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João Eduardo Justi - Publicado em 01-04-2026 13:00
Leis e uso da terra transformam matas ciliares em SP
Estudo aponta avanços, pressões e desafios para conservação (Foto: Paulo Guilherme Molin)
Estudo aponta avanços, pressões e desafios para conservação (Foto: Paulo Guilherme Molin)
Um estudo desenvolvido na UFSCar revela como alterações na legislação ambiental e nas formas de uso e ocupação da terra redesenharam as áreas de mata ciliar protegidas no estado de São Paulo ao longo de quase quatro décadas. A pesquisa foi publicada na revista científica Perspectives in Ecology and Conservation e analisou a dinâmica das Áreas de Preservação Permanente (APPs) ripárias entre 1985 e 2022.

O trabalho é resultado de um projeto de iniciação científica conduzido por Vinicius Moura Costa, durante sua graduação em Engenharia Ambiental no Campus Lagoa do Sino da UFSCar. A pesquisa investigou mudanças na cobertura e no uso do solo, identificando tanto processos de regeneração natural quanto a permanência de atividades agrícolas e urbanas em áreas protegidas.

De acordo com Costa, a análise histórica permite compreender melhor a efetividade das políticas ambientais. "Ao analisar quase quatro décadas de mudanças no uso da terra, conseguimos identificar tanto processos de regeneração natural quanto áreas onde ainda existe pressão sobre as APPs", explica o pesquisador.

O estudo foi orientado pelo professor Paulo Guilherme Molin, do Centro de Pesquisa e Extensão em Geotecnologias (CePE-Geo/UFSCar), que destaca a relevância dos resultados para a gestão ambiental. "As análises podem auxiliar órgãos ambientais na fiscalização, na regularização ambiental e na definição de prioridades para políticas públicas de restauração florestal", afirma.

Mudanças ao longo do tempo
Os dados mostram uma transformação significativa na ocupação das APPs ripárias no estado. Em 1985, cerca de 54% dessas áreas eram ocupadas por agricultura e silvicultura. Já em 2022, as formações florestais e naturais passaram a predominar, representando 49% da área total.

A análise das transições indica que: 39% das áreas já eram florestas em 1985 e permaneceram assim até 2022; 44% continuaram ocupadas por atividades agrícolas ou silviculturais; 9% passaram por regeneração florestal; 4% sofreram conversão de vegetação nativa para usos produtivos.

Além disso, houve aumento expressivo das áreas antrópicas, que cresceram 113% no período, com maior concentração na região metropolitana de São Paulo.

Outro dado relevante aponta que apenas uma pequena parcela das ocupações em APPs - cerca de 0,4% - já existia antes de 1985 e pode ser considerada regularizada, indicando que a maior parte das intervenções ocorreu posteriormente.

Apoio à gestão ambiental
O estudo também evidencia o potencial das geotecnologias e dos Sistemas de Informações Geográficas (SIG) como ferramentas estratégicas para a gestão pública. Ao integrar dados espaciais, informações legais e critérios de regularização, é possível identificar áreas prioritárias para conservação, restauração e fiscalização.

Segundo os pesquisadores, o uso de dados abertos e ferramentas acessíveis amplia a transparência e a eficiência das análises ambientais em larga escala. Para Felipe Rosafa Gavioli, coautor do estudo e servidor da Cetesb, o trabalho demonstra que é possível otimizar processos de licenciamento e fiscalização ambiental com maior alcance e precisão.

Os resultados reforçam a importância de políticas públicas baseadas em evidências e do monitoramento contínuo das áreas protegidas, contribuindo para a conservação dos recursos naturais e o planejamento sustentável do território.