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Adriana Arruda - Publicado em 18-05-2026 13:00
Pesquisa da UFSCar investiga se planta pode "lembrar" de doença
O estudo foi capa da edição do Journal of Agricultural and Food Chemistry (Foto: Divulgação)
O estudo foi capa da edição do Journal of Agricultural and Food Chemistry (Foto: Divulgação)
Estudo do Departamento de Química avança em estratégia de manejo da gomose, uma das principais ameaças aos citros no Brasil

Texto: Antonio Rodrigues da Silva Neto*

Uma pesquisa desenvolvida por cientistas do Laboratório de Produtos Naturais (LPN) da UFSCar, em parceria com a Embrapa (BA), aponta novos caminhos para o manejo da gomose, doença que compromete a produção de citros no país. Causada pelo oomiceto Phytophthora citrophthora, a infecção pode atingir raízes, tronco e frutos, levando à queda de produtividade e à perda de valor comercial.

O estudo, publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry e liderado por Maria Fátima das Graças Fernandes da Silva, docente no Departamento de Química (DQ) da UFSCar, mostra que o uso da enxertia, técnica que combina partes de duas plantas em um único indivíduo, pode favorecer respostas mais eficientes contra o patógeno (P. citrophthora) que transmite a doença.

Na prática, a enxertia permite unir a copa de uma variedade produtiva, como a laranja "Pera", ao sistema radicular de outra planta, o porta-enxerto, selecionado por sua maior tolerância a estresses diversos. No estudo, diferentes combinações entre enxerto e porta-enxerto foram submetidas à inoculação e reinoculação com o patógeno, permitindo observar como essas plantas reagem após um primeiro contato com a doença.

Felipe Hilário, pesquisador de pós-doutorado no DQ, considera que "a ideia central não foi desenvolver uma nova técnica de enxertia, mas identificar por meio desta quais sistemas enxerto/porta?enxerto apresentam respostas de defesa mais eficientes e compreender os mecanismos bioquímicos envolvidos". Os resultados mostraram que a combinação entre enxerto e porta-enxerto altera significativamente a resposta da planta à doença. 

Em pares como laranja "Pera" sobre limão "Rangpur" e limão "Tahiti" sobre sunki "Tropical", as plantas que passaram por uma segunda infecção apresentaram lesões menores no caule, sinal de uma resposta imune mais eficiente. Esse comportamento veio acompanhado de alterações em nível molecular, especialmente em padrões de metilação do DNA, um tipo de "marca química" que regula a atividade dos genes. Nessas combinações, observou-se maior frequência de metilação completa e hemimetilação, associadas a respostas de defesa mais ativas.

Esses resultados indicam que experiências de estresse, tanto recentes quanto mais duradouras, podem deixar uma espécie de "marca" nas plantas. Essa marca não altera o DNA em si, mas influencia como os genes vão funcionar, como se fosse um ajuste fino no seu funcionamento. Isso acontece por meio de mudanças químicas, como modificações em proteínas associadas ao DNA (as histonas) e na metilação do DNA, que ajudam a "registrar" essas experiências e a preparar a planta para responder melhor a novos ataques.

Entre as respostas observadas estão alterações no metabolismo e maior produção de compostos naturalmente associados à proteção vegetal. Segundo Maria Fátima, "foram identificados níveis aumentados de cumarinas, flavonoides e alcaloides (substâncias naturais associadas à resposta da planta contra patógenos) potencialmente envolvidos após a reinfecção pelo oomiceto", afirma a pesquisadora. O acúmulo destas substâncias nos tecidos da planta é uma reação à presença do microrganismo invasor.

Hilário explica como é a ideia do funcionamento de defesa da planta: "esse comportamento está relacionado a um fenômeno conhecido como memória de defesa, ou priming. Nesse processo, a primeira exposição ao patógeno causa danos, mas, além disso, 'prepara' a planta para responder melhor em um novo ataque. É como se, diante de uma segunda infecção, ela já estivesse em estado de alerta, reagindo de forma mais rápida e eficiente. Ou seja, é o momento em que a planta ?lembra? da doença e consegue se defender de forma mais eficiente", detalha o pesquisador. 

No entanto, essa resposta não depende apenas da resistência individual de cada planta. O estudo mostra que a interação entre enxerto e porta-enxerto tem papel determinante: quando ambos apresentam níveis semelhantes de suscetibilidade, sejam mais sensíveis ou mais resistentes, a resposta tende a ser menos eficiente. Ou seja, não é apenas a força de cada parte que importa, mas como elas funcionam em conjunto.

Hilário trouxe que a robustez e a complexidade da pesquisa também evidenciaram limitações. "Apesar dos avanços, as análises mostram que as respostas das plantas não seguem um único padrão, mas resultam da interação entre múltiplos fatores, como o tipo de tecido, o estado fisiológico e as condições de infecção. Além disso, embora tenham sido identificadas alterações importantes no metabolismo, essas mudanças não apresentaram uma relação direta com mecanismos epigenéticos, como a metilação do DNA". 

A análise metabolômica identificou 66 compostos químicos, cuja distribuição variou conforme as combinações de porta-enxerto testadas e os padrões de inoculação aplicados. Os perfis metabólicos mostraram respostas distintas entre os tratamentos, mas não acompanharam os padrões de metilação do DNA descritos anteriormente, o que indica que a planta aciona mecanismos biológicos diferentes, e nem sempre coordenados, diante da infecção pelo patógeno.

A gomose é uma doença complexa e os dados mostram que há múltiplas camadas de resposta que precisam ser estudadas em conjunto, sendo uma limitação do presente estudo. Para os autores, compreender essas interações abre perspectivas concretas para o desenvolvimento de porta-enxertos mais tolerantes e para o manejo integrado da doença. Os resultados apoiam o uso da metabolômica para a detecção precoce da doença e destacam o valor da integração de abordagens moleculares para orientar o melhoramento genético de citros visando a resistência a doenças.

A repercussão do estudo também aparece nos indicadores de acesso. Nos últimos seis meses, o artigo somou 1.040 visualizações no periódico, figurando entre os trabalhos mais acessados. O dado apresenta o interesse da comunidade científica e do público leitor pelo tema investigado.

A pesquisa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e do Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), via os respectivos Processos: Fapesp 2024/01375-2, 2014/50918-7; CNPq 465357/2014-8; 408558/2024.

*Antonio Rodrigues da Silva Neto é mestre em Química (UESPI), doutor em Ciências (UFSCar) e bolsista de Pós-Doutorado de Mídia e Ciências - Jornalismo Científico/Fapesp pelo Laboratório de Produtos Naturais (LPN-UFSCar).