Notícia
A professora Kátia Capel, docente no Departamento de Genética e Evolução (DGE) da UFSCar, participou da 2° Expedição Científica às Montanhas Submarinas Vitória-Trindade (ES), parte de um projeto que busca investigar a biodiversidade marinha da região. Como resultado, foram coletadas mais de 200 amostras biológicas, além do registro de possíveis novas espécies para a ciência.
A expedição durou 20 dias, de 17 de março a 4 de abril, e contou com uma equipe a bordo de 10 pessoas, entre cientistas de diversas instituições e equipe de apoio. Durante a expedição, foram coletadas 155 amostras de corais, pertencentes a 12 espécies diferentes, e 67 amostras de peixes, representando 29 espécies. As coletas foram realizadas em ambientes recifais rasos e profundos, com registros de biodiversidade em áreas que alcançam até 200 metros de profundidade.
A área engloba um Monumento Natural (MONA) das Ilhas de Trindade e Martim Vaz e do Monte Columbia e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Arquipélago de Trindade e Martim Vaz. De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), essas regiões constituem importantes reservatórios de biodiversidade marinha e vêm sendo gradualmente reveladas à sociedade por meio de pesquisas científicas e expedições oceanográficas.
"Nos cursos em que dou aula na UFSCar, muitos nunca ouviram falar sobre a Cadeia Vitória-Trindade", conta a professora da UFSCar. "O ponto mais incrível para mim foi a cor da água. Era tão transparente que às vezes nem parecia que tinha água! A visibilidade era de 30, até 60 metros. A gente via o fundo do mar ainda em cima do barco", destaca a professora. "Foram quatro dias de navegação até Trindade, e a água ia ficando cada vez mais azul. Por conta dessa transparência da água, a distribuição da fauna bentônica [organismos que vivem no fundo do mar] das ilhas é um pouco diferente do que a gente vê na costa. Os corais são mais abundantes a partir dos 20 metros de profundidade. O Monte Davis também chamou muito minha atenção. É uma formação construída principalmente por algas calcárias, batizadas de 'colinas coralinas'. É um ambiente único e muito rico".
Instituições participantes
A missão foi coordenada por pesquisadores do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP) e da Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST) e Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes - LabNecton, IctioLab e LabOGeo) e contou com apoio e a participação da UFSCar, ICMBio, Universidade de Newcastle, da Inglaterra, e Associação Ambiental Voz da Natureza.
A 1ª Expedição Científica à Cadeia Vitória-Trindade foi realizada em julho de 2025.
Objetivo
De acordo com o ICMBio, o foco das pesquisas foi priorizar áreas de difícil acesso e ainda pouco estudadas, utilizando métodos diretos e indiretos em ambientes recifais mesofóticos - ecossistemas que ocorrem em profundidades intermediárias do oceano, entre aproximadamente 30 e 150 metros de profundidade, onde ainda há incidência de luz, porém em menor intensidade.
Rotina dos cientistas
Como foram os 20 dias da expedição? Como eram feitos os mergulhos? O que buscavam? A professora da UFSCar conta como era a rotina intensa dos pesquisadores durante a expedição, entre mergulhos e triagem do material coletado:
"Tínhamos duas equipes de mergulho, uma fazendo um mergulho mais técnico, explorando as profundidades entre 30 e 60 metros, e uma outra equipe de mergulho raso, que ia até no máximo 30 metros. A primeira equipe era composta por três mergulhadores usando um equipamento de mergulho chamado rebreather, que recicla o ar respirado, e um quarto mergulhador com equipamento de mergulho autônomo monitorando o mergulho, para ajudar caso eles tivessem algum problema. A equipe do fundo ficava cerca de quatro horas na água, fazendo censo visual de peixes, vídeo transectos [em linha reta] para avaliar a comunidade bentônica e coletando material para identificação e análise genética. A equipe de mergulho raso fazia dois mergulhos por dia, com duração de uma a duas horas cada mergulho, e era mais focado na coleta de corais, água e sedimento para análises moleculares".
Além dos mergulhos, a professora conta que "também foram feitas imagens e coletas em áreas mais profundas (de 100 até 200 metros de profundidade) com um robô subaquático, o ROV (Remotely Operated Vehicle ou Veículo Operado Remotamente)".
"Então a nossa rotina era essa: alguns dias foram só de mergulho, outros só ROV e algumas vezes conseguimos fazer os dois. Era uma rotina intensa, depois dos mergulhos tinha a etapa de triagem; então nós gastávamos algumas horas filtrando água, organizando e fixando todo o material que foi coletado", detalha a docente da UFSCar.
Encaminhamentos
Segundo Kátia Capel, as amostras de DNA ambiental que foram coletadas vão ser analisadas na UFSCar, no Laboratório de Conservação e Biodiversidade Marinha (LaConBi-Mar), coordenado por ela. As amostras de corais e peixes serão processadas no CEBIMar. "No final será possível integrar esses dados e a gente espera ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade dessa região, que ainda é muito pouco estudada".
Trajetória
A professora conta como foi o seu percurso profissional até chegar a integrante da expedição:
"Eu sou docente no Departamento de Genética e Evolução da UFSCar desde agosto de 2024, antes disso eu era pós-doutoranda no CEBIMar/USP, onde eu ainda atuo como pesquisadora colaboradora. Eu trabalho com o professor Marcelo Kitahara, do CEBIMar, desde 2013, então temos uma parceria já muito estabelecida. Minha participação veio dessa parceria com ele, com o CEBIMar e com o Hudson, um dos coordenadores científicos da expedição. Eu trabalho com organismos recifais, com foco na conservação, evolução e sistemática de organismos recifais, principalmente os corais. Além disso, tenho uma linha de pesquisa sobre DNA ambiental, então meu papel na expedição era coletar amostras de corais e de DNA ambiental visando ampliar o conhecimento sobre a diversidade local e sobre como os corais da Cadeia Vitória-Trindade estão conectados com outros pontos da costa brasileira".
Mais informações
Saiba mais detalhes da expedição na matéria do ICMBio.