davi Petrolini. "A transformação ocorre por meio da reação do CO2 com hidrogênio, formando metanol e água", explica o pesquisador, registrando que o grande desafio é o fato de o CO2 ser uma molécula extremamente estável, ou seja, difícil de ativar. Para superá-lo, a pesquisa usará plasma não térmico - um gás energizado que cria um ambiente reativo capaz de quebrar essa estabilidade - e a catálise heterogênea - um método para direcionar a reação, aumentando a seletividade para metanol e reduzindo a formação de subprodutos indesejados. "A combinação dos dois cria um ambiente reacional completamente diferente dos processos convencionais, abrindo novas rotas químicas mais eficientes e potencialmente menos intensivas em energia", explica o pesquisador.

Além de Petrolini, compõem o projeto, que começará oficialmente em agosto, mais três cientistas da UFSCar: José Maria Corrêa Bueno e Alice Medeiros de Lima, do DEQ, e André Farias de Moura, do Departamento de Química (DQ). A equipe deverá contar também com quatro bolsistas, dois de Iniciação Científica, um de Treinamento Técnico e um de Doutorado Direto.

Bateria inovadora
Também com sede no CCET, o quarto projeto, "Além do lítio: desenvolvimento de uma bateria inovadora de íons de sódio com alta densidade energética", visa desenvolver uma bateria de alto desempenho e baixo custo, que utilize recursos abundantes e não críticos. O projeto, com início previsto para julho, será liderado por João Vitor Campos.

Um dos diferenciais do projeto é a técnica de sinterização utilizada para a construção da bateria de estado sólido de sódio sem ânodo pretendida. A sinterização é um processo que aquece um objeto formado por pó compactado, sem derretê-lo, para aumentar suas propriedades mecânicas e funcionais por meio da união entre partículas adjacentes. Tradicionalmente, ela é feita em fornos e leva muitas horas. A pesquisa aposta em uma técnica que usa elementos de carbono (como fitas que envolvem o material) que conseguem aquecer esse material em poucos segundos. "No método convencional, essa permanência prolongada pode causar perdas químicas importantes, prejudicando propriedades como a condutividade iônica do eletrólito da bateria. Já com a sinterização ultrarrápida, conseguimos densificar o material antes que essas perdas ocorram de forma significativa. Isso preserva a composição química ideal e, consequentemente, melhora o desempenho eletroquímico do material", explica o pesquisador.

Vários outros cientistas compõem a equipe: Lilian M. Jesus, do Departamento de Física da UFSCar (DF); do Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar (DEMa), Isabela R. Lavagnini; Edgar Dutra Zanotto e Ana Candida Martins Rodrigues; Sanjit Ghose (Laboratório Nacional de Brookhaven, nos Estados Unidos); Kristian Nikolowski (Instituto Fraunhofer de Tecnologias e Sistemas Cerâmicos, na Alemanha); Monika Wilamowska-Zaw?ocka (Universidade de Gdansk, na Polônia); Vinicius Martins Zallocco (Senai) e João Gustavo Pereira da Silva, do Departamento de Matemática da UFSCar. Estão previstas também quatro bolsas, além da do pesquisador responsável: uma de nível de doutorado, duas de nível de mestrado e uma de iniciação científica.